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Ilustre terreiro: Ao evocar elementos de religiões de matrizes africanas, série de eventos em BH fortalece a luta contra a intolerância religiosa

 

 

PUBLICADO EM 02/09/17 – 03h00

ALEX BESSAS

Exu Tranca Rua das Almas já havia assoprado para o pai de santo Marcelo Augusto de Oliveira: se aproximava, pois, importante momento para as religiões de matrizes africanas e para seu terreiro, a Casa do Divino Espírito Santo das Almas, que há 34 é um dos solos sagrados de umbandistas belo-horizontinos. Por isso, “esperávamos algo, mas não que fosse tanto”, comenta o pai Marcelo, lembrando que teve a revelação em uma gira, como são chamadas as cerimônias da umbanda em que divindades se manifestam. Meses depois, recebia com uma espécie de “consciente surpresa” os bailarinos do Grupo Corpo, que preparavam o espetáculo “Gira” e buscavam sua orientação, pois a montagem se inspira na figura de exu, uma das divindades da religião.

“Acho que as entidades estão nos dando essa oportunidade de, através desses artistas, levantar nossa bandeira, alcançar outras tribos, desfazer esse preconceito cultural que existe no nosso país”, propõe o pai de santo, fazendo menção especialmente a “Gira”, que estreia no Palácio das Artes neste sábado (2), mas também a outros eventos que, igualmente, fazem referência a elementos das religiões afro-brasileiras, caso, por exemplo, das apresentações musicais Terreiro Zen e Suíte para os Orixás, também marcados para este sábado (2) – veja quadro nesta página.

Sentindo-se “agraciado” e com a “certeza do dever cumprido perante meus antepassados”, o pai Marcelo celebra que sua religiosidade ganhe eco em importantes palcos da cidade. Sua opinião é compartilhada por praticantes e pesquisadores das religiões afro-brasileiras. Célia Gonçalves, a Makota Celinha, presidente do Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-Brasileira (Cenarab), aprova tais ações culturais.

O antropólogo Rafael Barros, por sua vez, destaca a importância desse tipo de ação afirmativa também no campo das artes. “Penso que a visibilidade seja uma das maiores estratégias para a gente conseguir lutar contra essa realidade triste e concreta do racismo no país”, assegura.

E, bem, levar estas manifestações para importantes arenas culturais faz todo sentido. Afinal, “exu é isso, é arte, é o que nos liga entre céu e terra”, estabelece pai Marcelo, buscando concordância em Yasmin Almeida, bailarina do Grupo Corpo e candomblecista desde seus 13 anos.

Embora seu terreiro seja o Gutevi, em Salvador, Yasmin também frequenta a Casa do Divino Espírito Santo das Almas quando está em BH. Sua história com a religião vem de sua adolescência, quando viveu na Bahia. Embora já tivesse contato com o espiritismo desde criança, através de tias e da avó, foi lá que travou contato com o candomblé. “Esse diálogo direto com o divino é algo muito especial. Sabe, você vai cada vez mais se apaixonando por esse universo”, diz.

Ação

Da vivência religiosa para seu fazer artístico, Yasmin vê paralelos. “Para mim está muito claro que é uma obrigação nossa levar essa cultura para as pessoas, porque através da arte a gente consegue conversar com muita gente e vencer preconceitos”. Tal consciência se firma frente a situações de intolerância. Ela mesma, na adolescência, conviveu com o estranhamento de amigos ao se assumir candomblecista. Hoje, no entanto, “eles puderam formar uma outra opinião”, comenta. “Essas religiões são pouco faladas e, também por isso, pouco compreendidas”, analisa. Assim, “a ação do Grupo Corpo é essencial”.

O percurso do espetáculo, aliás, fala por si. Em São Paulo, pela primeira vez na história da companhia, foram abertas duas sessões extras, tamanho o sucesso. No Rio de Janeiro, enquanto se apresentavam, os bailarinos ouviam do lado de fora o som de atabaques, palmas e cânticos: acontecia uma manifestação em defesa das religiões afro-brasileiras, que vêm sofrendo com ações criminosas como incêndios e arrombamentos de terreiros. Do lado de dentro, os artistas viam “as pessoas saindo extasiadas do espetáculos, muitas delas se questionando sobre suas certezas”, menciona Yasmin.

