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Ex-escravo brasileiro: autobiografia emociona com relato de sofrimento

25 de novembro de 2015 – 12h49 

 

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Milhões de seres humanos, caçados e sequestrados na África, cruzaram o oceano, até 1850, e desembarcaram no Brasil, onde foram escravizados. Deste período, o único registro biográfico sobre o que aconteceu foi o de Mahommah G. Baquaqua. Oriundo da faixa ocidental da África, Mahommah escreveu a única autobiografia de um ex-escravo que viveu no Brasil.
O livro, publicado em inglês em 1854, está em fase final de tradução para o português pelo historiador e consultor de estudos afro-brasileiros da Unesco Bruno Véras e deverá ser publicado em breve.

Abaixo, segue a tradução de um trecho do livro. O original, em inglês, pode ser encontrado no site: http://docsouth.unc.edu/neh/baquaqua/menu.html 

O navio negreiro

Isso é horrível! Quem pode descrever? Ninguém pode verdadeiramente retratar este horror, a pobre desventura miserável destes desgraçados que foram confinados dentro de seus porões. Oh! Amigos da humanidade, pena dos pobres africanos que foram pegos em ciladas e vendidos para um lugar longe de seus amigos e de suas casas, mandados para o porão de um navio negreiro para aguardar ainda mais horrores e misérias em uma terra distante. Fomos empurrados para dentro do porão do navio em um estado de nudez, os homens amontoados de um lado e as mulheres do outro; obrigados a agachar-se no chão ou sentar-se; dia e noite foram os mesmos para nós, o sono sendo negado por conta da posição incomoda de nossos corpos … sofrimento e fadiga.

Oh! A repugnância e sujeira daquele lugar horrível nunca serão apagados da minha memória. Enquanto a memória mantiver seu assento neste cérebro distraído, vou me lembrar disso. O coração se entristece, ainda hoje, ao pensar sobre aqueles dias.

Se aqueles indivíduos que são a favor da escravidão tomassem o lugar de um escravo no porão pernicioso de um navio negreiro, apenas durante uma viagem da África para a América, nem estou falando dos horrores da escravidão, apenas durante o trajeto, se eles não saírem de lá abolicionistas, então, não terei mais nada a dizer a favor da abolição. Mas acho que as suas opiniões e sentimentos sobre a escravidão serão alterados em algum grau. Quem é a favor de tal barbárie deve ser formado de ferro, não possuindo nem o coração e nem alma. Imagino que não possa haver um lugar mais horrível no mundo do que o porão de um navio negreiro!

A única comida que tivemos durante a viagem foi e milho cozido. Não posso dizer quanto tempo ficamos lá, mas pareceu um longo tempo. Sofremos muito por conta da falta de água, nos foi negado tudo o que precisávamos. Um grande número de escravos morreu na viagem. Havia um pobre homem, ficou tão desesperado pela falta de água que tentou roubar uma faca do homem branco. Ele foi levado para o convés e nunca soube o que aconteceu com ele. Eu suponho que tenha sido foi lançado ao mar.

Quando qualquer um de nós se tornava arredio à forma como estávamos sendo tratados, nossa carne era cortada com uma faca, e depois esfregada compimenta ou vinagre. O sofrimento foi nosso, não tivemos ninguém para compartilhar nossos problemas, ninguém para cuidar de nós, ou até mesmo para falar uma palavra de conforto. Alguns foram atirados ao mar ainda com vida. Apenas duas vezes durante a viagem fomos autorizados a ir ao convés para nos lavar – uma vez no alto-mar e outra antes de entrar no porto.

Chegamos em Pernambuco, América do Sul, no início da manhã. Durante todo aquele dia não comemos ou bebemos nada. Pousamos a algumas milhas da cidade, na casa de um fazendeiro, que era usada como uma espécie de mercado de escravos. O fazendeiro tinha um grande número de escravos e lá o vi usar o chicote contra um menino, o que causou uma profunda impressão em minha mente, como é claro, imaginei que seria meu destino dentro em breve! Muito em breve, infelizmente, meus medos se tornaram realidade.

Quando cheguei à praia, me senti aliviado por poder respirar ar puro. Alguns dos escravos a bordo podiam falar português. Eles estavam vivendo na costa com famílias portuguesas. Eles nos ajudaram a traduzir o que era dito. Não foram colocados no porão com o resto de nós, porém, desciam ocasionalmente para nos dizer uma coisa ou outra.

Permaneci no mercado de escravos, um ou dois dias, antes de ser vendido a um traficante de escravos na cidade, que, mais uma vez, me vendeu a outro homem, um padeiro.

Quando um navio negreiro chega, a notícia se espalha como fogo selvagem, e aparecem todos aqueles que estão interessados nas mercadorias vivas, selecionam aqueles que mais se adequam às suas finalidades. Compram os escravos como se fossem bois ou cavalos; mas se não encontram o tipo desejado, fazem uma encomenda para a próxima vez que o navio entrar no porto.

