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Investigadores têm dificuldade para tipificar crimes de intolerância

A líder religiosa do Ile Aira Axe Mersan Orun, mãe Regina de Iansã, lamenta a falta de prosseguimento das investigações

As suspeitas são de que o incêndio tenha sido motivado por intolerância religiosa, uma vez que, segundo testemunhas, um automóvel azul foi visto rondando a casa nas semanas anteriores na noite anterior ao ocorrido
As suspeitas são de que o incêndio tenha sido motivado por intolerância religiosa, uma vez que, segundo testemunhas, um automóvel azul foi visto rondando a casa nas semanas anteriores na noite anterior ao ocorrido

 

PUBLICADO EM 11/12/15 – 18h10

 

AGÊNCIA BRASIL

As autoridades policiais de Goiás estão com dificuldades para esclarecer os crimes que têm sido praticados contra terreiros localizados no entorno do Distrito Federal. De acordo com as polícias Civil e Militar, a principal dificuldade é tipificar o crime de intolerância religiosa. Em muitos casos, os criminosos são acusados de crimes menores, como roubo ou furto.

Em menos de um ano, o terreiro Ile Aira Axe Mersan Orun, localizado em Valparaíso de Goiás, foi atacado três vezes por vândalos. Como não houve flagrante, nem testemunhas, os casos sequer resultaram em inquérito, ficando restritos a boletim de ocorrência.

“Como a motivação do crime de intolerância religiosa está dentro do psicológico, temos dificuldades para alcançar o dolo. Em geral, são situações de crimes comuns praticados em ambientes religiosos. Isso tem acontecido não só em terreiros, mas também igrejas da região”, disse à Agência Brasil o delegado Olemar Miranda, da Delegacia de Céu Azul, onde foi prestado o boletim de ocorrência.

Segundo o delegado, o bairro, um dos mais violentos da região, é conhecido pelo alto índice de roubos e furtos a residências. “No caso desse terreiro, o fato de terem roubado dois botijões [além de um notebook e uma carteira de identidade] aumenta as suspeitas de que tenha sido praticado por viciados em drogas, uma vez que são objetos que podem facilmente ser trocados pelo objeto do vício.”

De acordo com o comandante do 20° Batalhão de Polícia Militar (PM), tenente-coronel Danilo Braga, 70% dos homicídios da região estão ligados diretamente a drogas. “Dos 30% restantes, 20% têm ligação indireta com elas”, disse o PM. “Mas temos conhecimento de que parte dos roubos e furtos foram praticados ou induzidos por pessoas motivadas pela intolerância religiosa. A forma velada como esse tipo de crime é praticado dificulta bastante sua identificação”, acrescentou.

A líder religiosa do Ile Aira Axe Mersan Orun, mãe Regina de Iansã, lamenta a falta de prosseguimento das investigações. “Nós inclusive ouvimos de um policial militar [por ocasião da segunda invasão do terreiro, ocorrida em agosto] a sugestão de nos mudarmos daqui, para evitarmos mais problemas”, disse ela.

Braga considerou “infeliz” a sugestão feita pelo policial à religiosa. “Os terreiros  de Valparaíso fazem um excelente trabalho social e representam uma parceria muito importante para chegarmos à comunidade. Do nosso ponto de vista, eles estão no lugar certo para nos ajudar a prevenir o uso de drogas, a espiritualizar as pessoas, e a melhor encaminhar os jovens”, disse o comandante do batalhão.

Outro ataque a terreiro ocorreu no Núcleo Rural Córrego do Tamanduá, localizado no Paranoá, região administrativa do Distrito Federal (DF), que fica a cerca de 20 quilômetros da região central de Brasília. O terreiro foi incendiado na madrugada de 27 de novembro. As suspeitas são de que o incêndio tenha sido motivado por intolerância religiosa, uma vez que, segundo testemunhas, um automóvel azul foi visto rondando a casa nas semanas anteriores na noite anterior ao ocorrido.

O incêndio comprometeu dez anos de trabalho da líder espiritual do local, Adna Santos, conhecida como Mãe Baiana, de 53 anos. “Não tenho mais estrutura psicológica ou financeira para arcar com o prejuízo, mas a vida segue. Vamos devagar, tijolo a tijolo, ainda que sem a mesma energia que tive para, ao longo de 10 anos, erguer essa obra.”  Os interessados em ajudar a Mãe Baiana a reconstruir o terreiro podem contatá-la pelo telefone (61) 9255 3761.

Para Adna, religião é amor. Por isso, ela ressalta que quem cometeu esse ato não é, de fato, um religioso. “Acredito na convivência pacífica entre as religiões. Minha mãe e quatro dos meus sete irmãos são evangélicos, e nossa relação sempre foi de muito respeito. Uma atitude dessas certamente não é de alguém que pratique o evangelho”, acrescentou.

Em setembro, outros dois templos já tinham sido atacados em municípios do entorno do Distrito Federal. Um em Santo Antônio do Descoberto e outro em Águas Lindas, ambos em Goiás. Os dois templos foram incendiados – o primeiro foi atacado duas vezes.

 

Extraído do sitedo Jornal O Tempo / Belo Horizonte – MG
http://www.otempo.com.br/capa/brasil/investigadores-t%C3%AAm-dificuldade-para-tipificar-crimes-de-intoler%C3%A2ncia-1.1189441

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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