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Força da natureza

Em parceria com a produtora Filmes da Diaba, Luiza Lian lança um projeto conceitual classificado de “álbum visual”. Misto de filme de ficção e trilha sonora, “Oyá Tempo” é inspirado na orixá dos ventos e das tempestades

Jamyle Rkain22/04/2017 9:50, atualizada às 20/04/2017 16:24

 

“Senti um frio na barriga por estar fazendo algo que nunca tinha feito, e não por estar criando algo diferente do que é feito por aí”, conta Luiza. Foto: Bruno Moya Fenart/Divulgação

Dois anos depois de lançar seu álbum de estreia homônimo, a cantora e compositora paulistana Luiza Lian traz à luz um novo projeto. Desta vez, suas canções vêm em formato inusitado: ao mesmo tempo que fecham o conceito de álbum, são embaladas como trilha sonora de um média-metragem, de 24 minutos, dirigido por Camila Maluhy e Octávio Tavares. Intitulado Oyá Tempo, o trabalho é, no conceito do trio, um “álbum visual”.

Em conversa com a reportagem de CULTURA!Brasileiros, Luiza explica que o cruzamento de linguagens de Oyá Tempo não foi algo premeditado. Segundo ela, a ideia surgiu em meio a um outro projeto, uma performance baseada em poemas de sua autoria, mas as proposições, no entanto, confluíram organicamente para que tudo tomasse um novo formato à medida que Luiza foi mostrando suas ideias para amigos e parceiros de trabalho. Naturalmente ela acatou algumas sugestões e chegou ao consenso de que deveria apostar nesse formato incomum. Além de reunir poemas que compõem a performance, o álbum, que contém oito faixas, é formado de composições inspiradas em pontos de umbanda – daí o título, uma referência à divindade da mitologia Yorubá, também conhecida como Iansã, que controla ventos, raios e tempestades – e traz influências nítidas de funk carioca e trip-hop.

Nos registros de estúdio as composições de Luiza foram revestidas de uma teia instrumental criada por Charlie Tixier (Charlie e os Marretas /Holger) e Gui Jesus Toledo, também responsável pela mixagem e masterização do trabalho. “Me colocar nessa nova posição foi uma maneira de me orientar”, diz Luiza.

A celebração a Oyá está presente de forma subjetiva em sequências do filme, e também em elementos sonoros das canções, repletas de efeitos lisérgicos e distorções, que remetem às intempéries climáticas. A atmosfera do média-metragem, em alguns momentos, é pesada e lúgubre, e sua narrativa se dá de forma fragmentada. “Queria mostrar a ideia do tempo como destino. Um tempo que não é linear”, explica Luiza.

Camila Maluhy, que toca a quatro mãos com Octávio Tavares a produtora audiovisual Filmes da Diaba, já havia demonstrado interesse em produzir um videoclipe da compositora. Oyá Tempo estava previsto para ser lançado no final de 2016, mas, como o trabalho ganhou esses novos contornos, só agora o álbum visual chegou ao mercado. A produção também marca a primeira parceria entre o selo fonográfico de Luiza, o RISCO, e o Filmes da Diaba.

A despeito das experimentações que culminaram na obra, Luiza pondera e diz que não teve a pretensão de trazer à tona algo inovador. “Senti um frio na barriga por estar fazendo algo que nunca tinha feito, e não por estar criando algo diferente do que é feito por aí”, defende.

O elenco do filme conta com a participação da cantora Nina Oliveira, que Luiza conheceu durante a gravação de um videoclipe da amiga Camila Garófalo, e do rapper MC Diggão. A identificação com Nina, segundo ela, foi imediata: “Nos conectamos e decidi apresentá-la para Camila e Octávio, porque achei que ela se encaixava muito bem no que procurávamos”. Já o MC foi descoberto casualmente pelos diretores quando eles perambulavam por Ubatuba e pediram a ele informações para construir o roteiro, que teve a praia do litoral norte de São Paulo como uma das locações.

Oyá Tempo também culminou na produção de um novo site para a cantora (luizalian.com.br), com projeto gráfico desenvolvido por Rafael Trabasso, conhecido como Dedos, com quem Luiza fez graduação em Artes Visuais. Inusitada como o álbum visual, a página virtual tem conteúdo de rolagem exclusivamente vertical e iconografia que remete à estética do longa-metragem.

No palco, com a proposta pouco usual deste trabalho, Luiza receava que o público recebesse os estímulos com certo estranhamento, mas ela conta que as reações têm sido muito positivas: “Algumas pessoas saem chocadas, emocionadas, se perguntando ‘o que foi aquilo?!’”, comenta feliz.

Oyá Tempo foi lançado virtualmente no final de março e pode ser assistido, ouvido e baixado no site da cantora ou apenas visto diretamente em seu canal do YouTube. O projeto foi apresentado recentemente na Matilha Cultural e na programação de uma ocupação na Casa do Mancha, espaços alternativos sediados em São Paulo. A apresentação na ocupação também contou com a performance que foi o ponto de partida para o trabalho.

Inquieta, Luiza já prepara o sucessor de Oyá Tempo. Recentemente se trancafiou com seus músicos no estúdio Canoa, no bairro do Sumaré, na zona oeste da capital, para gravar o novo disco, previsto para ser lançado pelo selo RISCO em setembro próximo. Até lá continuará a fazer apresentações regulares, que poderão alternar o repertório de seu álbum de estreia e o de Oyá Tempo. No dia 29 deste mês, no Audio Club, em São Paulo, Luiza fará o show de abertura do cantor e compositor escocês Paolo Nutini.

Link curto: http://brasileiros.com.br/x898m

 

 

 

Extraído do site da Revista Brasileiros / São Paulo – SP
http://brasileiros.com.br/2017/04/forca-da-natureza/

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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