Eu tinha planejado, durante minha passagem pelo navio negreiro, conseguir um pouco de conhecimento do idioma português. Como fui comprado por um português, conseguia compreendê-lo. Sua família era formada por ele, esposa, dois filhos e uma mulher aparentada. Tinha outros quatro escravos, assim como eu. Era um católico romano e ia ao culto familiar regularmente duas vezes por dia. Fomos ensinados a cantar algumas palavras que não sabíamos o significado. Também tivemos que fazer o sinal da cruz várias vezes. Enquanto isso, meu mestre segurava um chicote na mão e aqueles que apresentavam sinais de desatenção ou sonolência eram imediatamente atingidos.

Fui logo colocado para fazer trabalhos forçados. Na época, este homem que me comprou estava construindo uma casa e teve que buscar pedras do outro lado do rio, a uma distância considerável, e eu era obrigado a levá-las. Fui obrigado a suportar este fardo por um quarto de milha, pelo menos, até onde o barco estava. Às vezes, a pedra pesava tanto em minha cabeça que eu era obrigado a derrubá-lo no chão, e então, o meu mestre, irritado, me chamava de cão. Nesta hora eu pensava que, na verdade, o cão era ele.

Logo melhorei o meu conhecimento do idioma português e fui enviado para vender pão para o meu mestre, primeiro dando voltas pela cidade, e, em seguida, pelas redondezas. Sendo bem honesto e perseverante, eu geralmente vendia para fora, mas, às vezes, não era tão bem-sucedido, e, em seguida, o chicote era meu destino.

Meus companheiros de escravidão não eram tão firmes como eu estava sendo, deste modo, não eram tão rentáveis para o meu mestre. Tentei me aproveitar disso para melhorar minha situação, mas não adiantou, descobri que tinha um tirano para servir, nada pareceu satisfazê-lo, por isso, comecei a beber como eles.

As coisas continuaram cada vez piores. Tentei fugir, mas logo fui capturado, amarrado e levado de volta. Um dia, quando fui enviado para vender pão, como de costume, só vendi uma pequena quantidade. O dinheiro que peguei bastou para a cachaça; bebi e fui para casa bem bêbado.

Quando meu mestre descobriu, fui espancado severamente. Eu disse que ele não deveria me chicotear mais, e ele ficou bastante irritado; pensei em matá-lo. Eu preferia morrer do que viver para ser um escravo. Então, corri até o rio e me joguei. Fui visto por algumas pessoas que estavam em um barco e salvo do afogamento. Agradeci a Deus que a minha vida tinha sido preservada e que nenhum mal ato tivesse sido consumado.

Após ser resgatado, fui levado à casa de meu mestre, que amarrou minhas mãos, colocou meus pés juntos e me chicoteou impiedosamente, bateu-me na cabeça e rosto com um pedaço de pau pesado, me sacudiu pelo pescoço. As cicatrizes do tratamento selvagem são visíveis desde então, e permanecerão assim enquanto eu viver.

Este relato não é nem uma mínima parte do sofrimento cruel que suportei. Eu poderia contar ocorrências que iriam congelar teu sangue jovem, horrorizar a tua alma e isso seria apenas uma das histórias promovidas pelos horrores do sistema escravocrata.

Fui novamente vendido e o homem que me comprou era igualmente muito cruel. Ele comprou duas mulheres na mesma época. Uma delas era uma menina muito bonita e ele a tratava com uma barbárie chocante.

Depois de algumas semanas, ele me despachou para o Rio Janeiro, onde fiquei duas semanas e fui novamente vendido ao capitão de um navio que era o que se pode chamar de “um caso difícil.” Logo fui posto em minhas novas atividades, a lavagem do navio, a limpeza das facas e garfos. Como me familiarizei com a tripulação e o resto dos escravos, e nos dávamos muito bem, em pouco tempo, fui promovido para o cargo de sub-intendente. Fiz tudo ao meu alcance para agradar a meu mestre, o capitão, e ele, em troca, colocou confiança em mim.

Nossa primeira viagem foi para o Rio Grande; a viagem em si teria sido agradável se eu não tivesse sofrido com a doença do mar. O porto de Rio Grande é bastante superficial, e, ao entrar, atingimos o solo, tivemos grande dificuldade em fazer o barco flutuar novamente. Finalmente conseguimos, trocamos nossa carga de carne seca. Fomos então para Rio Janeiro. Voltamos novamente para o Rio Grande e trocamos nossa carga de óleo de baleia.

Eu era apenas um escravo. Me sentia sem esperança ou perspectiva, sem amigos ou liberdade. Não tinha esperanças neste mundo e não sabia nada do próximo; tudo era escuridão, tudo era medo. O presente e o futuro eram como um só, nenhuma marca de divisão! Labuta!! Crueldade!
Tayguara Ribeiro, do Portal Vermelho

Extraído do portal de notícias Vermelho.org / São Paulo – SP
http://www.vermelho.org.br/noticia/273252-10

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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