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Mãos santas

Tatiana Mendonça e Ronaldo Jacobina  | Seg, 16/11/2015 às 13:39 | Atualizado em: 17/11/2015 às 17:41

 

 

Fernando Vivas | Ag. A TARDE Maria Gorda mora no Candeal e já benzeu príncipes
Fernando Vivas | Ag. A TARDE
Maria Gorda mora no Candeal e já benzeu príncipes
Fernando Vivas | Ag. A TARDE Edna Marques aprendeu a rezar com a avó
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Edna Marques aprendeu a rezar com a avó
Fernando Vivas | Ag. A TARDE Nilza Pereira cura sol e sereno com garrafa d'água e um pano branco
Fernando Vivas | Ag. A TARDE
Nilza Pereira cura sol e sereno com garrafa d’água e um pano branco
Fernando Vivas | Ag. A TARDE Júlia de Bizarro começou menina, benzendo seus vizinhos em Nova Soure
Fernando Vivas | Ag. A TARDE
Júlia de Bizarro começou menina, benzendo seus vizinhos em Nova Soure

Só com muita reza para botar esta reportagem de pé. Sofria de espinhela-caída, ou era vento, com mais chance de ser olhado. E será se não tem um padecimento chamado tempo, que dá na forma de um desencontro? Pois então, certeza que era tempo.

O querido senhor, a querida senhora, poderia indicar uma benzedeira ou um rezador de sua confiança para uma conversa não muito demorada na qual contasse o seu fazer?

– Eu até conhecia uma, ma-ra-vi-lho-sa, mas morreu ano passado.

– Isso existe ainda?

– Lá na minha rua tinha uma, mas ela virou evangélica. Ainda tive que ouvir um sermão por causa disso.

Mas a reportagem tem que sair, tentávamos argumentar. Só lhe falta mesmo é gente que se bote dentro, para estar habitada. E sendo esse ofício uma necessidade pura de dar certo – porque o jornal será publicado mesmo se for contando que se acabou o mundo -, foram aparecendo nomes, endereços e, com muita fé em Deus, os telefones daquelas que juntam folhas e fé para aliviar as dores do corpo e também do espírito.

No Candeal há Maria Gorda, rezadeira famosa de Carlinhos Brown, de ACM, aquela que benzeu os príncipes Felipe De Borbón e Letizia Ortiz, da Espanha, que eram casados há 10 anos e ainda não tinham tido filho. Depois da reza, Letizia já saiu de Salvador grávida. Não sabia? Pois foi. E no posto de saúde que fizeram lá perto da casa dela deram até uma sala para dona Maria atender, ela que não quis. Deixou só uma parte da sua horta lá, para qualquer um que quisesse pegar uma planta para fazer remédio.

Aos 74 anos, Maria José Menezes, a Maria Gorda, conta esses episódios com orgulho, afeição e um certo distanciamento de quem já se aposentou. Há mais de ano adoeceu, passou um tempo no hospital, pensou de não voltar para casa, voltou, agora está quieta, sem aquele movimento de gente que batia à porta por minuto trazendo um problema para que desse conta. “Quando você reza, tem que passar energia positiva. E como é que eu vou fazer isso agora?”.

Ela aprendeu a rezar ainda miúda, aos seis anos, espiando a avó. Dor de cabeça, fogo-selvagem, vento, cobreiro, vermelho, espinhela-caída, queimadura, ar do ventre, peito-aberto, mau-olhado. Para tudo tinha a folha e a palavra certa. Além de benzer pessoas, Maria Gorda também saía para abençoar estabelecimentos. Podia ser uma casa, um consultório, um shopping. Quando o Salvador Shopping foi inaugurado, ela estava lá. Cobrou em torno de mil reais. Para benzer gente não se cobra, garante, mas aceitam-se agrados.

Seus onze filhos cresceram vendo esse movimento todo, mas nenhum quis seguir seu caminho. Sem ter quem lhe dê seguimento, a figura da rezadeira tradicional – amparada no catolicismo popular, com um pé na cultura indígena e outro na afro-brasileira – vai rareando, levando junto um jeito mágico de ver a cura, a vida, o mundo.

Intercâmbio

A antropóloga Fátima Tavares, que estuda a relação entre religião e saúde, discorda dessa visão. Para ela, as práticas sociais não têm início ou fim preciso – vão mudando de acordo com as necessidades de cada época, incorporando experiências.

Em Salvador, esse intercâmbio é marcante. A terapeuta transpessoal Edna Marques, 68, oferece um pacote com diversos fazeres holísticos em domicílio, como cura quântica e constelação familiar, e para dar um “fechamento no trabalho” profere a reza do mau-olhado, acompanhada por três folhas de pinhão-roxo. “A oração é uma parte forte para o ciclo de cura”.

