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Invasão de privacidade

Estapafúrdia a justificativa de que a GM precisa de capelães

POR ÁTILA NUNES

 

 

O chamado censo religioso na Guarda Municipal — idealizado pela comandante Tatiana Mendes e avalizado pelo bispo da Igreja Universal, prefeito Marcelo Crivella — mostra o viés religioso que pauta a atual administração municipal carioca.

Na verdade, não se trata de um censo, como alega a comandante, e sim de um questionário que, quando começou a ser distribuído, pedia o nome e a matrícula do funcionário da Guarda Municipal. Adjetivar como aberração tal questionário — rotulado de censo — não é um exagero. Primeiro, porque contraria dispositivos constitucionais, tanto federais quanto estaduais, que preservam a identidade dos guardas de suas convicções de foro íntimo. Segundo, porque é estapafúrdia a justificativa de que a GM precisa de capelães, haja vista que as capelanias foram criadas pelas Forças Armadas para darem conforto espiritual aos soldados a serviço fora do país ou em regiões inóspitas. No caso do Brasil, o exemplo mais recente é o Haiti. Aí se justificam capelães.

Ora, os guardas municipais não cumprem missões nem no exterior, nem em distantes rincões brasileiros. Nem ao menos no interior fluminense ou na Região Metropolitana. Limitam-se a trabalhar dentro da cidade do Rio de Janeiro. Continuam perto de suas residências, de suas famílias, de seus amigos e de seus templos religiosos. Por isso, beira o ridículo a argumentação de que as tais capelanias serviriam para prover de conforto espiritual a guardas municipais durante o seu turno de trabalho.

Por trás desse hipotético censo esconde-se a tentativa de se implantar a filosofia religiosa da igreja da qual o prefeito é bispo. Depois de colocar em postos importantes membros de sua igreja, Marcelo Crivella vem estimulando ou fazendo vista grossa para ações grotescas como a da comandante da Guarda Municipal, onde aliás, guardas vêm se queixando da realização de cultos, orações e leituras de trechos bíblicos durante o serviço.

Numa época em que as forças de segurança, dos mais diversos matizes, sofrem um forte desgaste e profundo descrédito, a Guarda Municipal é uma dessas raras instituições que gozam do respeito e carinho do carioca. Sem perder a autoridade, seus membros são considerados educados e preparados em recente pesquisa. E mais, isentos diante de qualquer situação, renegando preconceitos em relação à religião, diversidade sexual ou racial.

Essa filosofia de trabalho atravessou as administrações de Marcello Alencar, Cesar Maia, Luiz Paulo Conde e Eduardo Paes. Nunca, na história da GM, criada por lei em 1992, foi tomada uma decisão que invadisse o foro íntimo de seus membros.

Por isso, não faz a menor questão de desencarnar de sua condição de bispo. Mesmo que abra mão de agir como prefeito.

Átila Nunes é deputado estadual (PMDB-RJ)

 

Extraído da versão digital do Jornal O Globo / Rio de Janeiro – RJ
https://oglobo.globo.com/opiniao/invasao-de-privacidade-21770974#ixzz4sRx13Ooy 
 

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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