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Lavagem do Bonfim une católicos e povo de santo na BA: ‘lição ao mundo’

Festa com dois séculos de história ocorre nesta quinta (14), em Salvador. 
Fiéis percorrem oito quilômetros entre igrejas do Comércio e Bonfim.

Henrique MendesDo G1 BA | 14/01/2016 07h00 – Atualizado em 14/01/2016 09h40

 

Lavagem do Senhor do Bonfim 2016 (Foto: Max Haack/Ag Haack)
Lavagem do Senhor do Bonfim 2016 (Foto: Max Haack/Ag Haack)

Entre as Igrejas Basílicas de Nossa Senhora da Conceição da Praia e do Santuário Senhor do Bonfim, em Salvador, um “tapete” de cor branca se estende em 8 km de caminhada. Lado a lado, devotos do catolicismo e do candomblé vão às ruas, na manhã desta quinta-feira (14), celebrar ao Senhor do Bonfim e a Oxalá.

Festa do Bonfim reúne adeptos do candomblé e católicos em Salvador (Foto: Max Haack/Ag Haack)
Festa do Bonfim reúne adeptos do candomblé
e católicos em Salvador (Foto: Max Haack/Ag Haack)

“A Lavagem do Bonfim é um momento de integração entre diversas religiões, devotos, turistas e políticos. Na verdade, é um grande encontro. Em um momento de terrorismo, em que a religião é usada como instrumento que contribui para a violência, estamos aqui dando uma lição ao mundo”, resume o padre Edson Menezes, reitor da Igreja do Bonfim, sobre o sincretismo que envolve a festa.

Pesquisador da afrobaianidade e professor da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), Gildeci Leite explica que Senhor do Bonfim e Oxalá são entidades diferentes, que se complementam. “Oxalá é o filho mais velho de Olorum [Divino Criador], aquele que habita o céu. Dentro da proposta espiritualista, entendemos que o Senhor do Bonfim é o filho de Oxalá”, detalha. Para os católicos, o Nosso Senhor do Bonfim é a representação do Cristo Crucificado.

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Historicamente, a fé do povo de santo e dos católicos se entrelaça. Leite detalha que um dos símbolos desse cruzamento entre as religiões está nas vestimentas brancas usadas pelos fiéis. “Oxalá é o Senhor do Pano Branco”, explica sobre a absorção do ritual na festa católica. “A grande importância vem aí. A cultura negra foi associada à Lavagem do Bonfim”, complementa.

Gildeci Leite acredita que o sincretismo entre as religiões, inclusive, foi responsável por eleger um novo padroeiro para a capital baiana. “São Francisco de Xavier é o padroeiro de Salvador, mas todo mundo jura de pé santo que é o Senhor do Bonfim. E o que é a voz do povo?”, brinca.

Para o padre Edson Menezes, reitor da Igreja do Bonfim, o encontro entre as religiões nos festejos da Lavagem do Bonfim é visto com respeito pela Igreja Católica. “Como nós sabemos, o sincretismo resultou de um momento histórico de colonização. Encaramos isso com respeito e consideração. Achamos que é algo próprio da cultura que deve ser valorizado e reconhecido”, afirma.

A festa do Senhor do Bonfim ocorre desde 1750, incorporando em sua trajetória religiosidade e características profanas. Informações da Secretaria de Turismo apontam que a tradição da lavagem começou com os escravos, quando eles preparavam o templo para o domingo festivo. Mulheres vestidas com trajes brancos e de torços na cabeça colhiam água em uma fonte do bairro do Bonfim, que era levada à Colina Sagrada em lombo de burro. Durante o trabalho, cantava-se e dançava-se. Desde então, as homenagens acontecem sempre no segundo domingo após o dia 6 de janeiro, data em que a Igreja celebra a Festa de Reis.

“A Lavagem do Bonfim tem conotação religiosa e profana. Está presente ali a religiosidade popular e piedade. Consideramos um grande evento de fé e esperança”, atesta o padre Edson Menezes.

Festa do Senhor do Bonfim é uma das mais tradicionais da Bahia (Foto: Max Haack/Ag Haack)
Festa do Senhor do Bonfim é uma das mais
tradicionais da Bahia (Foto: Max Haack/Ag Haack)

Programação Religiosa
A programação em homenagem ao Senhor do Bonfim, considerado o padroeiro de coração dos baianos, foi aberta no dia no dia 7 de janeiro, com o início do novenário (que é interrompido no dia a lavagem), e segue até domingo (17), quando se celebra o Senhor do Bonfim.

Nesta quinta-feira, às 8h, conforme a Secretaria de Cultura do Estado (Secult), está previsto o ato inter-religioso na Basilica de Nossa Senhora da Conceição da Praia. Neste momento, representantes da Igreja Católica, da Federação Espírita e da tradição religiosa afrobrasileira passam mensagens para os fiéis. Durante todo o ato, há a participação do Coral Basílico da Conceição da Praia regido pelo Maestro David Alves Tourinho.

Logo depois, começa a caminhada saindo da Basílica Santuário Nossa Senhora da Conceição da Praia, no Comércio, até o Bonfim. A Secult detalha que cinco pontos de fogos de artifício estão espalhados durante o percurso: na Marina, ao lado da Escultura Mário Cravo (Comércio); Mercado do Peixe (Águas de Menino); Praça Irmã Dulce (Largo de Roma); Largo da Calçada; e Alto da Colina Sagrada. Uma série de entidades civis, católicas e do povo de santo participam da caminhada. Dentre elas estão o grupo “Devoção do Senhor do Bonfim” e o “Afoxé Carinagô”.

No domingo, a programação tem início às 4h30, com alvorada e repique dos sinos, seguido de missas às 5h, 6h e 7h30. A novidade durante a Lavagem é que os fiéis poderão passar pela “Porta da Misericórdia”, na Basílica Santuário Senhor do Bonfim, para pedir perdão pelos pecados. Às 12h acontece a acolhida às baianas pelos membros da Irmandade (Devoção do Senhor do Bonfim) e entrega das vassouras para a lavagem do adro da Basílica; após o ritual da lavagem do adro, a imagem Peregrina do Senhor do Bonfim ficará próxima à porta principal na Basílica Santuário para veneração pública até 18h; Já às 16h, Fiéis participam da Procissão dos Três Pedidos, com saída da Igreja dos Mares em direção à Colina Sagrada, onde dão três voltas em torno da Basílica, fazendo os três pedidos. A bênção do Santíssimo Sacramento e a queima de fogos de artifício finalizam as homenagens ao santo.

 

Extraído do portal de notícias G1 / Bahia
http://g1.globo.com/bahia/verao/2016/noticia/2016/01/lavagem-do-bonfim-une-catolicos-e-povo-de-santo-na-ba-licao-ao-mundo.html

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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