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Matriz africana: Candomblé – religião de resistência

 

Mais do que o culto dos orixás, ele reúne um legado de preservação cultural e uma história de luta e resistência

 

por Pai Rodney — publicado 11/08/2017 07h00, última modificação 10/08/2017 20h31

Wikimedia
O candomblé permitiu aos negros reconstituir os laços familiares

A história do Brasil é profundamente marcada pelos séculos de escravidão. Apesar de lançado à mais triste condição a que um ser humano pode ser submetido, o contingente negro viu na fé em seus ancestrais uma possibilidade de refazer os laços, manter e recriar tradições e reconstituir, mesmo em termos simbólicos, as famílias, que, como parte da estratégia do sistema escravagista, foram completamente esfaceladas.

Devolver ao negro essa noção de família foi a primeira função do candomblé, pois no espaço dos terreiros a identidade familiar foi recuperada, tendo nas mães e pais de santo suas figuras centrais. Assim como os quilombos, os terreiros foram espaços de resistência e luta.

Para preservar seu patrimônio cultural, foi preciso sobreviver e resistir a toda sorte de perseguição. As reminiscências africanas, seus rituais, cultos e divindades, apesar das diferenças étnicas, foram reunidas e organizadas numa religião: o candomblé, que surgiu oficialmente na Bahia nas primeiras décadas do século XIX com a chegada dos negros de origem nagô. Antes disso, a religiosidade afro-brasileira estava presente em diversas regiões, mas com muita repressão e pouca visibilidade.

Sob a égide de confrarias e irmandades de negros “católicos”, protegidos pelo sincretismo com os santos da igreja, os primeiros terreiros foram aparecendo e se firmando. Na Igreja da Barroquinha, em Salvador, nasceu o Ilê Axé Airá Intilé, provavelmente no início dos anos 1800, do qual se originou o Ilê Iyá Nassô Oká, primeiro terreiro oficialmente registrado no Brasil.

Desse importante terreiro saíram outras duas grandes casas: o Gantois, da célebre Mãe Menininha, e o Opô Afonjá, de Mãe Aninha e Mãe Senhora. O terreiro do Alaketu, de Mãe Olga, e a Casa de Oxumarê, de Mãe Cotinha de Ewá, também são casas centenárias e fundamentais na história de resistência e luta do candomblé.

Nesses terreiros, as famílias de santo criaram uma rede de proteção essencial para a preservação dos valores e tradições, costumes e fé desses povos, além de possibilitar a reconstrução de identidades e a manutenção da cultura, filosofia e visão de mundo africana, sem as quais o negro não teria sobrevivido à escravidão.

As religiões de matrizes africanas, em geral, e o candomblé, em particular, nunca viveram dias de paz e tranquilidade. Durante e depois da escravidão, a perseguição, tanto da sociedade quanto do Estado, foi implacável. Sobretudo nas primeiras décadas do século XX, com o claro projeto de exclusão da população negra, todos os traços culturais africanos foram duramente reprimidos, entre eles a capoeira, o samba e o candomblé, que sempre estiveram profundamente imbricados.

Os fatos romanceados por Jorge Amado em “Tenda dos Milagres” foram realmente vividos por negros e negras não só na Bahia, mas em todas as regiões do País. Terreiros invadidos e saqueados, sacerdotes presos e torturados, objetos de culto apreendidos e destruídos. Anos e anos de luta até que o Estado assumisse a laicidade e implementasse em sua Carta Magna a liberdade religiosa. Na prática, a perseguição continuou e até os últimos anos da década de 1970 os terreiros da Bahia necessitavam de autorização da Delegacia de Jogos e Costumes para realizar seus rituais, correndo o risco de ser interrompidos pela polícia a qualquer momento.

As décadas de 1960 e 1970 marcam a expansão do candomblé baiano para estados do Sul e Sudeste, sobretudo São Paulo e Rio de Janeiro. Nessa época, o famoso pai de santo Joãozinho da Gomeia implantava seu terreiro na Baixada Fluminense, onde atendia gente importante da sociedade carioca, incluídos artistas e políticos. Mãe Menininha era aclamada nos versos de Dorival Caymmi e nas vozes de Maria Bethânia e Gal Costa. Sua fama corria o mundo e o mundo queria conhecer o Gantois. Mas a perseguição continuava.

A igreja católica se abria para o diálogo com as religiões afro-brasileiras. Contudo, o advento das igrejas evangélicas neopentecostais renovava a ideia de demonização dos orixás e das entidades da umbanda. Com a força da mídia, a perseguição ganha novos componentes. Jornais, revistas, livros, programas de televisão escolhem como alvo o candomblé e iniciam uma campanha de intolerância tão ou mais perigosa que a própria perseguição policial dos anos 1920.

Mesmo as garantias da Constituição de 1988 não foram suficientes para barrar ataques de toda ordem, alguns bem graves. Um deles levou à morte Mãe Gilda, uma sacerdotisa de Salvador, e em sua homenagem, 21 de janeiro foi instituído como o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa.

A trajetória do negro no Brasil sempre foi de luta. Resistência, preservação e sobrevivência são conceitos indissociáveis na obra religiosa de matriz africana. Os terreiros devolveram ao negro a noção de família, possibilitaram a reconstrução de identidades e a manutenção de sua cultura.

O terreiro, o quilombo, a roda de capoeira e a escola de samba são, acima de tudo, estratégias de resistência. Lembremos os versos de Luiz Melodia: “Cantando samba a noite inteira, eu sou mais forte, eu sou mais gente, eu sou um rei”.

 A cultura negra, da qual o candomblé e o samba são expressões máximas, tem sido nossa arma para lutar e sobreviver. Se a escravidão nos arrancou a realeza, o orixá nos devolveu.

 

 

Extraído do Caderno Diálogos da Fé da Revista Carta Capital / São Paulo – SP
https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/candomble-religiao-de-resistencia

 

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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