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Mães e pais de santo temem que união de facções aumente casos de intolerância religiosa

Mãe de santo foi forçada a destruir terreiro na Baixada Foto: Picasa

Pedro Zuazo

Publicado em 08/11/17 06:00 Atualizado em 08/11/17 12:00

“Os bandidos mandaram fechar todas as casas, todos os barracões. Mandaram acabar com a macumba na comunidade”. O desabafo da mãe de santo X., que cuida de um terreiro no Complexo da Pedreira, em Costa Barros, ligou o sinal de alerta em dirigentes religiosos de matriz africana em todo o estado. Não é a primeira vez que traficantes ordenam o fechamento de terreiros. O ineditismo está no fato de que a situação ocorreu em uma comunidade dominada pela facção Amigos dos Amigos (A.D.A.) e não pelo Terceiro Comando Puro (TCP), que é conhecido por ordenar ataques contra casas de umbandistas e candomblecistas. Com as duas facções unidas em uma aliança selada no início do ano, os líderes religiosos temem que os casos de intolerância agora se alastrem também pelas áreas controladas pela A.D.A.

— Essa vai ser uma nova preocupação nossa. Esse problema com o tráfico começou na década de 1990, no Morro do Urubu. Porém, recentemente os casos têm aumentado muito. Isso revela uma inércia do poder público. Os casos não são investigados. Só uma ação de inteligência pode fazer frente a isso — diz o babalawô Ivanir dos Santos, da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa do Rio.

O aumento de casos de intolerância não é uma exclusividade do Rio. As denúncias de discriminação por motivo religioso cresceram 4960% em cinco anos. Saltaram de 15, em 2011, para 759, em 2016, de acordo com os dados do Disque 100, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH). Em 2016, 69 eram candomblecistas (9,09%), 74 eram umbandistas (9,75%) e 33 são descritas como “religião de matriz africana” (4,35%), totalizando 23,19%.

No Rio, as informações sobre intolerância eram concentradas no Núcleo de Combate à Intolerância da Polícia Civil até 2012, quando foi extinto. De 2012 até o início desse ano, as vítimas de intolerância no Estado passaram a ser acompanhadas pelo Centro de Promoção da Liberdade Religiosa e Direitos Humanos (Ceplir). Para centralizar os dados, a Secretaria estadual de Direitos Humanos criou em agosto o Disque Combate ao Preconceito.

Em menos de três meses, foram 44 denúncias, sendo quatro delas referentes a ataques a terreiros realizados por traficantes. Casos desse tipo, no entanto, continuam a aumentar. Um novo relato que veio à tona essa semana dá conta de que na favela Pára-Pedro, em Colégio, quatro terreiros foram fechados e os religiosos foram proibidos de usar guias e vestir roupas brancas. Os autores da denúncia, no entanto, ainda não buscaram a secretaria e nem registraram o caso na polícia.

— Um dos maiores obstáculos para o combate a esses casos de intolerância é o receio das vítimas de fazer a denúncia. Não estamos falando só preconceito, mas de situações que envolvem ameaça. Passa a se tratar de uma questão de segurança pública — explica o secretário Átila A. Nunes.

— Um dos maiores obstáculos para o combate a esses casos de intolerância é o receio das vítimas de fazer a denúncia. Não estamos falando só preconceito, mas de situações que envolvem ameaça. Passa a se tratar de uma questão de segurança pública — explica o secretário Átila A. Nunes.

Ataque de Nova Iguaçu

Em setembro, traficantes atacaram o terreiro da mãe de santo Carmen de Oxum, em Nova Iguaçu. Registrando a ação com uma câmera de celular, os traficantes ordenaram que a própria mãe de santo destruísse os objetos do terreiro. “Quebra tudo, apaga as velas (…) Todo mal tem que ser desfeito em nome de Jesus”, diz um dos envolvidos, no vídeo. De acordo com o diretor geral da Polícia Civil na Baixada Fluminense, Sérgio Caldas, a 58ª DP (Posse), que investiga o caso, já identificou como executores dois traficantes do TCP. O delegado explica, no entanto, que o medo das vítimas dificulta a investigação.

— O que ocorre em comunidades conflagradas é que as vítimas ficam com medo de se expor. Ainda mais quando o objetivo do tráfico é pressionar os terreiros de candomblé — diz.

Questionada sobre a evolução das investigações dos outros casos denunciados, a assessoria de imprensa da Polícia Civil não se manifestou.

 

Extraído da coluna Casos de Polícia do site do Jornal Extra on line / Rio de Janeiro – RJ
https://extra.globo.com/casos-de-policia/maes-pais-de-santo-temem-que-uniao-de-faccoes-aumente-casos-de-intolerancia-religiosa-22042753.html

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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