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Historiadores americanos dizem que Portugal deve pedir desculpa por tráfico de escravos

Por

Lusa

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16 Julho, 2017

 

Lincoln Financial Foundation Collection / Wikimedia

“História da Escravatura”, William Blake (1860)Os líderes políticos portugueses devem pedir desculpa pelo papel do país no tráfico de escravos e incentivar uma discussão sobre o tema na sociedade portuguesa, defendem especialistas americanos ouvidos pela Lusa.

“O facto de que vários países decidiram que era importante fazê-lo sugere uma nova norma que merece reflexão. Do meu ponto de vista, um reconhecimento do passado contribui para um sentimento coletivo de reconhecimento de desumanidades do passado”, disse à Lusa Walter Hawthorne, historiador da Universidade de Michigan.

“O apoio do estado para estas iniciativas pode galvanizar a investigação e ajudar a informar melhor o público”, explicou Christopher Brown, professor da Universidade de Columbia, em Nova Iorque.

Para o docente, este impacto ficou evidente com o Museu de história Afro-Americana, uma iniciativa do presidente George W. Bush, autorizada pelo Congresso, que inaugurou em Washington no ano passado e foi o primeiro espaço na capital dos EUA dedicado à história dos afro-americanos.

Brown acredita que quando um líder político fala sobre estes temas “leva a história a uma audiência muito mais ampla do que os académicos alguma vez conseguiriam e desperta a curiosidade de todos aqueles que nem tinham pensado sobre isso antes.”

“Por isso, sim, a liderança política pode fazer uma grande diferença, sobretudo se acompanhada por um apoio do estado para melhorar o conhecimento e compreensão sobre o tema”, conclui.

Em abril, o presidente Marcelo Rebelo de Sousa visitou a ilha de Gorée, no Senegal, e disse que Portugal reconheceu a injustiça da escravatura quando a aboliu em parte do seu território, “pela mão do Marquês de Pombal, em 1761”.

As declarações foram feitas no mesmo local em que, anos antes, o Papa João Paulo II pediu perdão pela escravatura. A decisão de Rebelo de Sousa trouxe para a opinião pública uma discussão que até então estava praticamente reduzido à academia.

Walter Hawthorne, autor de livros como “From Africa to Brazil: Culture, Identity, and an Atlantic Slave Trade 1600-1830”, acredita que “um pedido de desculpas deve focar-se numa ação, com reconhecimento das consequências, e terminar com uma ação corretiva”, como a criação de um museu ou um centro de investigação.

Um pedido de desculpas ajudaria os 5.8 milhões de africanos tornados escravos e embarcados em navios com a bandeira de Portugal? Ajudaria aqueles que foram mortos em guerras causadas pelo tráfico de escravos? Por aqueles que sofreram há centenas de anos? Não, mas seria um passo em frente para melhorar a relação hoje em dia entre pessoas com cores diferentes”, defende.

“Grandes pessoas pedem desculpas e tornam-se melhores pessoas. Grandes países cometeram atrocidades. Grandes países pedem desculpa. Quando os seus líderes tomam essa ação, elevam os seus países”, acrescenta.

Hawthorne cresceu no sul dos EUA, um território marcado pela escravatura, e diz que conhece “bem as atrocidades que foram cometidas e a ligação que existe entre o trafico de escravos no atlântico e racismo, desigualdades globais em termos monetários, educação, emprego, saúde e muito mais.”

“As atrocidades dos meus antepassados devem ser reconhecidas e discutidas para que todos possamos curar. Claro que os líderes políticos são centrais para esta discussão. Devem liderar. Mas quando eles falham, devemos atuar sem eles”, explica.

O especialista acredita que os académicos portugueses têm feito esse trabalho, com alguns dos melhores meios disponíveis em todo o mundo, e que por isso a discussão em Portugal vai continuar, com ou sem liderança política.

Portugal acolhe coleções de arquivos incríveis e bibliotecas que iluminam a história da escravatura. Nas suas universidades, encontram-se alguns dos melhores historiadores da área, pessoas que dedicaram a sua vida a escrever livros e artigos para envolver o publico nestas importantes, mas distantes, discussões”, conclui.

 

Extraído do site português ZAP AEIOU / PT
https://zap.aeiou.pt/historiadores-americanos-dizem-portugal-deve-pedir-desculpa-trafico-escravos-166947

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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