Quando era criança, ela era quem ia catar as folhas para que a avó, paraplégica, rezasse quem aparecia em casa. Aprendeu de estar ali perto, mas passou décadas distanciada daquilo. Só ao separar-se de um casamento de quase trinta anos, viu a dor reabrir seu lado espiritual.

Assustou-se ao lembrar da reza da avó inteirinha como ela dizia, as mesmas palavras, os mesmos gestos. A comprovação estava num caderno amarelado que encontrou por acaso na casa do pai. Com letrinha de professora, a avó tinha anotado ali todas as suas orações de curar doenças. Com aquelas receitas escritas, Edna bem que poderia rezar para tratar de outras enfermidades, mas vê que ninguém mais quer saber delas. “Hoje a pessoa vai ao médico e pronto”.

De tudo um pouco

A Maria Souza, 77, benzedeira, chega gente que buscou médico mas não achou o alívio esperado. “Tem muita criança que vem aqui depois de ficar lá esperando no hospital sem receber atenção”. Por não gostar de ver ninguém sofrendo, atende a todos que aparecem em sua casa, em Brotas, e não quer mérito se a pessoa sair de lá se sentindo melhor do que entrou. “Não me engrandeço. Não tiro a dor de ninguém, é Deus que tira, é a fé que tira”.

Ela só pede que não lhe liguem antes, simplesmente apareçam, porque do contrário padece do que a pessoa sente até que possa livrar a ambos do mal. “Te digo, não tenho dente nenhum. Como é que posso sentir dor de dente?  Pois sinto. Foi só rezar o rapaz que passou a dor”.

Por várias vezes, Maria já pensou em “sair da reza”. Era católica, mas está querendo virar evangélica e não sabe como os irmãos vão entender essa sua atividade. Já foi à igreja algumas vezes e até falou com o pastor, que não se opôs. “Ele me disse que ajoelhasse e pedisse por Deus. Se depois ainda lembrasse da reza, podia continuar. Acho que não empata”. O que fez foi mudar o final das orações medicinais. Agora termina todas dizendo: “Que Deus derrame seu poder sobre sua cabeça, afaste os maus pensamentos, pegue seus problemas”.

A mãe de santo Elisabete Aquino, 75, que também é rezadeira, igualmente mudou o final das suas rezas. Chama pelo orixá que rege o dia e pede que dê paz e sossego a quem a procura, na San Martin. No seu ritual importa o horário, sempre pela manhã, mas não a folha. “Qualquer uma que apanhar serve, o que vale é a palavra de Deus e a inteligência no axé”.

Clientela fiel

Às vezes, é só o caso de se estar procurando no lugar errado. Se em Salvador a busca pelas rezadeiras é árdua, no interior as há de fartura. Em algumas cidades do sertão da Bahia, são mais fáceis de achar do que doutores. Em Ribeira do Pombal, Maria Nilza Pereira, 74, tem uma clientela diária de dar inveja a muito jaleco branco por aí.

Numa manhã de outubro, assistimos à benzedeira atender 17 pessoas num período de duas horas. A média, diz, é de 35 a 40 por dia. Com um terço numa mão e três folhas de oiti na outra, oferece conforto a quem busca cura para males como vermelha, vento, quebranto, espinhela-caída, pereba, engasgo e mais um tanto de coisa. Para quem não é iniciado na crença, vale a tradução na sequência: erisipela; congestão (AVC); desânimo; dor no estômago, nas costas, nas pernas, mal-estar; e ferida. Engasgo é engasgo mesmo.

O atendimento não carece de formalidade. É só chegar ao puxadinho que construiu ao lado de casa e gritar por socorro.

– Dona Nilza, tô com uma dor de cabeça danada, uma moleza no corpo, vim aqui pra senhora me rezar.

– Senta aí, minha fia, que lhe chamo quando acabar esse – diz, sem parar de benzer o doente da vez.

Com as três folhas, repete exaustivamente o sinal da cruz sobre a cabeça do cidadão concentrado na sua fé. Os dizeres da oração, assim como a resposta a quem a interrompeu, ela profere no mesmo tom de voz, para não quebrar o ritmo.

José Ronivon, 13, chegou até lá desenxabido. A mãe, Linete Dias, 36, desfiou um rosário de queixas à rezadeira. Dores nas pernas, mal-estar, cansaço. Veio direto do doutor, que receitou um remédio para verme e um monte de exames. A benzedeira atendeu ao pedido de socorro, mas avisou que talvez fosse preciso voltar duas ou três vezes, até que o menino ficasse bom.

Nilza não cobra pelo trabalho, mas aceita os agrados que vêm em forma de dinheiro (R$ 2, em média), alimento, corte de tecido, calçado. A mãe de Ronivon não tinha nada para lhe dar. “Fiquei devendo até o carro que me trouxe”. Nilza não pareceu ligar. “A vida tá difícil pra todo mundo”.

