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Fernando Pamplona: Ditadura Militar tentou controlar enredos do Salgueiro

Carlos Nobre | 08/06/2015 10h52   bio_carlosnobre_blogCarlos Nobre CULTURA AFROBRASILEIRA. Carlos Nobre é jornalista, pesquisador e professor do Departamento de Comunicação da PUC-Rio. É Mestre em Ciências Penais pela Universidade Cândido de Mendes. Autor de oito livros sobre discriminação racial, segurança pública e cultura afrobrasileira. Foi autor e coordenador da Coleção de Livros Personalidades Negras da Editora Garamond(RJ). * Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.   Nos anos 1960, o Salgueiro produziu uma das maiores mudanças ideológicas do Carnaval carioca. Ao invés de enredos anódinos, a escola apostou em temas africanos, raros nas escolas da época. Nestes enredos, os sambistas narravam sua própria história como afrodescendentes. Em vista disso, foram postos na Avenida enredos memoráveis como "Quilombo de Palmares", "Chica da Silva", "Chico Rey", "Valongo", "Praça Onze", "Aleijadinho".... Era, enfim, a consolidação do enredo afro via Salgueiro. fernando_pamplona_22_298Ao mesmo tempo, a escola abandonou definitivamente as fantasias europeias muito comuns em todas elas: ou seja, o negro trajado como rei europeu, usando perucas brancas iguais as dos colonizadores, roupas do mesmo quilate. Ou seja, era o oprimido falando com a boca do opressor. Na bateria, em alguns desfiles, os mestres incorporavam mais instrumentos africanos como atabaques, chocalhos, reco-reco, fortalecendo a dimensão afro-estética dos desfiles salgueirenses. Segundo o carnavalesco Fernando Pamplona (1926-2013), responsável por essa transformação do olhar salgueirense em relação ao Carnaval, a mudança despertou a atenção da ditadura militar (1964-1985). "O DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) e alguns coronéis não largavam de nosso pé. Uma vez na quadra Calça Larga, um coronel acompanhado de oficiais, me inquiriu: Por que vocês não contam a história da liberdade até os dias de hoje?", escreveu Pamplona em suas memórias, chamadas "O encarnado e o branco", publicada, em 2013, pela Nova Terra. Ou seja, eles queriam que a escola contasse a liberdade sob ponto de vista oficial, pois, nesse caso, havia vagas para louvar Duque de Caxias, Tiradentes, Dom Pedro I, Princesa Isabel e outros. Pamplona deu uma de João-sem-braço, não disse que sim, nem não, mas manteve seus enredos revisionistas da história brasileira, incorporando sempre uma certa visão afro da história. No entanto, constatou uma reação da ditadura militar com sua teimosia estética. Ou seja, percebeu que se iniciara outra pressão: o DOPS começou a infiltrar seus homens nos ensaios da escola. Os arapongas das três Forças Armadas compravam mesas, fingiam que eram apreciadores do samba, mas ficavam de olho em tudo que se passava nos ensaios da quadra. A forma como se comportavam chamavam atenção de todos que percebiam tratar-se de espiões e não de sambistas. Ao mesmo tempo, a ditadura militar acionava as delegacias comuns para prenderem sambistas salgueirenses importantes para o desenvolvimento da escola na Avenida. Era uma forma de "atrapalhar" a escola, provocando tensão na quadra com a prisão de seus principais chefes de ala. Nessas horas, Pamplona acionava amigos ou ia pessoalmente à delegacia para negociar a liberdade dos sambistas. Mesmo assim, a escola nunca se sujeitou, nem obedeceu aos pedidos dos censores para mudar sua linha afro nos enredos. Fonte: "O encarnado e o branco", de Fernando Pamplona (Nova Terra, RJ, 2013)   Extraído do blog do jornalista Sidney Rezende http://www.sidneyrezende.com/noticia/250215+fernando+pamplona+ditadura+militar+tentou+controlar+enredos+do+salgueiro

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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