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LGBTFOBIA: Crime de ódio transcende o islã

Para especialista, o problema não está na religião em si, mas no uso político que é feito dos dogmas

 

James Green, Historiador e brasilianista Universidade Brown, EUA
James Green, Historiador e brasilianista Universidade Brown, EUA

PUBLICADO EM 19/06/16 – 03h00

RAQUEL SODRÉ

Logo após o atentado contra o público da boate Pulse, em Orlando, nos Estados Unidos, jornais do mundo todo e redes sociais foram tomados por conteúdos – matérias, vídeos, imagens e comentários – que associavam o ato à intolerância religiosa do Islã. Para quem está no Brasil, longe dos conflitos entre o Oriente Médio e o mundo Ocidental, a primeira sensação pode ser de “alívio” – afinal, pelo menos aparentemente, crimes de ódio associados a religião não seriam tão expressivos no país.

Mas, segundo especialistas, a intolerância religiosa que alimenta a violência contra grupos LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e pessoas transgênero está presente em todas as religiões monoteístas – cristianismos católico e protestante, as duas religiões com maior número de fiéis no Brasil, incluídos. E, apesar de o país nunca ter sofrido uma chacina como a de Orlando, há aqui uma violência silenciosa, que acontece diariamente. Somente no ano passado, de acordo com um levantamento da ONG Grupo Gay da Bahia, 318 LGBTs foram mortos por crime de ódio no Brasil – quase uma morte por dia. Somente neste ano, já foram 130.

Crimes como esses, de acordo com o historiador e brasilianista James N. Green, professor na Universidade Brown, nos Estados Unidos, fazem parte de uma onda de radicalização internacional.

“Vivemos uma onda religiosa conservadora que questiona os valores de revolução francesa, a separação do Estado das religiões e as conquistas democráticas de setores historicamente reprimidos. As ideias religiosas reacionárias fomentam essa violência”, aponta ele.

Na Rússia, onde a maioria da população é cristã ortodoxa, uma boate LGBT foi alvo de um ataque com gás tóxico na semana passada. “Acreditamos que isso tenha a ver com o proprietário do prédio. Eles estão pulverizando o gás na boate, tentando expressar sua visão extremista contra a comunidade LGBT, que gosta de visitar nosso local”, declarou o diretor da boate, Andrey Leschinsky, ao jornal “Huffington Post”.

Essa radicalização pode ser compreendida como uma reação conservadora à conquista de direitos LGBT. “É uma onda da pós-modernidade. Desde a modernidade para cá, a sociedade passou a absorver melhor a fluidez. Então, esse conservadorismo pode ser visto como uma reação. No momento em que começa a haver uma possibilidade de liberdades mais amplas, as pessoas se assustam e recorrem a comportamentos mais conservadores, na tentativa de encontrar uma segurança”, analisa a cientista política Anna Marina Barbará, coordenadora do Laboratório de Pesquisas de Estudos de Gênero da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Segundo o psicólogo Samuel Silva, membro da Comissão de Psicologia, Gênero e Diversidade Sexual do Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais, o problema não é a religião em si, mas o uso político que se faz dela.

“A religião, quando conduzida de forma fundamentalista, pode formar e consolidar a LGBTfobia por basear-se em dogmas e valores que não se aplicam mais a nossa sociedade. O problema é que hoje observarmos muitos movimentos fundamentalistas na religião, que inclusive estão tomando bastante espaço na política. Isso é assustador”, acredita.

 

Extraído da versão digital do Jornal O Tempo / Belo Horizonte – MG
http://www.otempo.com.br/capa/mundo/crime-de-%C3%B3dio-transcende-o-isl%C3%A3-1.1325526

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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