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Lorca e os orixás

O espetáculo “Lírica negra em cena” estreia sexta (6), às 20h, no Teatro Sesc Emiliano Queiroz

   

00:00 · 05.01.2017

Lírica negra funde o pensamento de Lorca às raízes da cultura afrodescendente brasileira
Lírica negra funde o pensamento de Lorca às raízes da cultura afrodescendente brasileira

O pensamento contestador do poeta e dramaturgo espanhol Federico García Lorca (1898-1936), expresso tanto na sua obra quanto nas posições políticas assumidas, ainda reverbera. No Ceará, há 18 anos, a Cia. Palmas Produções Artísticas debruça-se sobre a obra do autor de “Bodas de sangue”, como faz no espetáculo “Lírica negra em cena”, cuja estreia acontece nesta sexta (6), às 20h, no Teatro Sesc Emiliano Queiroz.

Durante uma hora, dois atores em cena conduzirão o público a um passeio pelo fascinante mundo dos orixás, fazendo alusão ao misticismo religioso afrodescendente, enraizado na cultura brasileira.

O tempo é suficiente para os atores exaltarem as simbologias dessas entidades. Oxalá representa a paz, enquanto Yemanjá e “Pai João” a prosperidade e a sabedoria, respectivamente.

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Com belos figurinos e adereços, todos confeccionados à mão, pelos próprios atores, o espetáculo prima pela delicadeza e cuidado. A intenção é fazer com que as pessoas se sintam no mar, admite Francinice Campos, diretora geral da companhia, justificando a data da estreia ser no Dia de Reis, marcada por mesa farta e festa.

O espetáculo que mistura dança, música, poesia, e interpretação, tem como base o livro de Lorca “O poeta em Nova York”, publicado em 1940. Além de frases pronunciadas durante conferências, cartas e diálogos, uma delas “a consciência não tem cor”, lembra a atriz.

O livro foi escrito quando Lorca viajou para Nova York, aos 27 anos. Foi naquela cidade cosmopolita e localizada na América, ambiente diverso do Velho Mundo, que o escritor concebeu uma nova visão sobre o mundo.

Lorca e negritude

E “Lírica negra” tem essas características, ao fundir o pensamento de Lorca às raízes da cultura afrodescendente brasileira, com recorte especial no Ceará, com os maracatus e os afoxés. Duas representações culturais que ganham destaque durante o Carnaval de Fortaleza.

A obra pode ser vista por qualquer idade e não segue uma linearidade. Ou seja, não tem começo, meio, tampouco fim. Muito menos foi feita para ser compreendida. ‘Lírica negra’ é para ser sentida e não compreendida, define Francinice Campos sobre o espetáculo, resultado ainda de pesquisa sobre a cultura afrodescendente, na qual está inserida a magia do universo dos orixás.

A interseção entre Lorca e cultura negra nasce a partir de um olhar mais apurado sobre o Carnaval de Fortaleza. “Há algum tempo fiz parte do júri”, conta, afirmando que o espetáculo não terá a dimensão da avenida, mas do mundo, adianta.

O contato com os maracatus e os afoxés foi fundamental para a concepção da obra, composta por música, dança e loas. As canções apresentadas falam da situação das populações negras, retratam seus sofrimentos, mas também falam de amor e, acima de tudo, liberdade. “É um mundo encantador”, observa, comparando o palco a um grande navio negreiro.

Trata-se de trabalho filosófico que insufla e não cabe dar resposta, como faz a arte de maneira geral. Os atores Bruno Pessoa, responsável pela pesquisa musical, e Lima França, responde pelas coreografias, transportam o público para a atmosfera do mar.

Territórios percorridos

A concepção do trabalho levou seis meses de pesquisa, sendo percorridos os territórios transitados por Lorca e os orixás. “São momentos de encantamento”, reitera com entusiasmo Francinice Campos.

A atriz explica que o espetáculo contará com música ao vivo e coreografia, fazendo da apresentação uma grande celebração. “Lírica negra” será apresentada todas as sextas-feiras de janeiro, sempre às 20h, no Teatro Sesc Emiliano Queiroz.

Maioridade

No dia 5 de junho, a Cia. Palmas Produções Artísticas atingirá a maioridade. A trajetória do grupo é toda dedicada à obra de Lorca, sendo a primeira obra revisitada “A casa de Bernarda Alba”, no ano seguinte a criação, em 1999.

Conforme Francinice Campos a ideia é continuar estudando a obra do escritor espanhol, que experimentou por nove meses a vida em Nova York, servindo de cenário para escrever poemas que só foram publicados após sua morte, em Granada, em agosto de 1936, por militantes franquistas, no início da Guerra Civil Espanhola.

Sua poesia identificava-se com as populações oprimidas, a exemplo dos mouros, judeus, negros e ciganos. Daí a justificativa para a concepção de “Lírica negra”, que buscou inspiração na simbologia de entidades das religiões de matrizes negras, durante muito tempo foram reprimidas no Brasil.

Mais informações:

Estreia do espetáculo “Lírica negra em cena”, da Cia. Palmas Produções Artísticas, sexta (6), às 20h, no Teatro Sesc Emiliano Queiroz (Rua Clarindo de Queiroz, 1740, Centro). Ingressos: R$ 10 (inteira), R$ 5 (meia). Contato: 3254.0061

 

 

Extraído do Caderno 3 do Jornal Diário do Nordeste
http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/mobile/cadernos/caderno-3/lorca-e-os-orixas-1.1681239

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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