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Festa de Preto Velho é forma de amor e luta pela liberdade religiosa

Thailla Torres | 15/05/2017 08:17

 

 

Noite é para louvar os Pretos Velhos e trazer a mensagem de amor e respeito às religiões. (Foto: Thailla Torres)

A noite reúne todos na varanda de casa. Com saias rodadas, turbantes e colares coloridos, adultos e jovens usam branco da cabeça aos pés. Em um sábado que seria mais uma noite de atendimento na Tenda de Umbanda Pai Joaquim, o rufar dos tambores e os cantos deixam claro que a noite é de celebração especial.

O convite estava aberto ao público no Facebook com título de “1ª Feijoada dos Pretos Velhos”. O nome faz referência ao 13 de maio, Dia da Abolição da Escravatura, quando em 1888 foi assinada a Lei Áurea, que aboliu ”oficialmente” a escravidão no Brasil. Mas ali ninguém voltou no contexto histórico para falar do sofrimento e da abolição.

Minutos antes do ritual começar, todo mundo está próximo, mas quase não dá para ouvir a conversa. Enquanto alguns estão arrumando o turbante, outros preparam detalhes da entidade, como a bengala, o fumo, cachimbo e chapéu de Preto Velho.

Margarida, dona da casa, é o exemplo de resistência contra o preconceito. (Foto: Graziela Almeida)

Margarida dos Santos, de 46 anos, é sacerdote e dona da casa onde trabalha espiritualmente na Tenda de Umbanda. Com espaço aberto há 25 anos, ela diz que a data é uma reflexão que vai além do período escravo. O evento foi criado para trazer a comunidade ao terreiro e mostrar a luta contra a intolerância religiosa.

“Nós viemos do lado negro, lembramos as pessoas de nosso passado e essa noite além de lembrar os Pretos Velhos, que foram escravos, queremos mostrar a importância da religião e acabar com todo esse preconceito. Acabar com as agressões e a falsa ideia que estamos aqui para o mal”, explica Margarida. 

A noite começa com cantos e danças, Margarida nos permite fotografar, mas com discrição para não incomodar caso alguém venha pela primeira vez à casa. Algumas cadeiras são organizadas em fileiras para quem vem de fora sentar. O público é pequeno e aparentemente, se sente à vontade na timidez. 

A energia positiva surge através dos cantos, ninguém é obrigado a cantar, mas quem está ali entra no clima das palmas.

Margarida tem familiaridade com todos os gestos e rituais dentro da casa, mas sabe que é preciso enfrentar de cabeça erguida a resistência de quem vê tudo aquilo como “coisa do mal”. “Já enfrentei muito preconceito. Tive que sair de outro lugar para não ser agredida pelos vizinhos. Por isso a data é tão importante para nossa liberdade religiosa. Quero ter a liberdade de sair na rua toda de branco, com meu colar no pescoço, considerando que isso é apenas a minha corrente”, explica.

Depois do passe e dos cantos, noite continuou com as festividades. (Foto: Thailla Torres)

Quem chega próximo à entidade tira os sapatos para tomar um passe. A conversa é minuciosa e abafada pelas canções que chegam para saudar à Preto Velho, sua humildade e fé.

Nos fundos da casa, enquanto o trabalho acontece, é o carinho e sorriso que não saem do rosto de Aline Arcanjo Faria, de 34 anos, na produção da feijoada. O prato começou a ser preparado um dia antes. A receita é servida aos convidados no final da cerimônia para continuar a celebração com uma roda de samba.

“Em toda festa de Preto Velho me emociono, choro e me dedico, porque sou negra, umbandista e sei o que passamos. No momento em que eles chegam, nunca lembram do rancor e nem da maldade que viveram, mas chegam para trazer alegria. Então a data é importante para tentar levar isso à comunidade e acima de tudo amor, mostrando que nossa religião é também de prosperidade, fé e respeito a todas as pessoas”, diz Aline.

Para lutar contra desigualdade e a intolerância, o jeito é tentar se aproximar com amor. “Tentamos trazer as pessoas para perto de nós, hoje desenvolvemos também um trabalho social e as mesmas pessoas que um dia jogaram pedras, são as que passaram a nos defender no bairro. Por isso acredito que para acabar com todo preconceito, só amor e fé são capazes de mostrar à humanidade que acreditamos no mesmo Deus, mas louvamos de um jeito diferente. Independente da religião, o Deus e o amor ao próximo é o mesmo”.

O lugar é aberto à todas as pessoas aos sábados.(Foto: Thailla Torres)

 

 

Extraído do site de notícias Campo Grande News / Campo Grande – MS
https://www.campograndenews.com.br/lado-b/comportamento-23-08-2011-08/festa-de-preto-velho-e-forma-de-amor-e-luta-pela-liberdade-religiosa

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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