Claro, lembra a bailarina, há outros casos de artistas que, “há muito tempo, já levantam a bandeira das religiões afro-brasileiras”. Maurício Tizumba, que se apresenta neste sábado no show Terreiro Zen é um desses exemplos. Já em 1976, o artista havia colocado grupos de congado em um palco belo-horizontino e já levava para seus shows, fossem em bares ou teatros, cânticos para os orixás. E até mesmo o Terreiro Zen, que apresenta agora, remonta o início dos anos de 1990. O retorno, avalia, vem em boa hora.

BH, lembra ele, é uma cidade jovem, que em 2017 completa 120 anos. “Essas religiões estão aqui desde sua fundação, vieram com os povos negros que ajudaram a construir a cidade”. E agora, mais do que justo, ganham mais visibilidade através de “vários grupos de arte, teatro e dança negros que vêm surgindo cidade afora”.

Para Tizumba, a tomada de consciência acerca da importância de levar para as artes sua religiosidade veio no início dos anos de 1970, quando começou a se inserir nas lutas do movimento negro.

Há tanto tempo neste front, o artista é categórico: “não se trata de um preconceito somente religioso, mas, fundamentalmente, racista”. Ator e músico, ele se orgulha de ser filho de uma ekedi (cargo feminino em casas de candomblé, uma espécie de “zeladora dos orixás”) e lembra que foi criado em meio às religiões afro-brasileiras. Por isso, afinal, “não posso negar essa origem”.

Força de vida

Diferentemente de Yasmin e Tizumba, Mauro Rodrigues, um dos músicos compositores do projeto “Suíte para os Orixás” não se entende dentro da religiosidade afro-brasileira. Ele, no entanto, se auto-declara “umbandista cultural”, pois se interessa por estudar, apesar de não praticar a religião. Curiosamente, diga-se, o show partiu de uma experiência um tanto singular. “Em 1992, tive um sonho muito forte que fazia um show com orquestra, flauta, bateria… Aquilo me provocou e eu procurei o Esdra (Neném Ferreira) e ele me sugeriu que a gente assim fizesse”. Detalhe: Mauro sequer imaginava que Esdra era um ogã (cargo masculino com várias funções nas casas de candomblé, dentre elas, tocar o atabaque para evocar os orixás).

Junto, os dois artistas experimentaram diversos formatos enquanto Mauro se aprofundava em pesquisas etnológicas acerca dessas religiões. A produção, aliás, foi acompanhada e teve orientação dos povos de terreiros. O resultado foi apresentado no primeiro Festival de Arte Negra de BH (FAN), em 1995. “Na época, fizemos com a Orquestra Sesiminas, mas continuamos experimentando formatos até chegar, em 2006, à gravação do disco, já ganhando o corpo definitivo de um quinteto”.

Um dos aspectos que deixa Mauro impressionado na religiosidade afro-brasileira é a “força de vida” nela expressa. “A cultura, a religião, sempre foram para essas pessoas uma força para continuar existindo. Hoje, quando você vai a esses lugares é muito bonito de ver como a vida é soberana”.

Programe-se

Gira Guiado pela trilha da banda Metá Metá, o Grupo Corpo reverencia Exu em novo espetáculo, com coreografia assinada por Rodrigo Pederneiras. Onde Palácio das Artes Quando Dias 2, 5 e 6, às 20h30, 3 e 7, às 19h, com ingressos esgotados. Foi aberta uma sessão extra no dia 8 (sexta), às 20h30. Quanto A partir de R$ 80 (inteira).

Terreiro Zen Com repertório calcado no cancioneiro afro-brasileiro, Maurício Tizumba, Leopoldina Azevedo, Renato Motha e Patricia Lobato entoam composições autorais, além de canções de domínio público, sempre com arranjos originais e em ritmos mântricos Onde Tambor Mineiro (Rua Ituiutaba, 339, Prado) Quando Neste sábado (2), às 21h Quanto R$ 10.

Suíte para Orixás O jazz se mistura a músicas afro-brasileiras no show do quinteto formado por Esdra Ferreira, Mauro Rodrigues, Ivan Correa, Fernando Rocha, Guda e Ricardo Cheib Onde Sesc Palladium (rua Rio de Janeiro, 1046) Quando Neste sábado (2), às 20h, e domingo (3), às 19h Quanto R$ 10.

“Nossa sociedade está doente”

Na véspera do Dia dos Pais deste ano, um policial militar evangélico, armado, invadiu o terreiro Manzo Ngunzo Kaiango, na cidade de Santa Luzia, na Grande BH. Vizinho da casa, ele ameaçou a mãe de santo, de 73 anos, e afirmou que as coisas iriam mudar por ali e que o barulho do terreiro ia acabar. O local, pois, é o mesmo que vem lutando contra uma determinação do Ministério Público (MP) que, entre outras imposições, determinou o uso de apenas um atabaque nos rituais religiosos. Todo esse imbróglio motivou a realização de uma passeata na principal avenida da cidade. Ali, mais de duas centenas de pessoas se concentraram para o ato “Axé pela Democracia, Justiça e Paz”.

Se hoje o medo é cotidiano na vida dos candomblecistas e umbandistas da cidade mineira, a verdade é que tal situação se estende por todo território nacional. Na capital carioca, por exemplo, 70% dos casos de ofensas, abusos e atos violentos registrados entre 2012 e 2015 são contra praticantes de religiões de matrizes africanas, conforme pesquisa divulgada no ano passado pela Comissão de Combate à Intolerância Religiosa do Rio de Janeiro. Em Minas Gerais, a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa não tem dados oficiais sobre ocorrências desse gênero, mas o Disque 100 (serviço nacional de denúncias e proteção contra violações de direitos humanos 24 horas), indica que, entre 2011 e 2015, o Estado ficou em terceiro lugar em número de denúncias desse tipo de violência, atrás apenas dos paulistas e fluminenses. 

“Nossa sociedade está doente”, afirma Célia Gonçalves, a Makota Celinha, presidente do Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-Brasileira (Cenarab), em referência a casos de intolerância. Ela baliza sua opinião em casos recentes, como a agressão sofrida por uma idosa na Baixada Fluminense, apedrejada por uma vizinha por ser candomblecista. “Há quem teve problemas por estender roupas brancas no varal, coisa que nunca tínhamos visto”, destaca.

Quanto à situação enfrentada em Santa Luzia, Celinha é enfática. “Não foi a primeira vez que aconteceu. Quando o terreiro foi inaugurado (em 2012), foi a mesma coisa”, afirma. 

Estes grupos, por sinal, ainda enfrentam violações institucionais. “Essa determinação do MP de só poder usar um atabaque… É um absurdo! Não nos comunicamos com nossa ancestralidade sem os três”, frisa, lembrando que “o Estado não deve legislar sobre a religiosidade, mas para a religiosidade”.

Assim, critica também projetos de lei que criminalizam o sacrifício de animais. Como há quem defenda essa legislação argumentando que os sacrifícios não têm fins alimentares, ela lembra que “a carne destes animais vira comida servida em solenidades públicas. O que oferecemos às divindades são penas, vísceras”. Portanto, “não sejamos ingênuos, é uma proposta perversa, racista, que não vai, por exemplo, proibir abate em rituais judeus”.

Vizinhança

“Já aconteceu de um vizinho, que havia acabado de se mudar, me oferecer um abaixo-assinado contra o nosso terreiro”, recorda pai Marcelo, da Casa do Divino Espírito Santo das Almas. “Quando ele viu que era eu, levou um susto”, lembra. Em resposta à intolerância, ele abriu seus portões. “Falei que se tivesse incomodando, ele podia ir lá, que a gente se ajustava, mudava horário, faria o possível”. Dessa forma, “o abaixo-assinado morreu ali”, diz.

No fim, “o vizinho entendeu que nossa religião é como todas as outras, com uma diferença: estamos abertos para todos, católico, evangélico, macumbeiro, o que for”. Aliás, o pai de santo lembra já ter tido em seu terreiro um padre, que foi ali para se benzer, e um pastor, que esteve no lugar para o casamento de um parente, “entrou carrancudo e saiu sorridente”.

Marcelo, é verdade, herdou da mãe, Lúcia Maria dos Santos, a paciência e capacidade de diálogo. Quando recorda situações de intolerância, ela diz que vai conversando, “ficando amiga e tudo se resolve, cada um na sua”. Bem, mas em uma reflexão mais profunda, as dificuldades enfrentadas na convivência com vizinhos, argumenta Celinha, também tem caráter político. Afinal, “enquanto em outras religiões cristãs é comum que as prefeituras cedam lotes, imóveis, nós precisamos construir nossos terreiros em propriedades privadas cedidas para uso coletivo”.

Religião africana em nossa cultura

A tradição da religiosidade de matriz africana é parte fundamental do que se entende como cultura brasileira. Na música, na dança, no teatro, nas artes plásticas, na gastronomia e até no vocabulário há elementos advindos dessas experiências religiosas. 

O antropólogo Rafael Barros, membro do Centro de Estudo da Religião Pierre Sanchis, da UFMG, vê com naturalidade o trânsito entre sagrado e profano destas tradições. “Não há, propriamente, uma ruptura: a vida dessas pessoas é atravessada fundamentalmente pela experiência do sagrado, que não estabelece limite entre o espaço de culto e de vida ordinária”.

“A gente vê até nos nossos hábitos alimentares coisas provenientes dessa matriz cultural, como as comidas preparadas para os orixás – o quiabo, o amendoim, o milho amarelo ou branco…”, aponta o pesquisador. 

Apesar de algumas igrejas cristãs rechaçarem as afro-religiosidades, elas não passam incólumes à sua riqueza e também incorporam seus elementos. “No catolicismo, exemplos são as Pastorais Negras, a Missa Conga”, lembra. Do lado do protestantismo, “a música gospel, em si, só existe por influência da comunidade negra norte-americana”.

Por serem religiões “de muito canto e dança”, “sua presença é marcante nos tambores e instrumentos percussivos de toda tradição musical brasileira”. Vale lembrar, Pixinguinha, um dos pioneiros do samba, tem sua raiz musical em terreiros. Dorival Caymmi, por sua vez, foi considerado padroeiro do candomblé na música brasileira.

Além do samba, também de matriz africana, advêm outros ritmos, como o maracatu, mais tarde atualizado no manguebeat. Na própria MPB e Bossa Nova há vários exemplos de artistas que recorrem a elementos da umbanda e candomblé em suas composições, como Maria Bethânia, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Expoente maior, diga-se, é o álbum “Os Afro-Sambas”, de Vinicius de Moraes (1913–1980) e Baden Powell (1937–2000).

A força dessa religiosidade, aliás, se apresenta na presença de um estilo que carrega seu nome, o Axé, surgido na década de 1980, na Bahia, e que ganhou todo país. Hoje, por sinal, essa matriz religiosa espalha seus braços por várias outras vertentes musicais, indo do rap de Criolo ao novíssimo trabalho de Chico Buarque, o recém-lançado “Caravanas”.

Lúcia conta que tenta cativar e ficar amiga dos intolerantes
Resistência. Depois de situações de intolerância, um ato foi realizado em Santa Luzia
Luta. Yasmin Almeida, bailarina do Grupo Corpo e filha de santo: “Através da arte conseguimos quebrar preconceitos”

 

Extraído do caderno Semanário do Jornal O Tempo / Belo Horizonte – MG
http://www.otempo.com.br/pampulha/ilustre-terreiro-1.1515572

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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