Iphan tomba dois terreiros e declara procissão e sistema agrícola patrimônios culturais

A fachada do Sítio Pai Adão, no Recife - Divulgação/Fundarpe

Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural se reuniu no Forte de Copacabana

A Procissão do Senhor dos Passos, em Florianópolis – Divulgação/Iphan

 

 

POR PAULA AUTRAN

20/09/2018 18:39 / atualizado 21/09/2018 8:34

RIO – Reunido pelo segundo dia no Forte de Copacabana, o Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) tornou patrimônios culturais mais dois bens imateriais brasileiros nesta quinta-feira: a Procissão do Senhor dos Passos, a maior e mais antiga festividade religiosa da cidade de Florianópolis (SC), e o Sistema Agrícola Tradicional das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira, no estado de São Paulo. E tombou os terreiros de candomblé Ilê Obá Ogunté/Sítio Pai Adão, do Recife (PE), e Tumba Junsara, de Salvador (BA).

Na quarta-feira, o mesmo conselho tornou a literatura de cordel Patrimônio Cultural do Brasil, além de tombar o acervo de Arthur Bispo do Rosário.

– A diversidade é característica desta reunião. Nós tombamos dois terreiros de candomblé, da religião de matrizes africanas; uma procissão católica; fomos aos quilombolas e registramos um tradição agrícola; e, no inicio da nossa reunião, tombamos a coleção de arte de uma pessoa considerada separada da sociedade. Isso sem falar na literatura de cordel, típica do nosso país. Ou seja: a diversidade é a tônica do Patrimônio Cultural Brasileiro – avaliou a presidente do Iphan, Kátia Bogéa.

Durante a reunião desta quinta-feira, os conselheiros discutiram e defenderem a relevância nacional da Procissão do Senhor dos Passos, afirmando que, apesar de sua regionalidade, é um evento rico em especificidades que lhe garantem grande destaque. Por suas características únicas, esta procissão, de acordo com os conselheiros, pode ser considerada uma das mais expressivas entre as diversas que ocorrem em todo o país.Já considerado Patrimônio Cultural Imaterial de Santa Catarina, o evento – realizado anualmente, sempre 15 dias antes da Páscoa – em março deste ano teve sua 252ª edição e reuniu mais de 60 mil pessoas.

A fachada do Sítio Pai Adão, no Recife – Divulgação/Fundarpe

Atrás apenas do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, em Belém do Pará, e das homenagens ao Padre Cicero, em Juazeiro do Norte (Ceará) entre os grandes eventos cristãos, a Procissão do Senhor dos Passos acontece desde 1766, dois anos depois de a escultura do santo chegar à cidade. Esculpida em madeira pelo baiano Francisco Chagas, ela deveria ter sido entregue a uma igreja no Rio Grande do Sul, mas o barco parou em Florianópolis para abastecer e não conseguiu seguir viagem por causa de fortes tempestades. Após três tentativas frustradas em seguir viagem, a tripulação tomou como sinal divino que a imagem deveria permanecer onde estava.

O Sistema Agrícola Tradicional das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira também é uma tradição antiga, de 300 anos, segundo a coordenadora do Programa Vale do Ribeira do Instituto Socioambiental (ISA), Raquel Pasinato. São 19 comunidades, onde vivem cerca de 700 famílias (entre 2500 e 3000 pessoas) que se dedicam à um tipo de agricultura de manejo sustentável da Mata Atlântica.

– Eles limpam no máximo dois hectares de uma área, colocam fogo com todo o cuidado e plantam nas cinzas, sem utilizar qualquer adubo químico. cultivam ali por dois ou três anos e depois deixam o local, que volta a se regenerar – explica Raquel.

– Este reconhecimento nos dá mais segurança de manter a tradição de nossos antepassados – comemorou Elvira Morato, de 70 anos, que aprendeu com pais e avós o que repassou a filhos e netos. – Sempre trabalhamos na roça sem ofender a natureza.

Entre os terreiros tombados nesta quinta-feira, o Tumba Junsara (ou Junçara) – fundado em 1919 em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, por dois irmãos de esteira cujos nomes eram: Manoel Rodrigues do Nascimento (Kambambe) e Manoel Ciriaco de Jesus (Ludyamungongo) – foi o primeiro. Os dois foram iniciados em 13 de junho de 1910 por Maria Genoveva do Bonfim, mais conhecida como Maria Nenem (Mam’etu Tuenda UnZambi, sua dijina), que era do Terreiro Tumbensi, casa de Angola mais antiga da Bahia. Manoel Ciriaco de Jesus fez muitas lideranças de várias casas, como Mãe Menininha do Gantois.

Depois, foi a vez do terreiro de candomblé Ilê Obá Ogunté, mais conhecido como Sítio Pai Adão, do Recife, em Pernambuco, que já era tombado em nível estadual desde 1985. A história do Ilê Obá Ogunté começa por volta de 1875, com a chegada ao Brasil da africana Inês Joaquina da Costa (Ifá Tinuké), também chamada de Tia Inês, que morreu em 1905. Ela fundou o atual Sitio de Pai Adão, que é a mais antiga casa de culto Nagô de Pernambuco e uma das mais venerandas do Brasil, considerada uma das matrizes da nação de culto afro-brasileiro Nagô, que guarda alguma semelhança com a nação Ketu da Bahia, similar ao Xambá e ao Tchamba de Togo, e Trinidad e Tobago.

Com a morte de Ifá Tinuké, o Ilê Obá Ogunté passou a ser liderado por Felipe Sabino da Costa (Ope Watanan), conhecido por Pai Adão, que foi a maior personalidade da história do Xangô do Recife. O Sítio de Pai Adão é considerado um modelo de culto sob todos os pontos-de-vista: na sofisticação ritual, na beleza de sua música e da dança, no número de divindades cultuadas, no poder espiritual das incorporações, tudo indicando uma tradição conservada com fidelidade às suas raízes. O local ainda preserva um baobá com mais de um século de existência, que tem mais de 10m de diâmetro, raro no Brasil.

 

Extraído do site do Jornal O Globo / Rio de Janeiro – RJ
https://oglobo.globo.com/cultura/iphan-tomba-dois-terreiros-declara-procissao-sistema-agricola-patrimonios-culturais-23086245#ixzz5SKeeqsQu

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