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Helena de Dan e sua filha Monica homenageiam o grande Rei Sogbò

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Helena de Dan (esquerda) e Monica de Sogbò (direita)
Foto: Sérgio D´Giyan

Texto: Sérgio D´Giyan

O Kwe Dzidúfé Fè Vodún Dú Dzikèdzò liderado pela Iyalorixá Mônica de Sogbò prestou uma grande homenagem ao Rei Sogbò. A cerimônia foi coordenada pela sua zeladora, a Iyalorixá Helena de Dan, matriarca do Kwe Sinfá.

Proveniente de Aladá, no Dahomey (atual Benin), chega ao Brasil, Gaiaku Rosena. No Rio de Janeiro funda a primeira casa de candomblé fon, o Kwe Podabá. Gaiaku inicia poucas pessoas, entre elas está a Sra. Adelaide do Espírito Santo, conhecida como Mejitó. Por sua vez inicia a Sra. Natalina, de Aziri, que ajudou a fundar o Kwe Sinfá, A Casa das Águas de Fá, localizada em São João de Meriti, no Rio.

Após seu fechamento devido ao falecimento de Iyá Natalina de Osun, como era conhecida, Mãe Bida, do Axé da Muritiba, filha de santo de Seu Nezinho da Muritiba, e muito amiga de mãe Natalina, seguindo a determinação de Fá, entrega o axé Kwe Sinfá e seus pertences sagrados à Helena de Dan, para assim perpetuar a história desse grande axé.

Se analisarmos o vodún Sógbó (grande raio) por etnias provenientes de Ghana, podemos identificá-lo como sendo um vodún feminino da família de Hebioso (ou Hevioso) que foi levado para o que hoje conhecemos por República do Benin, tendo passado pelo Tado (atual Togo) com as conquistas e expansão dos ewe-adja, cuja cultura no Brasil identificou o Candomblé de Jeje Dahomey (termo usado posteriormente para distinguirem-se de Minas e Mahis), ou simplesmente Jeje, de formação muito anterior ao reino de Dahomey dos Fons, contudo, quero aqui neste tópico considerar este vodún, como os mahis e outros povos do Benin e no Candomblé Jeje Mahi o consideram, ou seja: Um sinônimo do òrisà Sàngó. Muito antes do Culto de Hevioso já havia no Dahomey, e antes da formação do Dahomey propriamente dito, o culto do vodún Djisó (raio do céu), este culto tem origem nagô e era praticado pelo clã dos Djétovi e foi levado para Abomey na época do rei Glélé a partir de suas conquistas no território Mahi, daí Abomey perpetuar cultos distintos a Sógbó, uma forma feminina em uma família oriunda dos Adja, e outro à forma masculina oriunda do Mahis. Como o culto de Hevioso também se expandiu, tal forma feminina também é encontrada em locais distantes de Abomey.

Uma lenda  conta o seguinte:

Desejando descansar após criar o mundo, Mawu, deusa criadora, deu aos filhos Sakpata e Sógbó o cuidado de preservar o seu trabalho, mas os dois vieram a se desentender por ciúmes, a partir daí, Sakpata se punha distante de seu irmão para resolver problemas originados em seu reino, o céu.

Como filho mais velho, ele teve de herdar a maior parte dos bens de seus pais, Sógbó achava isso preferência pelo irmão.

Sakpata havia garantido para si uma posição de soberano e tinha uma grande alegria, a de que os homens mostravam reconhecer o seu reinado, porém, começaram a reclamar porque a chuva que deveria cair regularmente não caía, e começou, então, a haver muita seca por toda a terra. Eles reclamavam em alta voz com Sakpata, que por vez se lamentava pelo que estava acontecendo em seu reino, a terra.

Um ano se passou sem a menor gota de chuva… um verdadeiro caos.

A agricultura praticamente não havia mais, havia apenas seca e calor intenso na terra.

Sakpata observou que Lègba, seu irmão caçula que tudo vigiava e contava para Mawu, e um bokonon (advinho) viajava pela terra falando de Fá e do oráculo sagrado. Ele reuniu-se com eles e rogou por isso, por que a chuva era esperada e não vinha nunca. Foi consultando o oráculo com eles que soube que havia uma disputa entre ele e Sógbó, os dois aspirantes do título do poder, e essa era a raiz do problema.

