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Lideranças religiosas discutem sobre tolerância e paz em Manaus

Arcebispo, mãe de santo, pastor evangélico e rabino se encontraram para discutir sobre o respeito à diversidade religiosa entre os povos

Manaus, 19 de Agosto de 2015

NELSON BRILHANTE

Secretária de Estado de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejusc), Graça Prola, promoveu um dos mais ecumênicos encontros registrados em Manaus, com o objetivo de fortalecer a luta pela paz e pela tolerância religiosa (Antonio Menezes )
Secretária de Estado de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejusc), Graça Prola, promoveu um dos mais ecumênicos encontros registrados em Manaus, com o objetivo de fortalecer a luta pela paz e pela tolerância religiosa (Antonio Menezes )

Não é comum ver um arcebispo, líder da igreja Católica no Amazonas, numa mesma reunião com a mãe de santo Janeth Lima (Povos e Comunidades Tradicionais Bantu), com o pastor Sadi Rodrigues Caldas, presidente da Ordem dos Ministros Evangélicos do Amazonas, e com o rabino Isaac Daham, da Sinagoga Judaica de Manaus. Eles e muitos outros líderes religiosos, de várias denominações, se encontraram na manhã de ontem para discutir sobre a paz e o respeito à tolerância religiosa entre os povos.

De acordo com a titular da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejusc), Graça Prola, essa é uma demanda do Comitê Estadual de Promoção e Igualdade Racial, que trouxe para a Sejusc algumas atitudes que podem levar a uma questão de intolerância religiosa. Queremos, enquanto Estado, colocar em debate essa questão, não só do fundamentalismo religioso, mas especialmente no sentido de garantir o respeito e a paz entre todas as religiões, justifica a secretária.

William Ferreira Silva, ministro da Igreja Messiânica Mundial do Brasil, fez parte da rodada de discussões e tem ideia formada sobre o tema. “Achei interessante a ideia do encontro para se debater um ponto tão importante, que é o respeito à opção religiosa. Viemos para cooperar, usando os ensinamentos bíblicos para evitar conflitos e preservar o respeito à opção de cada um. Todas as religiões são divinas e não somos nós que devemos julgar ou condenar quem as aceita”.

Jhonata Azevedo, presidente da Associação de Desenvolvimento Sócio-Cultural, entidade que cuida de direitos humanos, saúde e meio ambiente, estava satisfeito com a presença de tantos convidados. “Antes, tentamos, mas algumas lideranças não conseguiam se entender. Hoje foi diferente. Temos que nos unir para evitar o ódio e o preconceito entre os povos por causa da opção religiosa”, defende Azevedo.

Bantu

A maior preocupação da mãe Janeth Lima, líder dos Povos e Comunidades Tradicionais Bantu (de origem angolana), é com o julgamento feito por outras denominações religiosas. Para ela, não importa o nome, desde que o Deus, criador do céu e da terra, seja o mesmo.

“Nossa tradição é milenar, arcaica e, por isso sofre diversos tipos de intolerâncias. Estamos na luta contra isso. Não pode haver retaliações, embates que só trazem prejuízos para o nosso povo. Um encontro como esse é bom para todos. Para falarmos do outro, é preciso entender a opção do outro. Infelizmente sofremos muita discriminação e preconceito dos neopentecostais”, desabafa Janeth.

Para o pastor e secretário adjunto da igreja Assembleia de Deus, José Campelo de Figueiredo, a união dos líderes religiosos é fundamental no combate à violência e ao desrespeito às opções religiosas. “Aceitamos o convite porque entendemos que é um encontro que tem por objetivo a defesa de quem prega a palavra de Deus”, justificou o pastor.

Blog: Dom Sérgio Eduardo Castriani, Arcebispo metropolitano de Manaus

“A intolerância religiosa leva a atos de violência. É um fenômeno mundial. Sabemos que, em várias partes do mundo têm pessoas que matam em nome de Deus, o que é um absurdo. Então, estamos aqui para tentar evitar que isso, algum dia, venha a ocorrer no Brasil. A lei fundamental de toda religião é que não se faça ao outro o que não queremos que façam com a gente. Se nós queremos respeito à nossa posição religiosa, devemos respeitar a posição do outro. A liberdade de consciência é fundamental. Se não for respeitada, leva a outras agressões aos direitos humanos. É um absurdo qualquer violência em nome da religião. Quando você acha que o outro está possuído pelo demônio, e que você tem Deus e outro não tem, então você está incitando a violência. Depois, alguém desequilibrado vai praticar violência. Então, é responsabilidade das lideranças religiosas, das pessoas que falam em nome de Deus. Nós viemos a convite do Governo do Amazonas. É um encontro importante para defender a paz em nome da religião, sem importar quais as tendências ou preferências de cada um.”

Blog: Isaac Daham, Rabino da Sinagoga Judaica de Manaus

“Eu achei muito importante a ideia desse encontro. Recebi a visita pessoal da secretária Graça Prola, convidando para essa reunião e não pensei duas vezes em aceitar o convite. Primeiro, a justiça social é uma coisa que precisa ser aplicada. É falada e pregada na Bíblia, mas dificilmente é aplicada. Então, tem que haver um esforço em conjunto para que, respeitando a opção religiosa de cada um, possamos ajudar na prática dessa justiça. Não é mudar a fé de ninguém, apenas respeitar e unir forças para evitar que o mundo continue praticando tantas injustiças sociais, em nome de religiões. Todos nós temos um único Deus, mas ele tem mais de um povo. Todos nós somos filhos de Deus, independentemente dos caminhos que tomamos. Todos eles são bonitos diante do criador. A melhor forma de chegar perto de Deus por meio dos seus semelhantes, independentemente de qualquer religião. Se você cuida e consegue fazer o bem dos seus irmãos, você vai ficar bem pertinho de Deus, independentemente de reza ou de opção religiosa. Por isso aceitei o convite e estou aqui”.

Extraído do site do Jornal A Crítica / Manaus – AM
http://acritica.uol.com.br/manaus/Amazonas-Amazonia-Liderancas-religiosas-tolerancia-religiosa-Manaus_0_1415258464.html

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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