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Marco Aurélio Luz fala sobre samba na Bahia e no Rio

Gabriel Serravalle | Sáb, 28/05/2016 às 08:19  
Adilton Venegeroles l Ag. A TARDE Marco Aurélio Luz, filósofo, cientista social e doutor em comunicação
Adilton Venegeroles l Ag. A TARDE
Marco Aurélio Luz, filósofo, cientista social e doutor em comunicação
A gema carioca é afro-baiana. Este é o tema da palestra gratuita que será apresentada pelo filósofo e cientista social Marco Aurélio Luz, no próximo dia 2 de junho, às 20 horas, no Teatro Isba. Especialista em cultura afro, e autor de livros como Cultura Negra em Tempos Pós Modernos e Do Tronco ao Opá Exin, o pesquisador participa do evento com a proposta de mostrar a influência da Bahia na fundação das escolas de samba do Rio de Janeiro. Antes de tratar do assunto na palestra, Marco Aurélio conversou com A TARDE e deu uma dimensão da interferência afro-baiana no carnaval carioca e na própria história do samba. Sobre a palestra, o que o senhor pretende abordar com o tema A gema carioca é afro-baiana? Eu vou mostrar uma continuidade da civilização africana, a reposição de linguagens, valores e instituições no Brasil e nas Américas, mas principalmente na Bahia. No fim do século 19 e início do 20 há uma imigração baiana muito forte no Rio de Janeiro, em que vão pessoas que fundam casas de religião nagô no local. Aí se desdobram atividades culturais no âmbito da música, da dança e dos desfiles de cortejo. Esses desfiles vão formar o que se chamou de "pequena África". E o núcleo desse processo é a casa da baiana Tia Ciata. Então tudo isso vai se estender nos ranchos, que o pernambucano criado na Bahia, Hilário Jovino, leva para o Carnaval. Foi ali que ele levou os elementos que iriam se constituir na linguagem das escolas de samba, com mestre-sala, porta-bandeira, coreografias, tudo isso. Então a influência da Bahia nas escolas de samba vai muito além da ala das baianas. Sim, vai muito além. A ala das baianas, inclusive, é um reconhecimento delas como parte importante na origem das escolas de samba, principalmente a Tia Ciata. Mas há também a influência nas outras alas, nas coreografias e, principalmente, no mestre-sala e porta-bandeira. Neste ano, a Mangueira foi a campeã do Carnaval carioca com o enredo Maria Bethânia: a Menina dos Olhos de Oyá. E é muito recorrente a presença da Bahia ou baianos como tema em outras escolas também. É uma prova de que essa influência continua até hoje? É uma influência da parte afro-baiana. É um reconhecimento. [O carnavalesco] Joãosinho Trinta já fez, por exemplo, o enredo A criação do mundo nagô. E, assim, ele ganhou o Carnaval. E várias outras escolas já fizeram referência à Bahia, com o uso de simbologias que remetem aos valores da tradição afro-baiana. Isso é uma deferência à origem das escolas, que é essa característica de africanidade que se localiza na Bahia e se desdobra mundo afora. E se a Bahia exerceu tanta influência sobre as escolas de samba cariocas, por que aqui não houve um desenvolvimento delas, com a mesma estrutura e importância que têm no Rio de Janeiro? Aqui, por razões político-sociais, houve um recuo dessas manifestações afro-baianas no Carnaval. Desde o início, sempre foi uma coisa difícil. Desde a presença dos primeiros blocos que surgiram, como os afoxés, cria-se uma certa rejeição por parte do poder público e de outras instituições oficiais. Apesar disso, continuaram fazendo, até que se disfarçaram de bloco de índio, como Comanches e Apaches, e depois ganharam um fôlego mais recentemente. E então vieram, em 1974, como uma resposta no sentido de enfrentar a repressão política e social, com os blocos afros. Mas o Carnaval cresceu com os trios elétricos tomando os espaços e as escolas de samba que aqui existiam não podiam competir com a dimensão eletrônica que a festa ganhou. Agora é que estão mais ou menos tentando dividir os espaços. E como é o cenário, hoje, das escolas de samba na Bahia? Hoje são remanescentes das escolas de samba, principalmente da Diplomatas de Amaralina, que se localizava no Nordeste de Amaralina. E esses remanescentes tentam se reunir, conversar, fazer acontecimentos que relembrem as escolas. Mas, hoje em dia, uma escola de samba é uma verdadeira empresa, como no Rio de Janeiro e São Paulo. E não há condições nem recursos para fazer aqui uma escola nos padrões atuais. Falando das origens do samba, há quem transforme isso em uma disputa entre Bahia e Rio, com cada lado defendendo-se como o local onde nasceu o gênero musical. Mas dá para cravar o nascimento do samba em um desses lugares ou eles na verdade se complementam? Esse samba mais urbano, que você vê surgindo [no fim do séc. 19] nas cidades do Recôncavo, o samba de roda, é de certa forma o samba original. É claro que tinha outras formas espalhadas pelo Brasil, mas ainda sem chamar de samba. E aí esse samba de roda, mais tarde, vai se adaptar às rodas de samba, no Rio. Então ele tem a origem primeiro aqui na Bahia, mas o desdobramento dele nas rodas de samba é uma característica carioca das escolas de samba. Em 2016 está sendo celebrado o centenário do samba, que toma como ponto de partida o início do século 20, quando  se consolidou como gênero musical, no Rio de Janeiro. Então  estariam   desconsiderando as origens do samba, no fim do século 19, na Bahia? Com certeza. Porque aí já entra na parte oficial, corre dinheiro, propagandas, é outro universo. Mas eles fazem o que querem. O centenário seria quando? A Tia Ciata saiu daqui, no fim do século 19, já levando o samba de roda e suas variações, e tem todo um valor por trás disso que não está sendo considerado.     Extraído do site do Jornal A Tarde / Salvador – BA http://atarde.uol.com.br/cultura/noticias/1774142-marco-aurelio-luz-fala-sobre-samba-na-bahia-e-no-rio

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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