Joãozinho da Gomeia, o rei do Candomblé

Joãozinho da Gomeia levou a dança dos Orixás dos terreiros para os palcos dos teatros de Salvador. Foi perseguido pelo povo de santo e por intelectuais da época

João Alves Torres Filho iniciou sua trajetória religiosa em 1931 ainda em Salvador, mas foi na Baixada Fluminense que alcançou poder e fama

por Pai Rodney — publicado 27/04/2018 12h31

 

Joãozinho da Gomeia levou a dança dos Orixás dos terreiros para os palcos dos teatros de Salvador. Foi perseguido pelo povo de santo e por intelectuais da época

Polêmico, ousado, controvertido, insolente, atrevido, desaforado. Esses adjetivos eram comuns para expressar o forte gênio de Joãozinho da Gomeia, lembrado por suas atitudes pouco ortodoxas em relação aos tradicionais terreiros da Bahia. O babalorixá mais famoso do Brasil chegou a ser considerado o “rei do candomblé” e, segundo contam, teria inspirado Chico Anysio na criação do personagem “Painho”.

No carnaval de 1956 protagonizou um episódio que chocou o povo do Candomblé ao ser manchete de jornais e revistas fantasiado de vedete. Em entrevista a um repórter da revista O Cruzeiro, a mais importante da época, ao ser questionado se sua fantasia infringia as regras do candomblé, deu a seguinte resposta:

“De maneira nenhuma, meu amigo. Primeiro, porque antes de brincar eu pedi licença ao meu guia. Segundo, porque o fato de eu ter me fantasiado de mulher não implica desrespeito ao meu culto, que é uma Suíça de democracia. Os orixás sabem que a gente é feito de carne e osso e toleram, superiormente, as inerências da nossa condição humana, desde que não abusemos do livre arbítrio.”

O repórter, então, comentou ironicamente: “você está falando difícil”. Ao que Joãozinho da Gomeia prontamente respondeu: “você está pensando que babalorixá tem que ser analfabeto?” E com essa mesma agilidade respondia às velhas ialorixás da Bahia que questionavam sua conduta, muitas vezes classificada como desrespeitosa.

Nascido em Inhambupe, na Bahia, Joãozinho da Gomeia mudou-se ainda criança para Salvador. Sofria de fortes dores de cabeça, por isso sua madrinha o levou até o pai de santo Severiano Manoel de Abreu, também conhecido com Jubiabá, que o iniciou no candomblé com 16 anos de idade.

Como “Jubiabá” era o nome de um conhecido romance de Jorge Amado, muitas polêmicas e contestações surgiram em torno de sua feitura e o perseguiram por toda vida. Joãozinho da Gomeia nunca fez questão de esconder sua condição de homossexual. Era um mulato bonito, que alisava os cabelos e dançava lindamente. Filho de Oxóssi e Iansã, possuía a inteligência do caçador e o raciocínio rápido como um raio.

A princípio estabeleceu seu terreiro num espaço herdado de sua madrinha, mas foi na Rua da Gomeia, no bairro de São Caetano, que despontou para se tornar um dos maiores nomes das religiões afro-brasileiras. Seu ritual misturava tradições de Angola, Ketu e dos Candomblés de Caboclo. Como recordava o escritor Jorge Amado:

“Outros candomblés podem ser mais puros nos seus ritos, o do Engenho Velho certamente o será. Também o Axé Opô Afonjá, o grande templo da mãe de santo Aninha, uma das mais formosas, nobres e dignas mulheres que conheci. (…) Porém nenhuma macumba tão espetacular como essa da roça da Gomeia, ora nagô, ora angola, candomblé de caboclo quando das festas de Pedra Preta, um dos patronos da casa.”

Joãozinho da Gomeia levou a dança dos Orixás para os palcos dos teatros de Salvador. Foi perseguido pelo povo de santo e por intelectuais da época. Edison Carneiro e Ruth Landes não o citaram diretamente, mas quando tratavam a questão da homossexualidade no candomblé ficava muito claro que o tinham como referência. Aliás, uma referência negativa, como o viam muitos de seus pares naquela Bahia tão conservadora.

Em 1946 mudou-se para o Rio de Janeiro, estabelecendo seu terreiro em Duque de Caxias. Atendeu políticos e artistas e tornou-se muito famoso. Contudo, a estrela de Joãozinho da Gomeia já brilhava em Salvador, e o caminho difícil, periférico, que levava ao terreiro era percorrido por muita gente branca e rica em busca dos préstimos do jovem e promissor pai de santo e de seu festejado guia, o Caboclo da Pedra Preta.

Já na década de 1960, sua fama estava consolidada e o terreiro era conhecido não só na Baixada, mas no Rio de Janeiro inteiro e em todo o Brasil. Contam que suas visitas ao Palácio do Catete eram constantes. Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek nunca fizeram questão de esconder sua relação com Joãozinho, assim como tantos artistas e intelectuais da época.

Além da matéria de capa da revista O Cruzeiro, na qual apresentou uma série de fotografias com as vestimentas dos orixás, Joãozinho da Gomeia rendeu reportagens em diversos jornais, fez cinema e gravou discos. Adorava carnaval e era destaque do Império Serrano.

Na verdade, a mudança de Joãozinho da Gomeia para o Rio de Janeiro faz parte de um movimento importante, no qual diversos babalorixás, que vinham ganhando fama em Salvador, esbarravam na resistência das mães de santo e dos terreiros mais tradicionais.

Foram muitos nomes, mas podemos dizer que Joãozinho da Gomeia, Pai Bobó e Pai Baiano, amigos que brigaram e se reconciliaram diversas vezes, formaram uma espécie de trinca que ajudou a espalhar e consolidar o candomblé no Sudeste, iniciando muitos filhos no eixo Rio-São Paulo.

Entre as ialorixás baianas, Mãe Menininha, com sua benevolência e caráter conciliador, era a mais próxima de Joãozinho, inclusive um quadro de Oxóssi que enfeitava o quarto da mãe de santo do Gantois foi presente dele. Apesar de também terem se desentendido em certo período, confiou a ela uma de suas últimas obrigações religiosas.

Joãozinho da Gomeia morreu prematuramente, em São Paulo, aos 56 anos. Vítima de um tumor ou coágulo no cérebro e de complicações cardíacas. Seu enterro é lembrado até hoje e tomou ares de lenda na Baixada Fluminense. Contam que ao baixar seu corpo à sepultura, os raios de Iansã cortaram o céu e uma tempestade torrencial e repentina fez o dia virar noite.

Recentemente, Carlos Nobre nos brindou com o livro Gomeia João: a arte de tecer o invisível e também Raul Lody e Vagner Gonçalves da Silva escreveram Joãozinho da Gomeia: o lúdico e o sagrado na exaltação ao candomblé. O terreno onde ficava a Gomeia foi transformado em sítio arqueológico e suas escavações devem revelar novas histórias sobre aquele que foi considerado o “rei do candomblé”.

 

Extraído do caderno Diálogos da Fé da Revista Carta Capital / São Paulo – SP
https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/joaozinho-da-gomeia-o-rei-do-candomble

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