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EU & :Rogério Menezes: Eu & Gal Costa

 

Rogério Menezes

30/10/2016 09:29:00Atualizado em 30/10/2016 09:33:27

 

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Na adolescência eu desejava ser aquele rapaz que fosse o tal com o qual Gal queria se corresponder. Depois – a cada ‘meu nome é gal’ cantado e exaltado sempre de um jeito distorcidamente diferente por Maria da Graça Costa Pena Burgos – eu queria ser, além do rapaz que fosse o tal, a própria Gal, legal, fatal, que amava igual.  Então, a minha cabeça deu um nó total, não desatado hoje. Quer saber? Nem quero desatar. [Ainda mais depois que soube que eu & Gal temos os mesmos orixás de cabeça].

Nunca a conheci pessoalmente. Nunca a entrevistei profissionalmente. Nunca lhe enviei carta ou telegrama demonstrando-lhe idolatria. Nunca pedi a nenhum dos editores dos jornais e revistas nos quais trabalhei para entrevistá-la. Sempre achei babaquice essa coisa de correr atrás do ídolo, de querer pedaço da roupa do ídolo. Em 1980, quase caí em tentação: comprei assento na primeira fila – no gargarejo – do antológico e mítico show Gal Tropical, no Teatro dos Quatro, em Copacabana, Rio de Janeiro. Tive ganas de subir no palco e torpedeá-la de beijos.

Feito uma deusa, Gal Costa fazia por merecer: 1. À Iansã, se vestia de vermelho. 2. Também à Iansã, cantava e circulava lascivamente pelo palco e eu a aplaudia freneticamente a cada pausa da letra. 3. Também à Iansã, me olhava com rabo de olho, severa, mas carinhosa, mas acolhedora. O show me pilhou, me desconstruiu, me arrebatou, mas não caí na tentação de ir ao camarim depois do show para abraçá-la e festejá-la. Nunca fui disso. Celebridades me apavoram e me desorientam.

[Em 1967, aos 13 anos, pedi dinheiro à minha mãe e, coração aos pulos, fui correndo comprar o vinil Domingo, gravado em parceria com Caetano Veloso – Gal só lançaria o primeiro álbum solo em 1969. Gostei de tudo, o elepê inteiro me soou arrebatadora epifania. ‘Nenhuma dor’, em especial, me cortava o coração. Apenas voz e violão e uma Gal Costa de voz tão jovem e tão pura e tão cristalina que me fazia chorar sempre que a ouvia. Encantava-me também a pureza d´alma da cantora: superjovem, 22 anos, expunha, sem pudores, paixões homoafetivas: “Minha namorada tem segredos/Tem nos olhos mil brinquedos/De magoar o meu amor/Minha namorada muito amada/Não entende quase nada/Nunca vem de madrugada/Procurar por onde estou”].

Esse desencontrado pas-de-deus entre fã e ídolo deu em quase nada. O ‘quase’ fica por conta do primeiro romance que escrevi, aos 26 anos – mas só o publiquei em 1984, pela então inseridíssima no contexto Editora Codedri, braço literário do icônico jornal O Pasquim. Título da obra: Meu Nome é Gal. Não era biografia da cantora. Não tinha nada a ver com a cantora. Era apenas o diário meio esquizofrênico de funcionária pública que escrevia diário de bordo alucinado sobre os nove meses que morou no ventre da mãe.

Nome da funcionária pública: Margarida Serrana Lopes. Apelido: Gal. Daí o título do romance. Simples assim.

Podia ter enviado exemplar do livro com dedicatória, pelo correio, para Gal Costa. Nunca o fiz.

Baiano de Mutuípe, o jornalista e escritor Rogério Menezes publicou os romances Meu Nome é Gal, Três Elefantes na Ópera e Um Náufrago que Ri. Também autor do livro de crônicas A Solidão Vai Acabar com Ela

 

Extraído do site do Jornal Correio 24hs / Salvador – BA
http://www.correio24horas.com.br/detalhe/eu-%26/noticia/rogerio-menezes-eu-gal-costa/?cHash=e52580cb5d7a4d5e49891f0a9c856997

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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