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Figura rara na cidade, cantor d’Os Tincoãs lança o CD ‘Fogueira doce’

Mateus Aleluia se apresenta quarta-feira na Arena Sesc Copacabana – Vinicius Xavier /

 

POR SILVIO ESSINGER

15/02/2017 8:00

 

RIO – “O tempo é o que o próprio tempo determina”, explica Mateus Aleluia, uma figura para lá de rara no Rio de Janeiro. Pois nesta quarta-feira, o cantor baiano, que fez parte do grupo Os Tincoãs, se apresenta no Sesc Copacabana, em uma ocasião igualmente rara: a de lançamento de mais um álbum solo, “Fogueira doce”.

Aos 73 anos, Mateus lançou apenas quatro LPs com Os Tincoãs, conjunto vocal que representou como poucos a música afro-baiana do cambomblé, e que teve uma de suas músicas, “Cordeiro de Nanã”, gravada por João Gilberto no disco “Brasil”. “Fogueira doce” é, tão somente, o segundo CD solo do cantor. Sua faixa-título nasceu de um desses momentos especiais, de quando ele vivia em Luanda e viu o sol nascer com inigualável beleza.

— Aquele era um tempo de guerra fratricida em Angola, você nunca pensaria em contemplação. Mas aquele sol não tinha nada a ver com aquilo, era uma fogueira que queimava e só fazia aquecer. E que despertava algo bom, que parecia estar esquecido e precisava ser exercitado. Era algo muito significativo — relata.

Mateus Aleluia e Dadinho (seu parceiro nos Tincoãs, falecido em 2003) saíram do Brasil em 1983, com Martinho da Vila e Luiz Carlos da Vila, numa missão cultural para Angola. O cantor seguiria morando no país pelos 19 anos seguintes.

— Para mim, esse tempo lá significou muito. Os Tincoãs sempre se basearam no lado ritualístico da ancestralidade religiosa africana e procuravam saber a origem daqueles cânticos, vindos das várias nações da África e que aqui se amalgamaram — conta ele. — Para nós, Luanda lá foi uma Xangrilá. Os povos do Congo e de Angola foram os primeiros a vir para o Brasil. Lá convivemos com músicos que nos pareciam inatingíveis.

De volta ao Brasil, Mateus participou do filme “O milagre do Candeal” (documnetário do espanhol Fernando Trueba sobre o sincretismo religioso na Bahia) e seguiu com seu trabalho musical. Em 2010, lançou o primeiro disco solo. Agora, ele volta com “Fogueira doce”, no qual teve o auxílio do produtor Alê Siqueira, que já trabalhou com Marisa Monte, Elza Soares, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown. O disco foi gravado com vários músicos, entre eles os filhos do cantor Mateus (trompete) e Fabiana (voz e piano):

— Foi um trabalho mais rebuscado em nível técnico, e o Alê teve sensibilidade de contribuir com uma visão de estúdio moderna, mas sem tirar nossas características — diz ele, que vem ao Rio acompanhado pelo filho e por Alexandre Vieira (voz, baixos acústico e elétrico), Alex Mesquita (guitarra e violão) e Luisinho do Jejê (percussão).

Em músicas como “Fogueira doce”, “Eu vi Obatalá”, “Bahia..bate o tambor” (só de Mateus), “Obatotô” e “Filha! Diga o que vê?” (parceria com Dadinho) e “Convênio no Orum” (com Carlinhos Brown), o cantor dá continuidade a suas misturas das heranças do candomblé e da música barroca católica:

— Por mais afro que sejamos, temos muito da cultura barroca. Nos navios negreiros, viemos embalados tanto pelos nossos cânticos quanto pelos dos jesuitas. Influenciamos e fomos influenciados.

Por falar nisso, Mateus tem acompanhado com atenção as discussões sobre apropriação cultural que vieram tomando as redes sociais nas últimas semanas. E tem o seu recado:

— O brasileiro é uma mistura, é possível que tudo isso seja mais uma questão política do que outra coisa. Mas acredito que é uma questão válida, é preciso estar fora da zona de conforto para que, da discussão, venha uma evolução.

A alegria de Mateus, hoje, é ver o reconhecimento ao seu trabalho (foi convidado para ser o mestre de cerimônias da mais recente edição do PercPan, que aconteceu em janeiro em Salvador) e acompanhar toda a nova geração influenciada pelo que fez nos anos 1970 com Os Tincoãs.

— Éramos como lobos solitários, trazendo a cultura do rito. Hoje, é muito gratificante quando vemos músicos do Rio, de São Paulo e da Bahia fazendo releituras dos cânticos e procurando um caminho dentro desse viés afro — conta. — É a certeza de que o que fizemos valeu a pena. A luta continua e a vitória é certa.

 

Serviço:

Mateus Aleluia lança o CD “Fogueira doce”

Quando: Quarta-feira, às 20h30m.

Onde: Arena do Sesc Copacabana — Rua Domingos Ferreira, 160, Copacabana (2547-0156).

Quanto: R$ 6 (associado do Sesc), R$ 12 (meia) e R$ 25.

Classificação: Livre.

 

 

Extraído do site do Jornal O Globo / Rio de Janeiro – RJ
http://oglobo.globo.com/cultura/musica/mateus-aleluia-traz-ao-rio-seu-concerto-afro-barroco-20924289

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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