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‘Fundamentalistas construíram poder político na sociedade brasileira’, diz babalaô

Ivanir dos Santos, da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa do Rio, diz que estado é omisso para conter preconceito

 

POR PAULA FERREIRA

30/05/2017 4:30

Babalaô Ivanir dos Santos – Paulo Nicolella / Agência O Globo

 

RIO- Um estado que de laico não tem nada. Essa é a opinião do babalaô Ivanir dos Santos a respeito da postura de autoridades e servidores públicos em relação ao respeito à pluralidade de crenças. Membro da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa do Rio, ele critica o poder público que, nas suas palavras, é “omisso”, e denuncia a frequência cada vez maior de casos de intolerância nas escolas.

A intolerância religiosa é um problema em todas as escolas?

O que mais chega até nós são casos da escola pública, mas isso não quer dizer que não haja na escola privada. O absurdo maior é o fato de termos um Estado laico, e na escola pública o funcionário público usar sua religião para perseguir ou discriminar pessoas nesse ambiente. Há professores que quando se deparam com um aluno de uma religião diferente, principalmente quando ele está paramentado, expulsa de sala, agride. Encontramos reação à cultura negra na escola. Quando tentam incluir elementos dessa cultura em sala de aula, o pai aparece na instituição e pressiona, ou o pastor local vai até lá. Em uma escola de São Gonçalo, não se podia ler Jorge Amado, porque ele abordava a religiosidade de matriz africana. Há várias formas da intolerância no ambiente escolar.

Esses casos chegam à Justiça?

Raramente chega à Justiça. Os casos ficam na esfera escolar e poucos são denunciados. Sei de casos nos quais nada foi feito, ou que chegaram a ser registrados na delegacia, mas não viraram processo.

Por que isso acontece?

A própria escola tenta dissuadir os pais a seguirem adiante. Quando o caso acontece na escola, muitas vezes, é uma atribuição do conselho tutelar e depois da promotoria. Mas há muita distorção mesmo entre esses profissionais. Nas eleições dos conselhos tutelares, por exemplo, várias igrejas apresentam candidatos. Se uma igreja tem seus adeptos dentro do conselho, isso pode fazer com que o caso não vá para frente. Se temos um Estado laico e há um funcionário que faz valer sua religião, ele está violando o Estado e sua função pública. As secretarias de Educação devem ter uma norma muito clara sobre isso.

Há um dado de que, no Rio, 70% dos casos de intolerância estão relacionados às religiões de matriz africana. Por que elas são o principal alvo?

Está relacionado ao racismo, ao confronto com uma identidade diferente e à pregação de religiões que demonizam essa cultura.

O poder público faz um combate efetivo à intolerância religiosa?

O poder público tem sido omisso. Os grupos fundamentalistas construíram poder político na sociedade brasileira. Inclusive estão representados no Parlamento. Quando o Executivo vai negociar sua estabilidade, negocia com essas pessoas. Obviamente há um poder de pressão grande no Executivo. No Judiciário também há grupos assim. As religiões africanas não têm esse poder. Se quem é do Estado e tem que zelar pela constituição age com intolerância, imagine quem esta embaixo.
Extraído do site do Jornal O Globo / Rio de Janeiro – RJ
https://oglobo.globo.com/sociedade/educacao/fundamentalistas-construiram-poder-politico-na-sociedade-brasileira-diz-babalao-21410847#ixzz4ils3jQv4 

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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