Sua solução envolveu um acordo entre as duas partes. Mas, para isso, tinha que o mais antigo se reconciliar com o mais novo e lhe ser fiel. Sakpata teve a dolorosa lembrança de ter esquecido o fogo e da água. Tarde demais?… Ele tinha a visão de como os homens, animais e plantas precisam tanto desta água agora detida no céu por Sógbó. Quando perguntado como é que ainda poderiam salvar a terra, Fá o aconselhou a recolher alguns dos seus bens terrenos. O pássaro Otutu (Oferenda) iria levá-los para o céu e transmitiria uma mensagem para Sógbó, assim foi… e eis que a ave voando bem alto começou a cantar em plena voz: “Sakpata uma notícia para você! Entenda-me você, e então? Ele disse que tu abandones a casa, filho, pai, filho, mãe! Entenda-me você, e então?” Como garantia que ouviu e viu o portador dessa notícia Sógbó clareia a terra, lançando um imenso raio. Assim pode ele reconhecer o pássaro Otutu do irmão caçula que trouxe os presentes e a mensagem de seu irmão mais velho. Otutu disse que Sakpata, mandou dizer que “por ser mais velho, herdou todos os bens de seu pai, mas não havia reconhecido a verdadeira fonte do poder. Água e fogo tinham força para destruir todas as riquezas na terra, que é a razão pela qual o poder volta para aquele que o possui. Assim Sógbó superava a Sakpata.”.

“E eis que voltou a chover na terra.”

Os símbolos deste vodún são o machado de pedra do raio sokpè (sokpέn) em fongbè e o sosiovi, um chocalho que imita o barulho da chuva, e com o qual é saudado, e que os nagôs denominam sërë.

Sógbó costuma punir os malfeitores e feiticeiros, e sempre pratica a justiça. É conhecido pelos mahis com a denominação de Sógbó Adan, ou seja: Corajoso Sógbó, diferenciando-o.

Assim como o Tovodun (vodún das águas) Avelékété, da praia, do mar e da chuva forte é considerada a esposa de Hevioso, Öya (òrisà nagô) também é considerada a esposa de Sógbó Adan pelos mahis.

Seus filhos são: Djakuta (Adjakata; Jakata; Jakuta), Aklombe (Akolombe), Gbwesu (Besu), Akele, Alasan, Gbade (Bade), Aden, Kunte e Agbolensi. Todos pertencendo à família Jivodun (voduns do céu), e todos voduns do raio.

Quando Sógbó Adan dança com seu sokpè, imita os raios caindo sobre a terra, em ligeiras quebradas na dança. O que é exemplificado por esta toada muito conhecida nos candomblés de Jeje Mahi no Brasil.

A Iyalorixá Mônica de Sogbò se iniciou em 1987, no Djeje, pelas mãos do Babalorisá Jorge de Oyá (in memorian), e após seu falecimento dá continuidade às suas obrigações com a Iyalorisá Helena de Dan inaugurando assim seu axé há quatro anos.

Mônica era só felicidade pelo sucesso de sua festa, e agradece a sua mãe carnal, a Iyalorisá Marlene de Osun, que sempre esteve ao seu lado, a sua zeladora Helena de Dan, aos ogans, ekedjis, filhos e netos.

Mônica também agradeceu a presença de todos que estiveram prestigiando o grande Rei Sogbò.

O axé fica estabelecido na estrada Guandu do Sena. Como ponto de referência, essa estrada é a que leva ao complexo penal de Bangu, passando pela sua entrada principal, dois quilômetros, aproximadamente depois, ao passar pela entrada principal do “piscinão”, é o primeiro sítio na rua à esquerda. Para contatar Mãe Mônica ligue para os telefones 21 3336-5408 e 9-9165-0102.

Nota da Redação: O editor desse jornal agradece o gentil convite e hospitalidade de todo o axé, em especial a Mãe Mônica, Mãe Helena, Mãe Marlene e a Ekedji Elke Moura.

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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