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Gestor anuncia tombamento da Pedra de Xangô como patrimônio

Yuri Silva | Qua , 28/12/2016 às 10:00 | Atualizado em: 28/12/2016 às 12:42

 

 Imponência da Pedra de Xangô, local utilizado por religiões de matriz africana para a realização de rituaisLúcio Távora | Ag. A TARDE

Imponência da Pedra de Xangô, local utilizado por religiões de matriz africana para a realização de rituaisLúcio Távora | Ag. A TARDE

A Pedra de Xangô, localizada na avenida Assis Valente, no bairro de Cajazeira 10, será oficialmente tombada como Patrimônio Cultural Municipal, em janeiro próximo, de acordo com o presidente da Fundação Gregório de Matos (FGM), Fernando Guerreiro.

Segundo estimativa do gestor, o prefeito ACM Neto publicará o decreto com a sanção do tombamento.

O dossiê feito pela FGM pedindo a proteção do monumento já foi aprovado pelo Conselho Municipal de Patrimônio e agora depende somente do aval do Executivo.

O objetivo da prefeitura, conta Guerreiro, é fazer a cerimônia de oficialização da proteção da pedra ocorrer no segundo domingo de fevereiro, quando anualmente acontece a Caminhada da Pedra de Xangô, organizada pela Associação Pássaro das Águas.

A entidade reúne terreiros de candomblé da região de Cajazeiras, principais interessados no tombamento. Isso porque a Pedra de Xangô possui forte ligação com a religião, sendo altar para oferendas sagradas. Em 2017, o monumento será festejado na oitava edição da caminhada.

Aquela área tem uma relação com o sagrado, tem a matriz de um rio ao lado e reservas de Mata Atlântica onde religiosos depositam oferendas

Fernando Guerreiro, presidente da Fundação Gregório de Matos (FGM)

“O objetivo final é sempre chamar atenção para a importância da pedra”, afirma Fernando Guerreiro.

“Aquela área tem uma relação com o sagrado, tem a matriz de um rio ao lado e reservas de Mata Atlântica onde religiosos depositam oferendas, além de ter sido um quilombo”, explica.

Guerreiro lembra, ainda, dos ataques que o altar já sofreu de religiosos neo pentecostais. Em uma das ocasiões, pichações foram feitas na pedra e sal grosso depositado ao redor.

APA

Por causa desses casos, além do tombamento, o local se tornará, ainda, Área de Proteção Ambiental (APA). Será o primeiro de Salvador a receber esse selo, segundo a assessoria da prefeitura. Isso significa que, a partir de então, o local passará a ser um parque, gerido por um conselho composto por membros do poder público e da sociedade civil.

A APA tem uma dimensão maior, já o parque ficaria em uma poligonal mais próxima à pedra

André Fraga, titular da Secretaria da Cidade Sustentável (Secis)

O titular da Secretaria da Cidade Sustentável (Secis), André Fraga, explica que a estrutura do local ainda será discutida com a comunidade, mas, a princípio, inclui ciclovias, arborização, criação de viveiro para o cultivo de plantas, além de uma área para as cerimônias religiosas.

“De verdade, são duas unidades de preservação. A APA tem uma dimensão maior, já o parque ficaria em uma poligonal mais próxima à pedra”, detalha Fraga, explicando que elementos de Mata Atlântica presentes no local motivam a proteção à área.

A previsão dele é que o conselho gestor do parque seja instalado “ainda no primeiro trimestre”.

“A meta é terminar a elaboração do projeto até o final de 2017 e, a partir daí, buscar recursos”, prevê o secretário. “Nós precisamos discutir como vai ser, porque esse parque tem características peculiares, diferentes de um parque urbano. Por isso tem que fazer de forma conversada”, afirma.

Luta pela preservação é tema de tese de mestrado

A Pedra de Xangô, conta a advogada Maria Alice Pereira da Silva, sofre riscos de ser afetada desde 2005, quando a avenida Assis Valente foi construída pelo governo do estado.

Ela, que estuda a história do monumento no mestrado da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da Bahia (Ufba), intitulou o trabalho de Pedra de Xangô: Rede e Lugar do Sagrado.

Sem ela, não seria possível chamar a atenção do poder público para essa questão

Maria Alice Pereira da Silva, advogada

Nele, a advogada detalha como a problemática em torno dos ataques à pedra aproximou terreiros de candomblé da região de Cajazeiras e adjacências.

Com isso, formou-se um grupo articulado de sacerdotes da religião de matriz africana.

Em 2005, conta, a pedra só não foi derrubada por causa de mobilizações da comunidade. “A avenida, que atualmente corta os bairros Fazenda Grande I, Fazenda Grande II, Boca da Mata e Cajazeira 10, foi construída, mas sem mexer na pedra”, rememora a estudiosa.

A construção da caminhada, segundo ela, também foi fruto dessa articulação. “Sem ela, não seria possível chamar a atenção do poder público para essa questão”, afirma Maria Alice Pereira da Silva. “Foi a caminhada, junto com diversas outras ações, que trouxe essas conquistas”.

Religiosa diz não ter sido comunicada oficialmente

A ialorixá Iara de Oxum, sacerdotisa do Ilê Tomim Kiosise Ayo, é um dos principais símbolos da luta pela proteção à Pedra de Xangô. Presidente da Associação Pássaro das Águas, Mãe Iara, como é conhecida, lidera há oito anos consecutivos a caminhada em defesa do monumento religioso.

Ela contou ao A TARDE, no entanto, que ainda não foi informada oficialmente sobre o andamento do processo de tombamento da pedra.

A previsão de realização da cerimônia de oficialização no mesmo dia da oitava edição da Caminhada da Pedra de Xangô também não foi comunicada à ialorixá, de acordo com ela.

“Só sei das especulações”, afirmou a líder religiosa à equipe de reportagem ontem à tarde.

Mãe Iara também contou que a Associação Pássaros das Águas não participou, até o m omento, das discussões sobre como será o parque na área do monumento sagrado.

Reunião 

Uma reunião, entretanto, está agendada para o dia 16 de janeiro, na prefeitura-bairro de Cajazeiras, para discutir a formação do conselho gestor, de acordo com a sacerdotisa. Ela defende a importância do tombamento para a preservação religiosa e ambiental do entorno.

“A primeira caminhada aconteceu para que órgãos públicos olhassem para o monumento sagrado. A partir do momento que ocorrer o tombamento, vai ser tudo de bom para o povo de santo e para a proteção da nossa história, do nosso povo negro, lembrando que ali foi um quilombo. Fora a questão da preservação ambiental, porque sem água e folha não existe axé”, lembrou Mã