Entre uma reza e outra, ela conta que aprendeu o ofício ainda menina. “Foi uma médium [um espírito] que me ensinou”. A mãe ainda lutou para tirar aquilo dela. “Ela achou que era coisa de candomblé, teve vergonha de mim. Mas Deus foi mais forte e me deixou cumprir minha missão”.

Sua mentora espiritual não enxerga, “tem dois buracos no lugar dos olhos”, e um dia vaticinou: “Você pode até se casar, mas não viverá com seu marido”. Foi trocada por outra logo no começo do casamento. A pior das profecias viria se confirmar quando fez 29 anos. “Ela disse que eu também ia ficar cega”.

Mas  Nilza não veio ao mundo para se maldizer da sorte. “Pra mim, isso que me aconteceu é normal, foi Deus quem me deu”.  Como santo de casa não faz milagre, ela vai administrando sua saúde frágil com remédio de farmácia mesmo.

Dona Nilza não foi a primeira rezadeira a quem Linete, mãe de Ronivon, recorreu. Na Tapera, povoado onde mora,  levou o menino para ser rezado por Sebastião Rocha Dantas, 74, mais conhecido como Sebasto. Produtor rural, ele diz que as rezas que sabe aprendeu dormindo. “Um dia, fui dormir, sonhei que estava rezando e acordei com elas todas na cabeça”.

A distância

Na casa onde vive com a mulher, ele costuma receber a vizinhança em busca de alento para doenças como dor de dente, sangue-talhado, ferida e olhado, ora para eles próprios, ora para seus animais. “Rezo muito em animal engasgado, com bicheira… Fica tudo bom, só morre se for castigo”. A depender do caso, benze a distância mesmo, principalmente gado. “A pessoa me dá a direção, me concentro e faço a oração. Sempre dá certo”.

Uma vez, Sebasto tentou ensinar as rezas à mulher, mas não deu muito certo. “Ela tem a memória fraca, não grava nada”. Depois disso, achou melhor guardar todas para si. “A pessoa que recebeu esse dom, essa sabedoria de Deus, não pode espalhar. Só Ele pode escolher os merecedores”.

Privilegiado ele não se acha. “Pra mim, é um prazer ajudar as pessoas”. Para as rezas de cura, ele não cobra, mas pede uma pequena comissão para a oração que traz dinheiro ou o objeto furtado de volta. “Se for dinheiro e a pessoa que roubou já tiver gastado, não volta. Mas se não gastou, com três dias chega”.

Quer dizer, chegava. É que essa “força” enfraqueceu um pouco nos últimos anos, depois que uma pessoa sem fé não acreditou ter sido ele a resolver o problema e não pagou o combinado. “Sem o dinheiro, não pude comprar as velas para o trabalho, então fiquei devendo ao santo. Aí a força foi diminuindo, diminuindo…”.

Foi por medo de enfraquecer a reza que a mãe de Carmita dos Santos, 68, não passou seus ensinamentos para os de casa. Mas ela e a irmã, esmiuçadeiras que eram, acabaram aprendendo. “Cada uma sabe duas ou três”. Carmita é especialista na reza para curar a vermelha. Para isso, usa uma faca e uma cebola (vermelha, claro) cortada ao meio. Com a  mão direita, faz movimentos em cruz entre o membro doente e a cebola cortada. Depois da reza, a faca deve ficar sem uso até o dia seguinte. Já a cebola, melhor se livrar dela.

Católica praticante e viúva há oito anos, Carmita mora em frente ao posto de saúde. Vez por outra, os doentes que vão lá se consultar com os médicos batem depois na sua porta. “Às vezes, me chamam até no hospital pra eu ir rezar. Dizem que tenho as mãos santas”. Ela até quis passar as rezas para os filhos, mas eles não se interessaram muito em aprender. “O povo de hoje tem pouca fé”.

De outro tempo, Júlia de Bizarro, 80, era pequena quando começou a benzer os vizinhos no povoado de Paiaiá, distrito de Nova Soure. Um dia, sonhou com a reza para olhado, quebranto e vento e já acordou rezando.  A primeira a receber a bênção foi uma menina que nem ela. “A criança tinha chegado do hospital desenganada e, depois que eu rezei, ficou boa”.

Sua fama “correu o mundo”. Vivendo sozinha, Maria Júlia de Santana, seu nome de batismo, diz que em agradecimento pela reza o povo lhe dá muito presente. “Os de fora, os daqui não dão, não”, ri.

Quando o pai era vivo, ela só rezava com folhas de pinhão-roxo, mas hoje segue o que sua natureza manda. É ela quem pede um cigarrinho de fumo-de-rolo, que enrola pacientemente enquanto conversa. Também é a natureza que lhe pede para tirar a touca para posar para as fotos. Não que seja vaidosa. “Eu gosto das coisas certas”.

 

Extraído da Revista Muito, suplemento do Jornal A Tarde / Salvador – BA
http://atarde.uol.com.br/muito/noticias/1726925-maos-santas

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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