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Livro analisa aumento de violência contra terreiros de umbanda e candomblé

Agressões vão de som alto a depredação de templo

HILKA TELLES

Rio – Estudo de campo sobre terreiros de umbanda e candomblé, organizado pela historiadora Denise Pini Fonseca e pela antropóloga Sonia Giacomini, esbarrou numa informação que está preocupando lideranças de religiões de matrizes africanas: dos 840 terreiros visitados, mais da metade (430) informou ter sido alvo de discriminação ou agressão por motivo religioso, apontando evangélicos neopentecostais como principais autores.

As neopentecostais não possuem associação ou federação. A Universal do Reino de Deus, a mais em evidência, não quis comentar o assunto, já que o estudo não cita nomes de igrejas. “Esse cenário começou a ser delineado nos últimos 20 anos, mas foi na última década que ganhou contornos mais contundentes. Receio uma guerra santa”, dispara o babalorixá candomblecista Luiz de Omolu, que mantém terreiro em Cosmos, na Zona Oeste. O resultado da pesquisa está no livro ‘Presença do Axé — Mapeando Terreiros no Rio de Janeiro’ (Editora Pallas), que será lançado hoje.

 

Pai Marco (à frente), com membros do templo Tenda Espírita Caboclo Flexeiro, em Santíssimo: 39 registros policiais por intolerância religiosa Foto:  Estefan Radovicz / Agência O Dia
Pai Marco (à frente), com membros do templo Tenda Espírita Caboclo Flexeiro, em Santíssimo: 39 registros policiais por intolerância religiosa
Foto: Estefan Radovicz / Agência O Dia

A designação ‘evangélico’ representa 32% dos casos — primeiro lugar entre os protagonistas dos atos de agressão e/ou discriminação. Em segundo, estão os ‘vizinhos’ (27%). Em terceiro, ‘vizinhos evangélicos’ (7%). Essa última categoria, segundo a antropóloga, parece menos uma categoria e mais um reforço das duas anteriores — a de evangélico e a de vizinho.

“Somando-se as três categorias — evangélico, vizinho e vizinho evangélico — obtém-se a grande maioria (66%) de todos os casos de agressão e discriminação”, sublinha a pesquisadora. “A combinação reforça a percepção da existência de um agressor típico que teria, em princípio, não somente uma adesão religiosa específica, mas e/ou também estaria situado espacialmente bastante próximo da casa religiosa ou terreiro”, acentua Sonia.

Não faltam exemplos de agressão e discriminação, que vão desde xingamentos até tentativa de atropelamento a religiosos em encruzilhadas, na hora de ‘arriar obrigações’. Para o umbandista Pai Marco, da Tenda Espírita Caboclo Flecheiro, em Santíssimo, também Zona Oeste, registrar queixa na Polícia é fundamental. Ele que o diga: nos últimos seis anos fez nada menos que 39 registros policiais por intolerância religiosa contra duas famílias de evangélicos que moravam ao lado — uma delas ainda continua no local.

Agressões vão de som alto a depredação de templo

Os exemplos de agressão e discriminação contra adeptos das religiões afro-brasileiras proliferam tanto quanto as igrejas neopentecostais. No terreiro do Pai Marco, os vizinhos invadiram o terreno, quebraram imagens de orixás, passaram óleo em maçanetas e sujaram corredores com sal fino (sal grosso é coisa do demônio, segundo adeptos).

A filha de santo Edilaine Lessa, de 27 anos, sente-se constrangida quando entra em transporte público usando roupas brancas e torso na cabeça. “Quando me sento, geralmente, quem está do lado se levanta”, conta. A amiga Meri Inácio, 46, enfrenta a discriminação da família evangélica.
A mãe de santo umbandista Sheila Marques, 50, enfrenta diariamente a intolerância da pastora e adeptos de uma igreja que abriu ao lado do terreiro dela, em Santíssimo. “Chegam a dar tapas no rosto da imagem de uma Preta Velha pintada no meu muro”, relata.

 

Pai Luiz de Omulu e seu filho: acirramento de conflitos há dez anos Foto:  Estefan Radovicz / Agência O Dia
Pai Luiz de Omulu e seu filho: acirramento de conflitos há dez anos
Foto: Estefan Radovicz / Agência O Dia

Já o professor de capoeira Leonardo França, 32, perdeu nos últimos três anos 80, dos 180 alunos de capoeira, porque as aulas são no terreno do centro espírita.

Na quinta-feira, ao chegar à casa de Pai Luiz, vizinhos em frente tocavam alto hinos evangélicos. Coincidência ou não, ao ver a equipe do DIA entrar no terreiro, desligaram o aparelho.

Vandalismo se dá nas ruas

Os locais públicos concentram a maioria dos atos de agressão ou discriminação (225 casos, num total de 393) aos adeptos das religiões de matriz afro-brasileira. Ou seja: mais de 57%. Nas ruas, por exemplo, acontecem 67% dos casos e, geralmente, também são bem próximas de igrejas neopentecostais.

Foram relatadas ações de agressão e/ou discriminação em transportes coletivos (6%), escolas (5,3%), matas, cachoeiras ou locais de trabalho (3%) e cemitérios, hospitais e meios de comunicação de massa (2%).

Em locais privados são 135 casos de agressão e/ou discriminação (1/3 do total). Pelo menos 29% dos casos notificados de agressão tiveram o terreiro como alvo principal, mas foram sobretudo os seus adeptos (60%) o foco preferencial da ira dos neopentecostais.

Cerca de 75% das ações de intolerância que não ocorreram em locais públicos tiveram a casa de culto como foco, seja por apedrejamento, invasão, destruição de imagem de culto, pichação da fachada, acusação de venda de tóxicos ou de manter menores em cárcere privado, ameaça de expulsão ou perseguição de proprietário do imóvel, além de xingamentos.

Os relatos raramente informam a idade dos agressores, mas um terço deles relatam o gênero: de cada três deles, dois são homens e um é mulher. No caso das vítimas, a relação é inversa: para cada três religiosos agredidos, dois são mulheres e um é homem.

Extraído do site O Dia On Line

http://odia.ig.com.br/noticia/rio-de-janeiro/2014-05-05/livro-analisa-aumento-de-violencia-contra-terreiros-de-umbanda-e-candomble.html

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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