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Laila Garin: “a gente precisa de arte”

Após vários musicais, cantora lança seu primeiro disco comenta fim de ano na Bahia, dias no Catete e noites no bar: “se tiver amigos e violão, não tenho vontade de sair”

 

POR EMILIANO URBIM

24/07/2017 4:30 / atualizado 24/07/2017 15:23

A cantora Laila Garin, que está lançando seu primeiro disco “Laila Garin e A Roda” – Leo Martins/Agência O Globo

 

Estrela de “Elis, a musical” e de outros espetáculos que unem ação e canção, a baiana lança agora seu primeiro disco. Parceria com um trio de músicos que conheceu nos palcos, “Laila Garin e A Roda” chega às plataformas digitais dia 28. O CD físico sai em agosto e será lançado com shows em 16 no Rio e 18 em SP. Em uma entrevista concedida durante uma passagem pelo Rio – ela está passando uma temporada em São Paulo, em cartaz com o musical “A gota d’água”, Lila fala de sua estreia “Sem personagem”, do papel da arte, sua relação com religião, dias no Catete e noites no bar: “se tiver amigos e violão, não tenho vontade de sair”.

Por que lançar agora o seu primeiro disco?

Eu tinha uma frustração por estar há um tempo fazendo espetáculos em que cantava, mas sempre a serviço de um personagem. Aos 39 anos, não tinha trabalho musical próprio. Aí encontrei parceiros que entendem meu jeito de cantar atuando, atuar cantando: Ricco Viana (guitarra e violão), Marcelo Müller (baixo) e Rick De La Torre (bateria). É o trio A Roda, que toca comigo neste primeiro disco.

Como você desenvolveu esse estilo que mistura canto e atuação?

Foi quando estudei em São Paulo, na companhia de teatro do Cacá Carvalho. Muita gente conhece ele como o Jamanta das novelas do Sílvio de Abreu, mas é um ator tremendo. Cacá me ouvia cantar e dizia: “Este canto está belo. Não é o suficiente.” A professora italiana Francesca Della Monica também dava porrada: “Não estou nem aí que você canta bonito. Cadê a verdade?”

Como encarou esse retorno tão sincero?

Eles estavam certos. Em 2009, João Falcão bateu nessa mesma tecla. E hoje eu estou convencida: cada canção é uma jornada, você começa de um jeito e termina de outro, alguma coisa tem de acontecer.

 

Isso influenciou na escolha do repertório?

Ney Matogrosso me fez entender que posso ser eclética e foda-se. O que une as nove faixas é que todas contam uma história. “Baioque” (de Chico Buarque) é um manifesto, “Sonhos pintados de azul” (de Dani Black) é uma história de amor. Já “L’Accordéoniste” (do repertório de Édith Piaf) homenageia minhas origens — sou filha de uma baiana e um francês.

Ney Matogrosso e Laila Garin nos bastidores do Prêmio da Música Brasileira 2017 – Barbara Lopes/O Globo

Como foi crescer entre essas duas culturas?

Foi uma infância bem artística. Nossa casa em Salvador tinha vários quartos, a gente estava sempre recebendo artistas, cineastas, dançarinos. Sempre recebi muitos estímulos para seguir o que quisesse. Hoje estou cheia de trabalho, entre Rio e São Paulo, não volto para lá quase nunca. Só no Natal, para ver minha família. E para ver Mãe Estela.

Quem é Mãe Estela?

É minha mãe de santo, muito linda, muito importante para o candomblé. Eu acredito nos orixás, sou filha de Oxum. Acredito em Buda também.

Há espaço para religião no dia a dia?

Sou anárquica. Todo dia escrevo na agenda para meditar e nunca medito.

É difícil se controlar?

Eu tenho um ditador que me obriga a fazer as coisas, que me diz “amanhã você faz isso, no horário tal”. Mas aí eu me rebelo e não faço nada. O ditador sou eu mesma, tá? (Risos.)

Ah, bom! Achei que o ditador fosse seu marido…

Não. O Hugo (Mercier, iluminador francês) só não gosta que eu deixe louça suja de um dia para o outro quando é minha vez de lavar.

Como vocês se conheceram?

Ele trabalhava em um espetáculo do Cirque du Soleil que veio para o Brasil, eu era intérprete deles. Isso foi em 2011. Ele foi, voltou, começamos a namorar, estamos casados há quatro anos.

A cantora Laila Garin – Leo Martins/O Globo

Você agora está fazendo “A gota d’água” em São Paulo, mas morando no Rio.

Isso. Eu moro no Catete, vejo o parque do palácio da minha janela. Dói no meu bolso, mas é de Jesus ter aquele verde. E eu gosto muito do bairro, do clima, gente na rua, forró na banca de jornal. Quando eu estava em “Rock story”, o pessoal comentava “Moça, te vi na novela!”, algo difícil de acontecer em Ipanema, por exemplo. Eu curto muito esse calor do Rio. E a luz, o que é a luz? Nesta época do ano é uma coisa linda de morrer.

 

Além de curtir “a alma encantadora das ruas”, o que mais você gosta de fazer?

Eu adoro cinema, adoro teatro… E eu adoro ir para o bar! Quando tem uma festa assim, para dançar, eu tenho peguiça. Mas ir no bar conversar é o que eu mais gosto. Curto um boteco. Não fico até o final porque um cantor de musical não pode ser tão loucão. Você sente imediatamente no palco. Mas se tiver um violão, uns amigos cantando, não tenho vontade de sair.

E quais são os papos?

Esses dias mesmo estava falando que a gente vive um tempo em que é preciso dizer o óbvio. E o óbvio é o seguinte: arte é importante. A vida do ser humano não é só comer e cagar. A gente precisa de abstração. Não é que todo mundo vai virar artista, mas você precisa se sensibilizar para você conseguir se relacionar, se colocar no lugar do outro. Eu tenho pensado muito nisso, que isso precisa ser colocado, que a gente precisa de uma estratégia para tocar o coração das pessoas.

Qual sua estratégia para tocar quem vai ouvir seu disco?

Não garanto que eu tenha algo totalmente diferente para apresentar ao mercado ou ao público, algo que seja melhor do que fizeram Elis Regina, Bethânia, Gal Costa, Marisa Monte. Talvez seja muito aquém, talvez ninguém goste. Mas é algo que vem de dentro, o prazer que eu sinto fazendo é tão pleno que me sinto até livre de ego. Parece meio babaca falar isso, mas quero é que esse amor que eu sinto chegue aos outros.

Extraído do site do Jornal O Globo / Rio de Janeiro – RJ
Leia mais: https://oglobo.globo.com/ela/gente/laila-garin-gente-precisa-de-arte-1-21611969#ixzz4noQdlKxs 

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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