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Identidade: Sobre capoeira gospel, bolinho de Jesus e afins

 

por Pai Rodney — publicado 20/10/2017 01h00, última modificação 19/10/2017 10h11

Tornar a cultura negra palatável é uma estratégia do racismo. O debate sobre apropriação indevida é sério e necessário

Wikimedia
A capoeira era crime no passado

“Lá vem esses pretos intransigentes dizer que branco não pode usar turbante”. Pode, sim. Aliás, deve. O que não pode é esvaziá-lo de significado. No candomblé, estamos acostumados a ver brancos de turbantes, comendo acarajé e dançando com seus orixás. Fazer parte de uma religião negra denota, no entanto, assumir valores culturais ou aceitar uma identidade que difere em muitos aspectos daquilo que pregam a fé cristã e o conjunto de princípios ocidentais.

Numa sociedade de consumo, tudo é produto e, ao que parece, há muito tempo se usa uma estratégia para tornar a cultura afro-brasileira palatável: apagar os traços negros, a origem ou qualquer outro elemento passível de rejeição, sobretudo aqueles que de alguma forma remetem à herança religiosa. O nome disso? Racismo. “Mas pra esses pretos complexados tudo é racismo”. Bom, então me expliquem por que o acarajé chegou a ser vendido nas esquinas de Salvador como “bolinho de Jesus”? Por que se inventou uma capoeira gospel? Por que orixá não pode ter cor?

Pra quem não sabe, o acarajé, uma das mais famosas iguarias da culinária baiana, é a comida votiva de Iansã, orixá guerreira, senhora dos ventos e das tempestades. Tombado como patrimônio nacional, está entre as tantas outras receitas que saíram dos terreiros, tomaram as mesas de todos os brasileiros e até se espalharam pelo mundo. Além do acarajé, caruru, vatapá, mugunzá, feijoada e tantos outros pratos são, na verdade, comidas de santo, ou seja, fazem parte das oferendas dos devotos do candomblé aos orixás.

A conversão de baianas do acarajé às igrejas neopentecostais tentou afastar do famoso bolinho de feijão fradinho os traços afro-religiosos, eliminando os rituais que antecediam sua venda, retirando os símbolos que enfeitavam o tabuleiro e as próprias baianas, mudando o nome africano. Para conter esse movimento foi necessária a intervenção de uma lei, mas o estrago é profundo, pois não se trata apenas de refutar os elementos específicos de uma cultura. Estamos falando de dominação, de uma posse indevida que visa exploração e lucro.

No caso do povo negro, a pior apropriação foi a escravidão. Primeiro se apropriaram dos corpos, depois das técnicas de trabalho na lavoura e nas minas, e seguiram se apossando das “obras” sem dar crédito aos autores, pois tudo que era negro pertencia aos senhores. Negro não tinha alma, negro não era gente e assim o racismo justificou a maior atrocidade da História.

“Se é bom não pode ser preto”. Mas é bom? Então que deixe de ser preto. Eis a “lógica” da apropriação. Mudar sentidos, depurar, esvaziar. Ocorre que essa lógica só se aplica à cultura negra e faz parte de uma estrutura que tem como base o consumismo, esse mesmo que cria significados simbólicos e necessidades, mas nesse caso tendo o racismo como um componente fundamental.

Samba e capoeira sofreram o mesmo processo. Anos e anos de perseguição, torturas e mortes para preservar esse patrimônio. Aí a indústria fonográfica investe na bossa nova, ganha o mundo e rios de dinheiro. Os sambistas do morro, negros e pobres (desculpem pelo pleonasmo), acabaram, no entanto, na miséria. “Essa é pra você que diz que branco não pode cantar samba.” Mas é claro que pode. O que não pode é negar a origem do samba. Não pode esquecer de Tia Ciata, Donga, João da Baiana e de todos os que levaram porrada para preservar a música que identifica o Brasil no mundo.

“Eh viva meu mestre, camará!” Capoeira gospel… É triste, mas tão triste que nem sei o que dizer. Resistência negra a toda degradação que a escravidão nos impôs, capoeira é luta, movimento de reação à humilhação, à chibata. Capoeira é insurreição, revolta. Capoeira já foi crime, sabiam? Aliás, talvez o grande crime seja nascer negro. “Lá vem esses pretos com seu vitimismo.” Pois é, senhores, denunciar um genocídio virou vitimismo. Temos que morrer calados. “Quem mandou ser preto?”

“Zum zum zum, zum zum zum, capoeira mata um”. Nem a faca de ticum que matou Besouro Mangangá daria conta de eliminar tamanha injustiça. Capoeira gospel é muito pior que apropriação cultural, é uma desonestidade imensurável. Posto que é negro, é de todos e se pode dispor como bem quiser. Alto lá. Respeitar a história do povo que criou e preservou é o mínimo. É preciso lembrar que antes da capoeira ganhar o mundo, antes de se tornar aceitável e atrativa, corpos negros tombaram à bala. Atabaque e berimbau, meu camará, cantam fatos sangrentos para forjar com coragem e força a identidade de um povo.

Nas ladeiras de Salvador tem capoeira e candomblé. No sobe e desce do Pelourinho, Mãe Débora, mulher branca e mãe pequena de um terreiro, vê com seus olhos verdes o colar de búzios rente ao pescoço da turista. “Como pode, meu pai, usar algo tão sagrado como enfeite?”, pergunta indignada. Boa filha de Nanã, ela sabe perfeitamente o que aquele “colar” significa.

Símbolos sagrados não podem ser desrespeitados, não podem ser esvaziados de sentido e comercializados como enfeites. São parte da cultura de um povo. Embora a potencialidade de instaurar o sagrado em qualquer tempo, em qualquer lugar, seja um direito de qualquer iniciado no candomblé, não pode, de forma alguma, ser confundida com indulgência. A religiosidade negra brota das ruas e encruzilhadas, está no samba, na capoeira, no acarajé. Culto que se pratica com alegria e regozijo, com música, com dança, com arte. Fé que se enfeita de contas e búzios, de formas e cores. Mas tudo isso tem origem, tem raça, tem história.

Por mais que sejam adotadas por gente de outras origens étnicas, religiões como o islamismo, o budismo, o hinduísmo, entre outras, não têm suas origens apagadas, todos sabem e respeitam sua ascendência árabe ou oriental. Mas orixá é amor, é energia, não tem cor. Não, não é bem assim. Ser de candomblé significa assumir uma crença discriminada e perseguida e exige que se tome posição diante do racismo e da condição do negro em nossa sociedade. Não se compreende o candomblé na essência sem entender que se trata de uma religião negra. Vou frisar: candomblé é uma religião negra, por isso é uma religião rejeitada.

“Agora esse preto vai dizer que branco não pode ser de candomblé.” Muito ao contrário, pode e deve. Não há problema algum em ser branco e de candomblé, mas tem que saber e assumir que seu orixá é negro.

 

Pai Rodney de Oxóssi é antropólogo, escritor e babalorixá. Há mais de 20 anos pesquisa relações raciais, racismo e religiões de matriz africana. É sacerdote do Ilê Obá Ketu Axé Omi Nlá. Escreve às sextas-feiras

 

Extraído do Caderno Diálogos da Fé, da Revista Carta Capital / São Paulo – SP
https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/sobre-capoeira-gospel-bolinho-de-jesus-e-afins

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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