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Líderes de candomblé usam fé para superar ataques e defendem tolerância

Intolerância religiosa

Casos de intolerância religiosa, como a queima de imagens e ataques em terreiros, demonstram ignorância sobre a religião, dizem integrantes do candomblé

por Portal BrasilPublicado: 08/05/2016 11h41Última modificação: 08/05/2016 11h41

Foto: Tânia Rêgo/ABr
Casos de intolerância religiosa são principalmente feitos contra objetos sagrados para as religiões de matrizes africanas, como os ibás e imagens. Foto: Tânia Rêgo/ABr

No dia 5 de agosto de 2015, Regiane recebeu a ligação da uma vizinha, avisando que homens encapuzados entraram em sua casa e quebraram algumas de suas vasilhas. Regiane se desesperou. Não eram apenas vasilhas. A brasiliense é yalorixá, chefe de terreiro de candomblé, e as vasilhas quebradas na verdade eram os igbás, peças de cerâmicas de uso sagrado para a religião. Foi um ato de intolerância religiosa.

“Estava tudo quebrado. O quarto de Oxalá todo quebrado, as portas arrombadas, e se aproveitaram disso para saquear o barracão. Foi um ato de vandalismo muito grande, um ‘sai daqui, vocês são bichos, vocês são monstros’. Porque essa é a sensação que você tem, que a sua fé não vale de nada”, lamenta a sacerdotisa.

O terreiro Asè Queiroz, na época em Santo Antônio do Descoberto, em Goiás, sofreu também com o fogo um mês após quebrarem seus pertences. Enquanto Regiane e o marido, o babalorixá Babazinho, vendiam acarajé em Brasília, outra ligação veio para reportar que o terreiro estava incendiado. Com isso, ela e o marido resolveram se mudar de vez. Hoje, estão reconstruindo o terreiro em Cidade Ocidental.

“É melhor um covarde vivo do que um valente morto, não é? Fiquei com medo de por a minha vida e a dos outros em risco. Somos 69 pessoas aqui. Depois do que aconteceu, conseguimos fazer uma festa e arrecadar fundos para comprar essa chácara. Vendi tudo que eu tinha para comprar material e começar a subir a construção”, conta Babazinho.

Nenhum deles sabe explicar muito bem o porquê dos ataques, mas os dois concordam que o preconceito sofrido pelo candomblé, e outras religiões de matriz africana, vem da falta de conhecimento.

“Nossa religião é de muita ajuda. A gente não pergunta quem você é, se tem diploma. Você chegou precisando, a gente ajuda, seja espiritualmente ou até dando cesta básica, ajudando com a passagem. As pessoas pensam que é coisa do demônio, não tem nada a ver com isso. Os orixás são a natureza. Nem existe a figura do demônio no candomblé”, explica Babazinho.

O babalorixá acha que falta respeito por parte de muitas pessoas que tem uma imagem errada do candomblé. “Acho que o respeito tem que acontecer independente de religião. Eu posso ir na igreja evangélica e na católica e respeitar o espaço deles, mas eles tem a obrigatoriedade de respeitar o nosso também”.

O que leva Regiane e Babazinho seguirem em frente e construir outro terreiro é a fé. “Eu confio demais em Orixá. Se fosse para fazer de novo, eu faço. Tem muitas pessoas aqui que vem buscar acolhimento e sou muito feliz e muito grata. Por isso essa força de continuar, porque eles acreditam na gente”, diz.

Ataques a imagens

Outra situação de intolerância religiosa é o ataque constante às imagens de orixás na Praça dos Orixás, em Brasilia, também conhecida como Prainha. Várias imagens tiveram os dedos cortados, seus acessórios arrancados, e até mesmo a cabeça da imagem de Iemanjá já foi arrancada.

Recentemente, a imagem de Oxalá foi queimada e completamente destruída. O ogan Luiz Alves explica que a pessoa provavelmente conhecia os orixás e que o caso é indiscutivelmente um dos muitos de intolerância religiosa.

“Oxalá é muito importante, é a maior figura dos orixás. Se fôssemos comparar, Oxalá seria Jesus Cristo. Imagina alguém entrando em uma igreja cristã e queimando a imagem de Jesus?”, questiona.

Para o ogan, a falta de respeito tem também caráter racial. “Essa religião veio junto com os navios negreiros. Tudo que era relacionado aos negros era considerado ruim e é claro que a religião também sofre do mesmo problema”, conta.

Ele considera que os atos de desrespeito acontecem não só de forma física, ao colocar fogo em uma imagem, mas em várias formas no dia a dia. “Acho que quem faz isso está doente espiritualmente. Eu sugeriria para essa pessoa procurar ajuda, seja na religião dele ou em outras. É preciso desarmar o coração e amar mais, sem dogmas e independentemente de viés religioso”.

Fonte: Portal Brasil

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Extraído do site do Portal Brasil / Brasília – DF
http://www.brasil.gov.br/intolerancia-religiosa/textos/o-respeito-tem-que-acontecer-independente-de-religiao-diz-babalorixa

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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