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Há 25 anos, Salman Rushdie recebia “sentença de morte” islâmica

MUNDO

 

A partir do Irã, aiatolá Khomeini condenou em 1989 o escritor indo-britânico pelo supostamente blasfemo “Os versos satânicos”. Intolerância religiosa se acirrou após o 11 de Setembro, mas não é exclusividade do islã.

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Em 14 de fevereiro de 1989, o aiatolá Ruhollah Khomeini, então líder religioso do Irã, promulgou umafatwa (édito religioso muçulmano) exigindo a morte do autor indo-britânico Salman Rushdie, alegando que seu romance Os versos satânicos continha blasfêmias contra o profeta do islã, Maomé.

O título do livro se refere a um conjunto de versos supostamente excluídos do Alcorão. Neles, o profeta Maomé solicitaria a intercessão de três deusas pagãs de Meca. Segundo a lenda, esses versos foram eliminados do livro sagrado por não estarem de acordo com o monoteísmo do islã.

Os versos satânicos desencadeou violência em várias partes do mundo, sendo banido em países como Índia, Bangladesh, Indonésia e Paquistão. Profissionais associados a sua publicação e tradução sofreram atentados. Durante 13 anos, Rushdie teve sua liberdade pessoal seriamente cerceada e foi forçado a viver sob proteção policial e trocando constantemente de endereço.

“Ao ser acusado de conduta ofensiva, ele ficou genuinamente perplexo. Ele pensava ter abordado Os versos satânicos de forma artística – do ponto de vista de um incrédulo, é verdade, mas ainda assim de maneira adequada. Como se poderia considerar isso ofensivo?” Assim, na terceira pessoa, Rushdie escreve sobre a fatwa, que ele acreditava ser “sem fundamento”, em sua autobiografia Joseph Anton: A memoir.

Direito de ofender em nome da literatura?

 

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Aiatolá Khomeini (c) promulgou a “fatwa”

 

Hoje o escritor pode de novo aparecer em público. “Se você se sente ofendido por alguma coisa, o problema é seu”, declarou em 2012, durante uma cerimônia pelo lançamento de sua autobiografia em Berlim. “É bem difícil ficar ofendido por causa de um livro, você tem que se esforçar muito. Quando se fecha o livro, ele perde o poder de ofender.”

Mas será mesmo despropositada a ira que os muçulmanos dirigem contra Os versos satânicos? A fatwa decretada contra Rushdie terá sido realmente fora de propósito, e ele, injustamente difamado? Os escritores têm o direito de ofender em nome da liberdade de expressão?

O especialista em história religiosa Dwayne Ryan Menezes, da Universidade de Cambridge, diz ter dificuldade em simpatizar com pessoas que não reconhecem a riqueza e a diversidade do mundo islâmico.

“No entanto, a habilidade de tolerar dissensão e permitir liberdade de opinião é testemunho da força e maturidade das civilizações. Por isso, me espanta que aqueles por trás de algumas das civilizações mais ricas não sejam também os principais paladinos da tolerância no mundo de hoje.”

Menezes acrescenta que o édito de Khomeini contra Rushdie claramente transgride os artigos 18 e 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, referentes à liberdade de pensamento, consciência e expressão. “Assim, eu considero a fatwa um tanto imatura e certamente injustificável.”

Choque de fundamentalismos

Em 7 março de 1989, o Reino Unido rompeu relações diplomáticas com o Irã devido à controvérsia em torno de Rushdie. Porém, após mais de uma década, os laços foram restaurados quando o então presidente iraniano Mohammad Khatami comprometeu-se publicamente no sentido de que seu país “nem apoiaria nem impediria tentativas de assassinato contra Rushdie”.

Os linhas-duras do Irã, no entanto, seguem reafirmando a “sentença de morte”. Em 2012, a organização religiosa 15 Khordad Foundation incrementou o prêmio pela cabeça do escritor de 2,8 milhões para 3,3 milhões de dólares.

 

Taslima Nasrin foi vítima de radicalismo religioso hindu
Taslima Nasrin foi vítima de radicalismo religioso hindu

A controvérsia recrudesceu com o lançamento na internet do filme Innocence of Muslims. A provocadora produção americana de baixo orçamento desencadeou protestos violentos; o Paquistão e o Afeganistão bloquearam o acesso ao filme e baniram totalmente o site de compartilhamento de vídeos YouTube.

“Muitos muçulmanos viram em Innocence of Muslims o eco dos Versos satânicos de Rushdie”, explica Emrys Schoemaker, pesquisador de comunicação da London School of Economics. Ele lembra que, até pouco tempo atrás, era limitada a interação entre indivíduos de pontos de vista divergentes, e isso mudou com o advento da era da informação.

“Não existe mais o luxo do isolamento. Extremistas colidem uns com os outros, e não possuem as habilidades para debater. A consequência negativa dessa coisa toda é que essas pessoas adotam posições radicais, destinadas a agradar grupos marginais de interesse.”

Radicalização com o 11 de Setembro

Rushdie não foi o único escritor a incorrer na ira islâmica. Em 1993, Taslima Nasrin, natural de Bangladesh, ofendeu numerosos muçulmanos do subcontinente indiano com seu romance Lajja(vergonha). Ela teve que buscar refúgio na Índia devido às ameaças de morte de grupos fundamentalistas em seu país.

