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Ilê Axé Opô Afonjá celebra 80 anos dos Obás de Xangô

O título de Obá, exclusivo do terreiro do Afonjá, é dado a ogãs ou personalidades que se tornam braço direito da Iyalorixá

Clarissa Pacheco (clarissa.pacheco@redebahia.com.br)

13/07/2016 15:32:00Atualizado em 13/07/2016 18:57:23

 

O Pátio de Xangô, dentro de um dos terreiros de Candomblé mais reconhecidos do Brasil, se arrumou para a festa. Foram chegando cadeiras, uma mesa, o pano-da-costa e convidados, enquanto os atabaques se posicionavam de frente para o Machado de Xangô. É dia de festa no Ilê Axé Opô Afonjá, no bairro de São Gonçalo, em Salvador. Nesta quarta-feira (13), a Casa festeja os 80 anos de criação do corpo sacerdotal dos Obás de Xangô.

O título, exclusividade do terreiro de Nação Kêtu que tem 116 anos de história, equivale a uma espécie de ministro. Ele foi criado, há 80 anos, por Eugênia Anna dos Santos, a Mãe Aninha Obá Biyi, fundadora do terreiro em Salvador e também no Rio de Janeiro – se estivesse viva, Mãe Aninha festejaria, também nesta quarta-feira, 147 anos.

Obás de Xangô receberam homenagem nesta quarta-feira (13) no Ilê Axé Opô Afonjá (Foto: Marina Silva/CORREIO)
Obás de Xangô receberam homenagem nesta quarta-feira (13) no Ilê Axé Opô Afonjá
(Foto: Marina Silva/CORREIO)

De acordo com o presidente do Conselho Civil do Ilê Axé Opô Afonjá, Ribamar Daniel – o Obá Odofim –, os Obás foram criados para homenagear Xangô, o rei de Oyó, orixá da justiça. “O título de Obá é geralmente concedido aos Ogãs – sacerdotes – da Casa e a personalidades que frequentam o terreiro. São 12 obás, sendo seis da direita, que têm direito a voz e a voto, e seis da esquerda, que têm direito a voz”, explica o Obá Odofim – um dos seis da direita, que tem direito a tocar o xeré em saudação a Xangô.

“Os Obás são o braço direito da Iyalorixá dentro do terreiro, cuidando tanto de questões civis quanto algumas religiosas, já que o conselho religioso é formado só por mulheres”, explica o músico, artista plástico e publicitário Adriano de Azevedo, o terceiro Obá Abiodum da história, responsável por liderar o corpo sacerdotal. “Meus antepassados contavam que Mãe Aninha agiu estrategicamente ao criar o corpo de Obás”, explica Adriano.

A Iyalorixá da Casa, Mãe Stella de Oxóssi, concordou. Ela disse, ainda, se sentir orgulhosa do fato de o Afonjá ser reconhecido como um exemplo. Mãe Stella aproveitou para homenagear Mãe Aninha e relembrou o papel importante da mãe de santo na luta contra a repressão aos terreiros de Candomblé e à capoeira.

Mãe Stella de Oxóssi lembrou histórias da atuação de Mãe Aninha em defesa do culto afro (Foto: Marina Silva / CORREIO)
Mãe Stella de Oxóssi lembrou histórias da atuação de Mãe Aninha em defesa do culto afro
(Foto: Marina Silva / CORREIO)

A historiadora americana Jamie Lee Anderson, nascida na Califórnia, que veio para a Bahia para um mestrado sobre Estudos Étnicos e Africanos na Ufba, aguardava para conhecer, pela primeira vez, a história dos Obás. Lá, encontrou visitantes de Michigan, também nos Estados Unidos, e acabou fazendo as vezes de tradutora.“Bem na recessão, ela conseguiu embarcar num navio e foi ao Rio de Janeiro, por intermédio do ministro da Casa Civil Osvaldo Aranha, e ela conseguiu falar com Getúlio Vargas e pediu a ele, bem na ‘cara de pau’, para que permitisse que a gente pudesse adorar os orixás. Daquele dia em diante, foi mais fácil adorar os orixás”, disse Mãe Stella, se referindo ao Decreto 1.202, de 1939, que retirou dos municípios o poder de repressão direta aos terreiros e à capoeira.

“Eu fiz a minha pesquisa sobre a história do matriarcado e esse terreiro faz parte dessa história. Também não conhecia Mãe Stella pessoalmente, só conheci hoje. Eu já conhecia o terreiro pela parte histórica, agora venho conhecer pela parte da festa”, disse Jamie, que vive no Brasil há cinco anos.

Programação
Enquanto Mãe Stella de Oxóssi se preparava para a abertura da celebração em homenagem aos Obás, visitantes foram chegando: desde a comunidade, que aproveitou o dia de festa para fazer consultas médicas e odontológicas de graça pelo ônibus do projeto Saúde em Movimento, até professores, turistas e estudiosos.

A diretora da Editora da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), Sandra Soares, foi ao local entregar oito exemplares de livros já publicados pela editora com temática relacionada ao candomblé. Um acordo de cooperação garantiu que todas as próximas publicações também sejam entregues para a Biblioteca do Afonjá. A Uneb também cedeu servidores e estagiários para trabalhar na biblioteca.

Projeto Saúde em Movimento faz atendiemtnos médico e odontológico de graça mensalmente no terreiro (Foto: Marina Silva / CORREIO)
Projeto Saúde em Movimento faz atendiemtnos médico e odontológico de graça mensalmente no terreiro
(Foto: Marina Silva / CORREIO)

Ainda nesta quarta, o pesquisador Muniz Sodré faz uma palestra sobre a história dos Obás, enquanto Jaguaracira Sant’Anna lança o livro Um Presente de Xangô: Minhas Memórias. Durante a tarde, estão previstas ainda oficinas, debates e apresentações culturais.

Já o atendimento no ônibus Saúde em Movimento segue até o final da tarde, com a realização de 50 consultas para adultos com clínico geral e ginecologista, 50 consultas com pediatra, além de limpeza e extração dentária, aferição de pressão, glicemia, anemia falciforme e teste rápido de detecção do HIV.

 

 

Extraído da versão digital do Jornal Correio 24* / Salvador – BA
http://www.correio24horas.com.br/detalhe/salvador/noticia/ile-axe-opo-afonja-celebra-80-anos-dos-obas-de-xango/?cHash=c13c2bdae95e6da654595de31adb1aa1

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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