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Lideranças religiosas protocolam ação no MPF para resgate de peças sagradas

Coleção de 200 artefatos está retida no Museu da Polícia Civil, no Centro do Rio

 

POR CAMILA ZARUR*

10/08/2017 15:13 / atualizado 10/08/2017 15:39

Reunião entre MPF e líderes de religiões de matriz africana – Flávio de Xangô / Reprodução

 

RIO — Lideranças de religiões de matriz africana e dos movimentos negros, junto com o deputado estadual Flavio Serafini (PSOL), protocolaram na quarta-feira uma representação no Ministério Público Federal (MPF) para apurar estado de 200 peças sagradas para o Candomblé e para a Umbanda que estão armazenadas dentro do Museu da Polícia Civil, no Centro do Rio. Os artefatos foram apreendidos na época em que estava em vigor o antigo Código Penal de 1890, que proibia a “prática de espiritismo, da magia e seus sortilégios”.

Com a representação, os movimentos esperam que as peças possam ser transferidas para um local mais adequado, onde haja uma preservação maior e que venham a ser usadas de modo a ensinar mais sobre as religiões de matriz africana. Segundo o deputado Serafini, o objetivo, no momento, é que o MPF abra um inquérito para apurar a situação da coleção e investigue eventuais situações de ilegalidade e de preconceito religioso por mantê-la apreendida.

— Primeiro, é importante destacar que são peças que tem um imenso valor cultural e religioso. São peças sagradas para as religiões de matriz africana. E por terem sido tomadas em um momento em que o Brasil tinha institucionalizado o racismo religioso, acaba sendo uma ação de reprodução da violência — explica.

Como a Polícia Civil não divulga sobre as condições das pessoas, há dúvidas sobre o estado de preservação das peças, tanto por conta de um incêndio ocorrido no prédio do museu, quanto pela forma que estão sendo cuidados. Umas das possibilidades consideradas pelo grupo é de que a coleção seja transferida para um outro museu, onde possam ser estudadas e catalogadas, como explica Tio Songhele, kanbono do Bate-folha — uma das comunidades do Candomblé mais antigas do Rio.

— As peças não foram abertas à nós. Como essa perseguição acontecia desde o Império, não sabemos se ali tem objetos dessa época ou se só estão aquelas que datam dos anos 1920 e 1930. É preciso poder vê-las e estudá-las para saber de quando elas são.

A coleção, batizada de forma discriminatória como “Magia Negra”, foi tombado em 1938 pelo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, atual Iphan. Desde os anos 80, a Maria do Nascimento, mais conhecida como Mãe Meninazinha de Oxum, já falava dessas peças e defendia de que elas precisavam sair da guarda da Polícia Civil e fossem usadas a favor do Candomblé e da Umbanda.

— Esse sagrado não pertence à polícia, mas sim ao povo do terreiro. Estou muito esperançosa e acredito que com a representação vamos ter uma resposta positiva; Que vamos conseguir resgatar essas peças e que elas sejam levadas para um lugar onde as pessoas e as crianças possam vê-las e conhecer mais a nossa religião. Essa é a nossa história e o povo precisa ter conhecimento sobre ela.

Procurada, a Polícia Civil, responsável pelo museu, não respondeu às perguntas do GLOBO.

 

Extraído do site do Jornal O Globo  / Rio de Janeiro – RJ
https://oglobo.globo.com/rio/liderancas-religiosas-protocolam-acao-no-mpf-para-resgate-de-pecas-sagradas-21688538#ixzz4pWTjqMY3 

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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