Em 2005, a publicação de charges humorísticas de Maomé pelo jornal dinamarquês Jyllands-Postensuscitou amplos protestos de muçulmanos. Especialistas atestam que, desde os atentados de 11 de setembro de 2011 e da subsequente invasão do Afeganistão pelos Estados Unidos, o mundo islâmico se radicalizou fortemente: a ameaça enfrentada por Rushdie e Nasrin agora se estende a vários autores e intelectuais pelo mundo afora.

Lindsey German – que fundou a organização Stop the War Coalition, sediada em Londres, em oposição à “guerra ao terrorismo” de George W. Bush – enfatiza a motivação política das diferentes reações e a necessidade de considerar o ódio dos muçulmanos por Rushdie dentro de um contexto maior.

“Eu não concordo com a fatwa que condenou Rushdie ou com o aumento do prêmio pela cabeça dele. Mas não se trata apenas da pessoa do autor, trata-se da política dos governos ocidentais no Oriente Médio. Enquanto eles não mudarem essas políticas, tais coisas vão continuar acontecendo.”

Intolerância em outras religiões

 

Rushdie na apresentação em Bombaim de filme baseado em "Os filhos da meia-noite"
Rushdie na apresentação em Bombaim de filme baseado em “Os filhos da meia-noite”

Syed Ali Mujtaba Zaidi, ativista xiita baseado em Karachi, Paquistão, declarou à DW ser “necessário lembrar repetidamente [o Ocidente] que não permitiremos que os blasfemadores continuem suas atividades, e que tornaremos miseráveis as vidas deles para que outros não os sigam”.

O agente literário indiano Manish Tripati, por sua vez, argumenta que a liberdade de expressão está ameaçada não apenas nos países islâmicos, mas também em outras regiões.

“Essa sensibilidade não diz respeito apenas ao islã. O pintor indiano Maqbool Fida Husain teve que abrir mão da sua nacionalidade em decorrência das ameaças de morte por fanáticos hindus. Ele passou os últimos anos de vida nos Emirados Árabes Unidos. Frequentemente, a intolerância está enraizada na ignorância.”

O poeta paquistanês Iftikhar Arif concorda. “Quando Martin Scorsese fez o filme A última tentação de Cristo, muitos grupos extremistas cristãos protestaram.” Ele desejaria que os seguidores das diferentes religiões fossem mais maduros em suas reações.

Literatura: forma ou conteúdo

Os versos satânicos é um romance mal escrito”, critica o jornalista Mohsin Sayeed, de Karachi. “O que Rushdie escreveu era aceitável no Reino Unido e no Ocidente, mas não nos países muçulmanos. O Ocidente tem dois pesos e duas medidas quando se trata de temas que ele considera sensíveis.”

Ao mesmo tempo, Sayeed admite que esse único livro não deve definir a estatura do autor. Em sua opinião, a segunda publicação de Rushdie, Os filhos da meia-noite, anterior a Os versos, é um livro “bem feito” sobre a divisão da Índia britânica.

O escritor e poeta paquistanês Salman Usmani, por sua vez, tem Rushdie em alta conta como um romancista que contribui imensamente para a riqueza da literatura inglesa. Ele acha que autores devem ser julgados exclusivamente por seu mérito literário, e que muita gente faz celeuma em torno do romancista indo-britânico sem nem mesmo ter lido os seus livros.

“O que é estranho em relação a autores controversos é que as pessoas geralmente fazem um grande caso por causa de aspectos específicos e ignoram a história que eles contam”, comenta Usmani.

DW.DE

 

Revolução Islâmica completa 35 anos com Irã ainda sob sombra de Khomeini

Movimento que começou como protesto heterogêneo, reunindo desde liberais a comunistas, derrubou o xá e deu lugar a um regime totalitário. Poder ficou nas mãos da classe religiosa, que até hoje dita as regras no país. (11.02.2014)

 

 

Salman Rushdie apresenta autobiografia em Berlim

Após um decreto religioso ter pedido sua morte no Irã, o escritor teve de passar vários anos na clandestinidade e viver sob a proteção de guarda-costas. Mesmo assim, ele conseguiu escrever sem amargura sobre a sua vida. (03.10.2012)

 

 

Filme anti-Islã e caricaturas de Maomé provocam protestos e mortes mundo afora

Após polêmico vídeo norte-americano, imagens satirizando profeta muçulmano publicadas na França contribuem para tumultos. Manifestações deixam mortos no Paquistão. França proíbe protestos e Obama tenta acalmar ânimos. (21.09.2012)

 

 

Controvérsia sobre Rushdie ressurge em meio a protestos no mundo árabe

O romancista Salman Rushdie criticou os protestos em vários países muçulmanos contra o filme anti-Islã realizado nos EUA. Ele disse ainda não se incomodar com novas ameaças à sua vida. (20.09.2012)

 

 

“Não se trata de provocação”, diz editor da revista com desenhos de Maomé

Gérard Biard, editor-chefe da revista de humor “Charlie Hebdo”, diz que a publicação exerce o direito da liberdade de expressão ao publicar desenhos de Maomé e não é responsável por eventuais reações violentas. (20.09.2012)

 

Extraído do site DW –  Deutsche Welle (jornal com sede na Alemanha)

http://www.dw.de/h%C3%A1-25-anos-salman-rushdie-recebia-senten%C3%A7a-de-morte-isl%C3%A2mica/a-17429606

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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