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“Irmã Dulce” narra trajetória da beata indicada ao Nobel

Luiz Carlos Merten | Qui, 13/11/2014 às 10:22 | Atualizado em: 13/11/2014 às 11:58

 

Divulgação "Irmã Dulce" teve sua pré-estreia oficial na capital baiana, na segunda-feira à noite
Divulgação
“Irmã Dulce” teve sua pré-estreia oficial na capital baiana, na segunda-feira à noite

Em São Paulo e Rio de Janeiro a estreia será somente no dia 27, mas nesta sexta-feira, 14, Irmã Dulce já entra no Norte/Nordeste, num circuito amplo que irá de Salvador a Manaus. Serão 108 salas. Era um desafio muito grande que o diretor Vicente Amorim e a produtora Iafa Britz enfrentaram com garra. Irmã Dulce teve sua pré-estreia oficial na capital baiana, na segunda-feira à noite. Na última quarta-feira, a equipe foi à estreia no Recife e nesta quinta será em Fortaleza. O desafio de Iafa Britz foi econômico, mas não só esse. Levantar a produção de um filme ‘grande’ nunca é fácil. Iafa não se vexa de dizer que, como a própria Irmã Dulce, saiu estendendo a mão. Ela fazia isso para por seus pobres. No filme, quando estende a mão, Irmã Dulce recebe uma cuspida. E diz – “Isso foi para mim.” E estende a outra mão – “Agora, para os pobres.”

Amorim também enfrentou seu desafio – imenso – e o dele foi não apenas contar sua história, mas como. Irmã Dulce foi uma mulher extraordinária. Você não precisa ser religioso para acreditar nisso. E, mesmo que ela venha a ser santificada. o filme não é sobre a ‘santa’. Como diz Madre Fausta a Irmã Dulce, que quer remover montanhas, ‘somos apenas mulheres’. Na ficção de Vicente Amorim, a pequena Maria Rita descobre a pobreza e perde a mãe. As duas coisas estão ligadas em seu imaginário para todo o sempre. Ela será a mãe de muitos, mas a vida inteira sonhará com aquela mãe.

Irma Dulce, o filme, evita a hagiografia. Conta a história de uma mulher que desafiou as convenções do seu tempo, e da instituição – a Igreja – à qual se consagrou. Mas Amorim teve um problema. Irmã Dulce teve atitudes, comprou brigas, venceu batalhas. Mas sua vida foi um,a linha dramática continua, sem sobressaltos. Seu conflito era com, o mundo, não consigo mesma. Como construir um arco dramático para o espectador? Por meio de personagens secundários. O filho, João, que representa todos os filhos. A Madre Fausta. Sobre que é seu filme? Vicente Amorim responde – “Sobre a ordem no caos.”

Já era assim, em seu longa anterior, Corações Loucos. E talvez tenha sido por isso que Amorim enfrentou outro desafio recente – o de creiar as ligações para os episódios de Rio, Eu Te Amo. Face à desordem do mundo – a miséria, a violência -, Irmã Dulce responde com seu desejo (ético) de reorganização da sociedade e do mundo. Como ela diz, ‘não vou virar as coisas de novo para aqueles que o mundo renegou.’

Vicente Amorim usa muito olhar para definir e interiorizar seus personagens. Creia grandes cenas emocionantes – atrás de João, que se perdeu na noite do crime, Irmã Dulce vai à mãe de santo. São duas grandes mulheres. Uma sabe da força da outra. Respeitam-se. É o momento ‘Iafa Britz’ do filme. A produtora de Irmã Dulce acredita no entendimento. É judia e já fez filmes sobre espiritismo (Nosso Lar) e agora uma figura icônica do catolicismo brasileiro.

A outra cena emblemática é o encontro com o papa. A hierarquia da Igreja tentou afastar Irmã Dulce, não conseguiu. Mas o encontro com João Paulo II é importante por outra coisa – porque é o reencontro de Irmã Dulce com João.

Iafa, amorosa como é, quase estraga o próprio filme com o documentário final sobre Irmã Dulce (a verdadeira). Aquilo institucionaliza o que não é institucional – o filme que o precede. Mas até no documentário existem imagens contundentes. Irmã Dulce já estava muito mal quando teve um segundo encontro com o papa. Seu olhar para ele é agônico. O próprio pontífice, quando olha, parece antecipar sua futura agonia. Glória Pires tem uma breve e decisiva participação como a mãe. Bianca Comparato e Regina Braga estão além dos elogios. Criam uma única e impactante personagem. E ambas acreditam que Irmã Dulce, mais que nunca, é a personagem para se entender., e unir, o Brasil dividido das últimas eleições.

 

 

Extraído do site do Jornal A Tarde / Salvador – BA
http://atarde.uol.com.br/cinema/noticias/1638871-irma-dulce-narra-trajetoria-da-beata-indicada-ao-nobel

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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