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Ilê Ayiê conta a história do povo Jeje e leva mensagem contra a intolerância

26/02/2017 09h13

Salvador

Sayonara Moreno – Correspondente da Agência Brasil

O tradicional bloco afro Ilê Ayiê saiu às ruas de Salvador (Mateus Pereira/GOVBA)Mateus Pereira/GOVBA

 

 

O tradicional bloco afro Ilê Ayiê desfilou nas ruas de Salvador na noite deste sábado (25), recontando a tradição do povo negro pela 43ª vez. Para o carnaval de 2017, o Mais Belo Dos Belos levou o tema Os Povos Ewé/Fon, a Influência do Jeje Para os Afrodescendentes, como forma de contar a história da chegada do povo Jeje ao Brasil – identidade étnica de alguns africanos escravizados. Como parte da homenagem, alguns terreiros de candomblé – pertencentes à nação Jeje – foram lembrados, inclusive o Terreiro Ilê Axé Jitolú onde surgiu o Ilê Ayiê.

“O tema é muito interessante, porque fala sobre a nossa religião e citamos terreiros importantes. Neste carnaval, nossa cultura e nossa tradição são retransmitidas através de nós. Num momento em que se fala tanto sobre intolerância religiosa, é muito importante ter um tema desse, com as canções que falam disso, cantadas por todo o mundo”, disse um dos fundadores do bloco, Antônio Carlos dos Santos, conhecido como Vovô do Ilê.

Antes de seguir para o Circuito Mãe Hilda, um ritual foi celebrado no Terreiro do Ilê Ayiê, de onde saíram os participantes, pela Ladeira do Curuzu. A ialorixá do terreiro, a mãe-de-santo Hildelice Benta, presidiu uma cerimônia, enquanto a banda do Ilê tocava as canções tradicionais do bloco, aos batuques de tambores, e outros participantes jogavam pipoca e milho branco no povo.

A pipoca é uma oferenda ao orixá Obaluaê, o santo ao qual pertencia Mãe Hilda, já falecida, que foi esposa do fundador Vovô do Ilê. O milho branco foi ofertado a Oxalá, um dos principais orixás do candomblé, a quem se pede paz. Após as oferendas, fundadores do Ilê soltaram pombos brancos, como fazem tradicionalmente, para reforçar o pedido de paz.

Representatividade

Salvador – O tradicional bloco afro Ilê Ayiê saiu às ruas de Salvador (Mateus Pereira/GOVBA)

 

 

Além da cerimônia e do desfile, o evento foi marcado pela apresentação ao público da recém-eleita Deusa do Ébano do Ilê Ayiê de 2017, Gisele Soares. Escolhida para representar a beleza e a resistência da mulher negra, a mais nova Rainha do Ilê passou por uma fase de preparação e isolamento, por três dias. Gisele foi vestida e embelezada pelos tecidos do bloco e pelas mãos da responsável pelo figurino do Ilê, Dete Lima.

A nova Deusa do Ébano se emocionou em alguns momentos da cerimônia e disse ter tentado segurar as lágrimas, sobretudo pela “honra em representar a beleza negra” e a responsabilidade de representar isso para outras meninas que precisam se aceitar e ter auto-estima.

“Quando fui eleita, senti uma realização. Realização de sonho, de afirmação da minha negritude, realização de conquista de luta diária que todas nós mulheres negras lutamos e sofremos, todos os dias, para sermos reconhecidas na sociedade. E quando você recebe um cargo de Deusa do Ébano e sabe que vai representar todas essas mulheres que não se veem em lugar nenhum, mas vão se ver em você, é uma honra”, disse emocionada Gisele Soares, de 24 anos.

Dificuldades financeiras

Este ano, o Ilê Ayiê foi às ruas com menos patrocínios que nos anos anteriores e alega enfrentar dificuldades financeiras. Na avenida, o Mais Belo Dos Belos levou menos alas do que o comum e incluiu dançarinos que participaram voluntariamente, sem receber pagamento. O bloco também reduziu pela metade o número de percussionistas, que foram apenas 50 este ano.

O governo do estado da Bahia financia parte dos desfiles. Mas a falta de patrocínio da iniciativa privada também pode afetar a continuidade dos projetos sócio-educacionais do Ilê, como a Escola Mãe Hilda e a escola de arte educação Band’Erê.

“A dificuldade em captar patrocínio tem de ser discutida aqui na nossa cidade. Nós [pessoas negras de religiões afro] somos maioria, consumimos qualquer tipo de produto. Há uma dificuldade de sensibilizar a percepção dos empresários de que é importante juntar o produto deles com a marca do Ilê Ayiê, daria retorno, mas infelizmente não conseguimos essa sensibilização”, lamenta o fundador Vovô do Ilê.

Presente também na cerimônia, a secretária estadual de Promoção da Igualdade Racial, Fábia Reis, associou a queda de patrocínio ao “racismo institucional”, que desmerece a cultura e o público negro – maioria em Salvador – e apoia somente projetos com apelo comercial e midiático.

“É importante que elas [empresas] olhem os blocos afro de um modo geral, como os de samba ou afoxé, que têm essa ligação identitária com o nosso carnaval. O carnaval da Bahia tem essa força e essa beleza estética por essa presença [do povo negro], então é importante que as cervejarias – que são grandes patrocinadoras e investem no carnaval – vejam que a população, a massa consumidora da cerveja, é o povo negro, maioria aqui na cidade, que é a mais negra fora de África. Então, é o seu consumidor e ela [cervejaria] precisa respeitar, valorizar, patrocinar, não só no carnaval, mas durante todo o ano”, argumentou a secretária.

O desfile atraiu a participação de diversos visitantes, além de vereadores, deputados, secretários, do prefeito de Salvador, ACM Neto, e do governador da Bahia, Rui Costa. Após a cerimônia na Ladeira do Curuzu, no bairro da Liberdade de Salvador, o cortejo saiu às ruas do Circuito Osmar, no Campo Grande, na madrugada de hoje (26). Amanhã (27) e na terça-feira (28), o bloco afro mais antigo de Salvador volta ao Circuito Osmar, puxado por trios.

Edição: Lidia Neves

 

Extraído do portal EBC / Brasília – df
http://agenciabrasil.ebc.com.br/cultura/noticia/2017-02/ile-ayie-conta-historia-do-povo-jeje-e-leva-mensagem-contra-intolerancia

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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