Breaking News

Grupo Corpo foi a terreiros de umbanda para criar “Gira”, espetáculo que estreia em agosto, em SP

Em Belo Horizonte, apresentações acontecem de 2 a 6 de setembro

 por Márcia Maria Cruz 17/07/2017 20:03

 

Bailarinos do Corpo ensaiam na sede da companhia, no Bairro Mangabeiras, em Belo Horizonte (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)

Quando os bailarinos do Grupo Corpo pisam no palco, convocam para algo maior. Convidam o espectador a trocar o banal pela transcendência. Até os mais céticos chegam ao final das apresentações com a certeza de que seres humanos podem ser deuses. No 39º espetáculo da companhia mineira, a conexão com o divino se faz de maneira explícita. Do encontro com o trio Metá Metá nasceu Gira, que estreia em 4 de agosto, em São Paulo, e chega a Belo Horizonte em 2 de setembro.

O Corpo imergiu nas tradições africanas, que se materializam em encontros em que não podem faltar tambor, dança, comida e festa. Um dos momentos para religar o humano e o divino, a gira – como se denominam o espaço e o momento em que as entidades descem para que homens e mulheres se elevem – é uma das principais celebrações da umbanda. Quem chega ao terreiro aprende que a dança é um dos caminhos que levam à transcendência. A partir dela, não só encontramos os orixás, como nos tornamos parte deles. Com muito respeito, o grupo nos convida a conhecer a riqueza do universo da cultura afro-brasileira.

Se nessa cultura a premissa é o respeito aos mais velhos, a voz de Elza Soares, que canta em dois momentos da trilha, é autorização para seguir, sem medo do que vem pela frente. As composições do paulistano Metá Metá, cujo nome em iorubá significa “três ao mesmo tempo”, apresentam Exu, mostrando o quanto ele é energia da criação, mensageiro entre céu e Terra – de certa forma, o senhor do caos no que ele tem de potente e inovador. Não poderia ser diferente, pois cabe a Exu reger a sexualidade e fazer a mediação entre seres humanos e orixás.

Grupo Corpo e Metá Metá apresentam forte interpretação de Exu, desfazendo quaisquer mal-entendidos que possam associá-lo ao negativo, a forças diabólicas. Juçara Marçal (voz), Thiago França (sax) e Kilo Dinucci (guitarra) trazem sonoridade marcada por instrumentos de sopro, sem deixar de lado as percussões que tanto caracterizam os cultos africanos.

Dayanne Amaral: ‘Foi o meu primeiro contato com a umbanda. Vi que a Maria Padilha tinha um pouco de mim, uma sensualidade forte. Depois que terminar a turnê, pretendo voltar para agradecer’ (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)

Os bailarinos mostram que Exu é belo e faceiro – os movimentos dão pistas das gestualidades dos terreiros, sem ser óbvios. “Não queríamos trazer o terreiro para o palco. Ele existe no espaço dele”, afirma a bailarina Yasmin Almeida, de 24 anos, cinco deles dedicados ao grupo. É dela um dos solos mais emocionantes, incorporando toda a dualidade de Exu. “A gente empresta o corpo para a entidade trabalhar. Você é parte dela e ela é parte de você”, diz. Yasmin frequenta o candomblé desde os 13 anos, mas nem todos os bailarinos (são 21 em cena) tinham familiaridade com esse universo. Para compor o espetáculo, muitos deles foram a espaços de umbanda, como a Casa do Divino Espírito Santo, conduzida pelo pai de santo Marcelo de Oliveira, em BH.

“No solo, apresento uma energia mais masculina. A montagem se torna mais especial quando você tem envolvimento direto, quando você dança sobre o que acredita, o que te rege e te faz andar para a frente”, completa Yasmin.

O coreógrafo Rodrigo Pederneiras se aproximou dos terreiros devido ao espetáculo. “Conversei com o Tranca-Ruas, que ficou feliz ao saber que será homenageado”, revela, lembrando que há muita ignorância em relação aos cultos afro-brasileiros. Tranca-Ruas, Maria Padilha, Preto Velho e Pombagira são algumas das entidades a que o novo espetáculo se refere.

Maria Padilha “Foi o meu primeiro contato com a umbanda. Vi que a Maria Padilha tinha um pouco de mim, uma sensualidade forte. Depois que terminar a turnê, pretendo voltar para agradecer”, diz a bailarina Dayanne Amaral, de 25, responsável por um dos solos.

Paulo Pederneiras preparou surpresas como o “não cenário”, concebido como uma instalação. Diferentemente de outros espetáculos, em que entre um número e outro os bailarinos vão para as coxias, desta vez eles ficam todo o tempo no palco. Para demarcar a saída de cena haverá um véu. Os bailarinos estarão perfilados em cadeiras. Cada um receberá iluminação tênue.

Nos figurinos, Freusa Zechmeister propõe linguagem não demarcada por gêneros: bailarinos e bailarinas aparecem de torso nu e com saias brancas de tecido cru. “A saia é um permissor para que a coreografia possa acontecer. Vi o branco no terreiro e me encantei”, conclui a figurinista.

GIRA
Espetáculo do Grupo Corpo. De 4 a 13 de agosto, no Teatro Alfa, em São Paulo. De 23 a 27 de agosto, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. De 2 a 6 de setembro, no Palácio das Artes (Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro de BH). Sábado, segunda, terça e quarta, às 20h30; domingo às 19h. Ingressos: R$ 90 (inteira) e R$ 45 (meia-entrada).

 

*Na turnê de Gira, será exibido também o espetáculo Bach (1996), com coreografia de Rodrio Pederneiras e música de Marco Antônio Guimarães (sobre a obra de J.S.Bach) 

 

Extraído do portal UAI, do Jornal Estado de Minas / Belo Horizonte – MG
http://www.uai.com.br/app/noticia/artes-e-livros/2017/07/17/noticias-artes-e-livros,209876/grupo-corpo-foi-a-terreiros-de-umbanda-para-criar-gira.shtml

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Ilé Asé Omin Oiyn, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Hoje, é editor do Jornal Awùre. Diretor Financeiro da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. Colabora com a assessoria de comunicação do PPLE - Partido Popular da Liberdade de Expressão Afro-Brasileira. É sócio diretor na agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras.

Related posts

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *