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Intolerância religiosa carnavalesca

Siro Darlan

01/03 às 15h12 – Atualizada em 01/03 às 15h15

 

Imagino o meu pastor Dom Orani, eleito prefeito da Cidade Maravilhosa e tendo que cair no samba porque o cargo de edil da Cidade onde o samba é a mais importante ferramenta cultural. É claro que todos desejaram que o Prefeito estivesse presente na abertura do ano letivo ministrando pessoalmente a primeira aula, mas não sendo possível, seu secretário de Educação o representará. Seria um sonho se o prefeito, sendo ele um engenheiro, estivesse presente no lançamento da pedra fundamental de todas as obras realizadas na cidade, mas também pode ser representado por seu secretário de Obras.

Ora, só uma grande dose de intolerância seria capaz de cobrar do Prefeito Marcelo Crivella que ele contrariasse seus conceitos religiosos para se fazer presente na maior festa popular do Rio de Janeiro. Ganhei dois cobiçados convites para o setor Um do Sambódromo. Ofereci ao porteiro de meu condomínio que gentilmente declinou do presente, afirmando que não iria porque é evangélico. Cumpri o meu papel de ser generoso e ele, o porteiro, fiel à sua crença educadamente recusou. Tenho que respeitar seus valores.

É verdade que o Carnaval é o carro-chefe de nossa cultura. O momento mais democrático de nossa convivência social, já que os pobres se fazem reis, rainhas, e nesse carnaval muitos santos e santas, para que aqueles que podem pagar assistam e batam palmas para essa ópera popular de sonhos. É importante reconhecer que o elevado número de turistas movimenta a economia da Cidade, tão necessitada nessa época de crise.

Mas daí a exigir e criticar o Prefeito porque, coerente com sua fé, tudo fez, através de seus assessores e secretários, para que a festa fosse o sucesso que foi, com a ressalva dos acidentes ocorridos que não dependiam da administração municipal para se evitar. O carnaval foi lindo e um sucesso de público e de democracia com blocos tomando conta de todos os cantos da Cidade Maravilhosa. A coerência do Prefeito com sua fé em nada atrapalhou o brilho do carnaval. Tivesse ele atitudes fundamentalistas que fizessem com que seus dogmas religiosos influenciassem na realização da festa, aí seria outra história, mas isso não aconteceu.

A vitória do Oscar por filmes que combatem o preconceito e a discriminação e a realização de um carnaval sacro e profano, demonstra que estamos prontos para essa reflexão social e coletiva na busca de uma sociedade mais justa e mais democrática.

* desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e membro da Associação Juízes para a democracia.

 

 

Extraído do site do jornal digital JB / Rio de Janeiro – RJ
http://www.jb.com.br/sociedade-aberta/noticias/2017/03/01/intolerancia-religiosa-carnavalesca/?from_rss=pais

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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