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Livro mostra a influência da religião vodum

Meire Oliveira  | Ter, 16/08/2016 às 07:57

 

 

 Museu Afro-Digital | Divulgação Os voduns Lepon e Arronoviçavá da Casa das Minas com bengala e lençol em São Luís
Museu Afro-Digital | Divulgação
Os voduns Lepon e Arronoviçavá da Casa das Minas com bengala e lençol em São Luís

 

Os impactos das práticas religiosas na economia, política e sociedade na Costa da Mina (região dominada pelo antigo reino do Daomé, atual República do Benin), entre os séculos 17 e 19, e o reflexo dessas imbricações na formação do candomblé na Bahia e do Tambor de Mina maranhense integram O Rei, O Pai e A Morte – A religião vodum na antiga Costa dos Escravos na África Ocidental.

A obra do doutor em antropologia e professor da Ufba Luis Nicolau Parés será lançada, nesta terça-feira, 16, às 18h, no Espaço Cultural Barroquinha, com bate-papo com o autor.

“A religião influencia tudo. Da vida doméstica à economia”, afirma o autor. Do total de uma década de produção, boa parte do livro foi escrita em 2010 e 2011 durante o pós-doutorado National Humanities Center (EUA). E, segundo o autor, o resultado do estudo pode ser dividido em duas partes ligadas pela estrutura religiosa de culto aos voduns (termo mais habitual para designar as divindades africanas na Bahia do século 19).

A primeira é centrada na África, compreendendo os reinos de Uidá, Aladá e Daomé. “O objetivo é entender como as práticas religiosas se relacionam com a organização política centralizada na figura do rei, com a economia nessa época intensa do tráfico de escravos, com a estrutura de parentesco com o culto aos ancestrais”, explica Parés.

Por outro lado, as práticas religiosas também sofrem as alterações nos cenários político econômico e outros. “É um sistema dinâmico e em constante transformação. É flexível e se apropria de novos ritos e elementos. Os deuses cruzam as fronteiras étnicas e linguísticas. E esse fenômeno da ressignificação acontece aqui e lá”, afirma o pesquisador, apontando a postura como ferramenta de resistência. “Se apropriar de outros elementos é uma forma de controlar o novo, garantir a permanência e não sumir”.

Repercussão

Foi da região da Costa da Mina de onde saiu a maioria dos escravos que chegaram ao Brasil. A repercussão desses costumes no outro lado do Atlântico, especialmente na Bahia e no Maranhão, é o foco da segunda parte da obra. Na análise de como essa bagagem chegou por aqui, o autor foge da narração de uma África idealizada. “A base são as ideias práticas, valores, desdobramentos no Brasil no ritual praticado e os elementos identificados com o memorial do passado na dinâmica histórica dessa prática”, disse.

Como exemplo, o autor cita o uso de bengala como elemento ritual comum entre a Casa das Minas e o culto Nesuhue daomeano. “A ideia era trazer mais precisão e provas empíricas para essa relação com a África e apontar esses hábitos como espaço de historicidade e de transmissão não apenas de significados, mas de atitudes e predisposições emotivas”.

Os cultos voduns já são objetos de estudo do pesquisador, que é autor de A Formação do Candomblé – História e ritual da nação jeje na Bahia (Unicamp, 2006), que trata sobre a influência dos povos da região onde hoje está o Benim para a constituição do candomblé baiano.

A narração do novo livro tem, entre outras fontes, diários de viajantes europeus, correspondências, relatórios de agentes comerciais, objetos de época e pesquisas arqueológicas. Os arquivos explorados estão localizados em Porto Novo (capital do Benin), na Bahia e em países como Portugal, Inglaterra e França.
Os relatos da tradição oral sobre práticas religiosas também são fontes históricas. São contos, representações, língua, mitos e memórias que auxiliam no entendimento ou interpretação dos relatos, estabelecendo o diálogo entre a história e a antropologia.

A partir do levantamento dos documentos, foi a vez da comparação do material. “Nessa fase identificamos erros, as invenções e encaramos o desafio de intuir desse material a voz do africano”, contou o pesquisador.

Há também outras conexões estabelecidas pelos laços religiosos no contexto histórico do livro que deixam legado para os dias atuais. “Mesmo com o impacto do tráfico, da violência e das desigualdades, a tolerância é presente. É mais uma lição que o passado africano nos ensina, como é possível conviver em meio às diferenças. Cada grupo tinha sua forma de realizar seu culto e isso era respeitado por todos”.

 

 

Extraído do site do Jornal A Tarde / Salvador – BA
http://www.atarde.uol.com.br/cultura/literatura/noticias/1794282-livro-mostra-a-influencia-da-religiao-vodum

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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1 Comment

  1. armando

    Gostaria que o blog apresenta-se e esclarece-se a situação atual da Casa Grande das Minas do Maranhão, após o falecimento de Mãe Denil Prata.

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