Breaking News

Festa de Santa Bárbara une católicos e povo de santo: ‘respeito e tolerância’

Celebrações ocorrem nesta sexta-feira (4), no Pelourinho, em Salvador.
‘Congraçamento é bem melhor do que a guerra’, diz pesquisador.

Henrique MendesDo G1 BA | 04/12/2015 06h00 – Atualizado em 04/12/2015 08h14

 

Festa à Santa Bárbara une católicos e povo de santo (Foto: Max Haack/Ag. Haack)
Festa à Santa Bárbara une católicos e povo de santo (Foto: Max Haack/Ag. Haack)

Uma santa europeia e uma orixá africana. Sob o título de guerreiras, têm a cor vermelha como entrelace. Eis o símbolo do fogo. Nos céus, se conectam aos relâmpagos e às tempestades. Em terra, se aproximam na promoção da fé e do respeito à liberdade religiosa. Nesta sexta-feira (4), em Salvador, Santa Bárbara e Iansã recebem uma série de homenagens de devotos do catolicismo e do candomblé. Dentre eventos sagrados e profanos (veja aqui a programação), as entidades trazem à tona uma história de resistência e sincretismo. A festa é Patrimônio Imaterial do Estado e abre o calendário de festejos populares da Bahia.

Sempre soubemos que são entidades diferentes, mas enxergamos em Santa Bárbara uma fiha de Iansã. Mãe e filha a gente não pode botar para brigar.

Gidelci Leite,
professor da Uneb

“Eu compreendo que [a celebração conjunta] é uma forma de comprovar como as religiões de matrizes africanas agem com a união, não com a exclusão. Santa Bárbara é católica e branca. Iansã é africana. Sem sobrepor uma pela outra, a gente acaba fazendo esse culto conjuntamente. São entidades diferentes que se complementam”, destaca o professor da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), Gildeci Leite, pesquisador da afrobaianidade.

Segundo a fé católica, Santa Bárbara foi degolada pelo pai por conta da fé em um único Deus. Após a cabeça rolar ao chão, um trovão foi ouvido e autor do atentato foi morto atingido por um raio. O vínculo com fogo, advindo das tempestades, tornou a entidade padroeira dos bombeiros. Hoje, ela também é conhecida como protetora dos mercados.

Para as religiões de matrizes africanas, Iansã é a divindade dos ventos, dos raios e dos trovões. “Na verdade, o fogo é de Xangô [orixá masculino]. Mas ela é parceira dele. Ela lança o vento para que as labaredas aumentem”, detalha o pesquisador Gildeci Leite. Para ele, o manto vermelho que cobre Santa Bárbara é uma associação marcante entre as entidades.

“Sempre soubemos que são entidades diferentes, mas enxergamos em Santa Bárbara uma filha de Iansã. Mãe e filha a gente não pode botar para brigar”, reflete Leite sobre a importância do sincretismo e da liberdade religiosa. “O congraçamento é bem melhor do que a guerra”, conclui.

 

Santa Bárbara na igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos (Foto: Max Haack/Ag. Haack)
Santa Bárbara na igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos (Foto: Max Haack/Ag. Haack)

‘Respeito’
Secretária da Mesa Administrativa da Igreja de Nossa Senhora do Rosário do Pretos, que organiza as celebrações católicas para Santa Bárbara, Cosma Miranda afirma que a junção da crenças pode ser resumida em duas importantes características. “Tudo isso é possível graças à tolerância e ao respeito”, define.

 

Tudo isso é possível graças à tolerância e ao respeito

Cosma Miranda,
da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos

Miranda conta que os devotos que lotam anualmente as celebrações, independentemente da crença, têm inspirações comuns. “Eles buscam força, energia, resistência e fé. Aqui, também vêm agradecer às graças alcançadas”, afirma.

Há cerca de oito anos, a tradicional missa à Santa Bárbara, que ocorria dentro da Igreja de Nossa Rosário do Pretos, passou a ser realizada na área externa. “Isso aconteceu devido à proporção que tomou. Cada ano tem mais pessoas”, diz Miranda sobre agregação de católicos e povo de santo nas celebrações.

 

Festejos
A programação (veja completa abaixo) costuma reunir centenas de fiéis pelas ruas do Pelourinho, Centro Histórico de Salvador.

Uma das características da celebração é a oferta de caruru (prato típico que leva camarão, quiabo, azeite de dendê e pimenta) por parte de devotos que alcançaram graças atribuidas à santa. As festividades em homenagem à padroeira dos bombeiros e dos mercados serão abertas às 8h desta sexta, com uma missa campal no Largo do Pelourinho.

Depois da cerimônia religiosa conduzida pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, o cortejo com a santa parte do Pelourinho em direção ao Quartel do Corpo de Bombeiros, na Barroquinha, onde é saudada pela corporação junto com outra imagem existente na unidade. Do quartel dos Bombeiros, a imagem do cortejo segue para o Mercado de Santa Bárbara, local do tradicional caruru realizado pelos permissionários, com o apoio do governo do Estado.

Shows no Pelourinho
As comemorações no Largo do Pelourinho são retomadas às 14h, com a reunião dos devotos que retornam do cortejo e dos tradicionais carurus. A partir daí, a programação artística começa com Jorginho Commancheiro, acompanhado da banda Samba do Pretinho. Às 15h30, tem início a apresentação de Márcia Short, com repertório de canções dos shows Axé Acústico e Raiz Centenária.

A cantora Juliana Ribeiro se apresenta às 17h30, em um show de samba dedicado ao dia de Santa Bárbara. A programação no palco principal encerra ao som dos Negros de Fé, a partir das 19h30, que homenageia a data com um repertório especial, destacando canções que fizeram sucesso na voz de Maria Bethânia.

Os shows acontecem simultaneamente em outros palcos do Pelô, com muito samba e tradição. No Largo Pedro Archanjo, se apresentam a banda Sambatrônica, às 14h, o sambista Roque Bentenquê, às 16h30, e o Grupo Anjo Bom, às 19h. O Largo Tereza Batista vai ser agitado por Bambeia, às 14h, e o Samba Chula de São Braz marca presença a partir das 16h.

 

Extraído do portal de notícias G1 / Bahia
http://g1.globo.com/bahia/verao/2016/noticia/2015/12/festa-de-santa-barbara-une-catolicos-e-povo-de-santo-respeito-e-tolerancia.html

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

Related posts

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *