Breaking News

Intolerância religiosa cresce no Distrito Federal e Entorno

A intolerância não escolhe credo ou religião. Católicos, evangélicos ou adeptos de cultos africanos se sentem agredidos em locais públicos ou até mesmo em casa. Para o representante da OAB-DF, a impunidade é umas das responsáveis

Beatriz Ferrari

 

 

Pouca coisa restou depois do incêndio na Casa da Mãe Baiana, no ParanoáSheyla Leal/ObritoNews/Fato Online
Pouca coisa restou depois do incêndio na Casa da Mãe Baiana, no ParanoáSheyla Leal/ObritoNews/Fato Online

BRASÍLIA Publicado quinta, 03 de dezembro (06:00)

O incêndio de um terreiro de candomblé, conhecido como a Casa da Mãe Baiana, no Paranoá na semana passada acendeu o debate sobre a crescente intolerância religiosa no Distrito Federal e Entorno, sobretudo contra religiões de matrizes africanas. Ainda não se sabe se o caso foi criminoso, mas ele não foi o primeiro.

Apenas neste ano, no DF e adjacências, foram registrados 13 ataques a religiões como candomblé e umbanda, entre apedrejamento de terreiros, tiros, tentativa de incêndio e ofensas em frente à casa de culto. Em setembro, dois terreiros foram incendiados. Um em Santo Antônio do Descoberto (GO) e outro em Águas Lindas (GO).

OAB

De acordo com o advogado Kildare de Araujo Meira, presidente da Comissão do Direito do Terceiro Setor da OAB-DF – comissão que integra o fórum pela regularização fundiária de templos religiosos no DF -, o crescimento da intolerância religiosa se deve à impunidade.

“E não existe algo mais eficiente para impedir a criminalidade do que estabelecer a certeza de punição”Kildare de Araujo Meira, OAB-DF

Com o arcabouço legal que existe hoje, o estado já pode agir, mas ainda há lacunas na legislação, em sua avaliação. “Em bom português, não dá cadeia. Temos visto o crescimento de todas as intolerâncias. E não existe algo mais eficiente para impedir a criminalidade do que estabelecer a certeza de punição”, disse o advogado.

Além de facilitar o crime, a lacuna desestimula as denúncias. De acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública do DF, de 2000 até hoje, foram registradas apenas 44 ocorrências no DF com base neste artigo. No Brasil todo, foram registradas 77 ocorrências no primeiro semestre deste ano, segundo dados do Disque 100, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.

Os dados não refletem a realidade, de acordo com Alexandre de Oxalá, membro do Fórum de Defesa da Liberdade Religiosa. Ele alega que a lei que trata de preconceito religioso – Lei número 7716, de 1989 – é muito antiga e ignorada pelos agentes públicos. “A autoridade policial muitas vezes faz o registro como um crime de menor potencial ofensivo, como invasão de domicílio”, defende.

Ainda que a investigação não tenha sido concluída sobre o incêndio da Casa da Mãe Baiana, tanto o Executivo como o Legislativo foram forçados a dar alguma resposta. O governador Rodrigo Rollemberg anunciou a criação de uma delegacia contra racismo e intolerância. Já o deputado distrital Ricardo Vale (PT), presidente da Comissão de Direitos Humanos, vai sugerir à Câmara Legislativa uma campanha de conscientização contra a intolerância religiosa.

Até o Ministério Público do DF entrou em ação e abriu um processo administrativo para acompanhar as investigações.

“No caso das religiões de matrizes africanas, há um racismo institucional que nos exclui “Alexandre de Oxalá

De acordo com Alexandre de Oxalá, as medidas são boas, mas não são suficientes. “No caso das religiões de matrizes africanas, há um racismo institucional que nos exclui das ações adotadas pelo governo”, diz. Ele afirma que, embora haja 100 mil seguidores diretos e 400 mil indiretos dessas religiões no DF, a maior parte das casas se concentra no Entorno por falta de apoio. “Há aproximadamente duas mil casas na região, que funcionam em quintais e garagens, sobretudo no Entorno, porque não temos acesso à terra, nem incentivos fiscais no DF”, defende.

O próprio Alexandre já sofreu ameaças de morte enquanto buscava a filha na escola usando trajes de chefe espiritual do candomblé.

Outras religiões

Seguidores de outras religiões também relatam insultos e ameaças recentes, em ambientes e níveis variados. O padre João Firmino Galvão Neto, porta-voz da Arquidiocese de Brasília, conta que foi insultado há duas semanas na fila de um restaurante. “Eu estava com meus trajes de padre e uma senhora ficou falando alto que todo padre é comunista e safado”, conta.

“Uma senhora ficou falando alto que todo padre é comunista e safado”padre João Firmino, Arquidiocese de Brasília

Já a evangélica Marcia Tarich afirmou que sofre preconceito dentro de sua própria casa. “Meus filhos e minhas irmãs ficam incomodados se expresso a minha fé em público ou até mesmo dentro de casa. O Natal é uma época angustiante para mim”, afirma.

Os muçulmanos, que têm sofrido ataques em outras cidades brasileiras, como no Rio de Janeiro, onde relatam sofrerem violência física e agressões verbais, dizem que em Brasília as coisas têm estado mais calmas. “Não tivemos nenhuma reclamação de intolerância religiosa recentemente”, afirma Sheik Mohamed Ziedan, do Centro Islâmico de Brasília. De acordo com ele, há 4.000 muçulmanos vivendo na Capital atualmente.

 

Extraído do portal de notícias Fato on line / Brasília – DF
http://fatoonline.com.br/conteudo/13378/intolerancia-religiosa-cresce-no-distrito-federal-e-entorno

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

Related posts

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *