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Iyalorixá da Baixada Fluminense recebe condecoração da Alerj por trajetória de luta social

06/05/17 07:00 

Mãe Beata de Iemanjá vai receber honraria mais alta da Alerj Foto: Roberto Moreyra / Agência O Globo

Cíntia Cruz

 

Uma promessa feita para a avó materna, aos 8 anos, à sombra de um cajueiro, é seguida com afinco por uma das ialorixás mais antigas da Baixada Fluminense. Aos 86 anos de vida e 61 de iniciada no candomblé, Beatriz Moreira da Costa, a Mãe Beata de Iemanjá, de Nova Iguaçu, tem uma longa história de defesa dos direitos humanos. O trabalho está sendo reconhecido. Às vésperas do Dia das Mães, foi aprovado pela Alerj, no último dia 26, o projeto do deputado Marcelo Freixo (PSOL) que concede à sacerdotisa a Medalha Tiradentes (maior honraria da instituição):

— No momento em que vivemos, é válido esse reconhecimento a uma mulher negra, nordestina e iyalorixá. Agradeço muito, mas não posso estar contente com tantas notícias ruins sobre meu povo. Essa medalha não é minha. É de cada gay, lésbica, mulher violentada, ou que chora no hospital com o filho baleado, é do meu povo, que não tem voz nem oportunidade.

A baiana de Cachoeira, no Recôncavo Baiano, se emociona ao lembrar de uma história que ouviu da avó materna, uma ex-escrava, quando tinha 8 anos:

— Depois de eu insistir, ela mostrou a perna. Quase aparecia o osso. Disse que, quando era escrava no engenho, foi obrigada a ficar dentro da lagoa com sanguessugas subindo pelo seu corpo. Se saísse, apanharia do feitor. Então, pegou o facão e cortou uma parte da perna, tentando tirar os bichos. A dor foi tanta que desmaiou. Chorando, prometi a ela que cresceria e iria combater todos que fossem ruins com mulheres.

Mãe Beata com os filhos biológicos e os que foram iniciados por ela em seu terreiro, na cidade de Nova Iguaçu Foto: Roberto Moreyra / Agência O Globo

Nessa mesma idade, ela começou a trabalhar na roça, pois a mãe tinha operado mioma. Carregava lenha, buscava água no poço, capinava. Sua história no Rio de Janeiro começou em 1969, quando, divorciada, veio tentar a vida. Foi doméstica, cozinheira, manicure. Meses depois, buscou os filhos. Morou na Zona Norte. Depois se estabeleceu no bairro de Miguel Couto, em Nova Iguaçu, onde fundou, em 85, o Terreiro Ilê Omi Ojú Arô, que significa Casa das Águas dos Olhos de Oxóssi.

Mãe de quatro filhos biológicos e de centenas de filhos de santo, Mãe Beata não distingue sua prole.

— Dei à luz pelo meu ventre e pelas minhas mãos. A verdadeira mãe não diferencia filho. O amor é o mesmo.

O trabalho da iyalorixá extrapola os limites da religião. O terreiro já foi Ponto de Cultura, com oficinas de dança, música, teatro, informática e geração de renda.

Mãe Beata luta pelos direitos humanos Foto: Rberto Moreyra / Agência O Globo

Mãe Beata, que é presidente de honra da ONG Criola — que defende os direitos de mulheres negras — tem planos maiores. Também escritora, quer abrir biblioteca no terreiro:

— Tenho mais de três mil livros. Quero conversar com o secretário de Cultura sobre isso, e voltar com as oficinas aqui. Precisamos de ferramentas para defender nossa cultura e nosso povo.
Extraído do site do Jornal Extra on line / Rio de Janeiro – RJ
Leia mais: http://extra.globo.com/noticias/rio/ialorixa-da-baixada-fluminense-recebe-condecoracao-da-alerj-por-trajetoria-de-luta-social-21303866.html#ixzz4gMHiAXQj

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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