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Fortaleza tem Povo de Santo sim!

 

ARTIGO 11/08/2014 – 18h41

 

fortaleza tem povo de santo sim

 

Há ainda quem diga que no Ceará não tem negros, negras, índios e índias. E há quem negue a presença desses povos na cultura cearense e nas religiões de origem afro-brasileiras. Perdeu-se no tempo quem ainda continua com essa conversa. As tradições afros e indígenas resistem e nos indicam que negros, negras, índios e índias estão em todos os lugares do nosso cotidiano, pertinho da gente, sentados ao nosso lado dentro do ônibus ou na sala de estar da clínica particular.
E para ilustrar essa presença, a Festa de Iemanjá na Praia do Futuro faz 46 anos na próxima sexta-feira, 15 de agosto. Uma festa que resiste ao tempo e a falta de vontade política do poder público. Umbandistas e candomblecistas de todo o Estado comparecem à Festa para saudar Iemanjá, Orixá trazida do continente africano pelos escravos e escravas e redesenhada pelo imaginário de brasileiros e brasileiras.
O antropólogo Ismael Pordeus Jr. indica que a Festa de Iemanjá teve início com Mãe Júlia em meados dos anos de 1970, quando a Praia do Futuro ainda era um lugar de difícil acesso aos Fortalezenses. Acompanho a Festa de Iemanjá desde 2008 e vejo o quanto é difícil a sua organização e realização. Se por um lado as instituições ligadas à Umbanda trabalham quase sempre de forma isolada, por outro lado, a falta de apoio político governamental também faz a diferença. Esse ano tem campanha eleitoral, quem sabe se haverá alguma mudança.
De todo modo, a festa acontece e cumpre o seu papel cultural e religioso. Cultural quando afirma a presença da tradição e da modernidade juntas no mesmo espaço. Religiosa quando reanima o mito através de seus ritos e símbolos. A festa é composta de muita dança, música, bebida, comida e as tradicionais oferendas à Iemanjá, a Rainha do Mar. O sagrado e o profano unem-se na beira da praia. Aqui não temos espaços para binarismos. O corpo do homem e da mulher umbandista é o corpo do sagrado. A gira na praia é comunhão de corpos.
Se Fortaleza tem Povo de Santo? Tem sim. E é muita gente nessa cidade que manda oferenda para Iemanjá. Se não vai à Praia do Futuro, vai a uma praia mais distante. Leva uma rosa e joga no mar. A macumba cearense, composta por tantos caboclos e caboclas, negros e negras, índios e índias, nos oferece a percepção de que somos um povo híbrido e destinado a estarmos em constantes mobilidades culturais. O desejo deste que aqui escreve é que os preconceitos, de vários tipos, não tornem invisível a Festa de Iemanjá e os Povos de Santo. Esses tantos povos índios, que aqui já estavam e negros que aqui chegaram, merecem tanto o nosso reconhecimento como o nosso respeito. E viva a Festa de Iemanjá.

Odoyá! Salve a Rainha do Mar!

Jean Souza dos Anjos
Teólogo e Especialista em Ciências da Religião

 

Extraído do site O Povo

http://www.opovo.com.br/app/jornaldoleitor/noticiassecundarias/artigos/2014/08/11/noticiajornaldoleitorartigos,3296367/fortaleza-tem-povo-de-santo-sim.shtml