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Mercedes Baptista, divina tú és…


Yaskara Manzini | 24/08/2014 12h00

 

Salve comunidade do samba.

Tristemente perdemos nesta semana uma das artistas mais importantes para o desenvolvimento da dança e do Carnaval brasileiro: Mercedes Baptista (1921 – 2014).

xy2Sua determinação em dançar, foi exemplo para muitos bailarinos e repercutiu e repercute até hoje em várias gerações da dança no eixo Rio-São Paulo, pois Baptista foi a primeira bailarina negra do Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

O caminho para chegar à elite da dança carioca, não foi fácil, foi boicotada e vítima de preconceitos até conquistar seu espaço.

Mercedes pertenceu ao TEN, Teatro Experimental do Negro, dirigido por Abdias do Nascimento, onde coreografou e preparou bailarinos e teve contato com o movimento negro da época. Estudou nos E.U.A. (através de uma bolsa de estudos) com Katherine Dunham, uma das precursoras da dança afro-americana.

Foi no retorno ao Brasil, em 1953, que Mercedes fundou sua escola e grupo de danças: Ballet Folclórico Mercedes Baptista. A Cia participou de vários eventos no Brasil e Europa com seu repertório dentre os quais podemos citar as coreografias Senzala, África, Carnaval, Candomblés.

Também, foi nesse período que Mercedes esteve próxima da Goméía, de Joãozinho, sacerdote da tradição dos Orixas, observando, estudando e dançando a “base” o “fundamento” da dança afro-brasileira.

Foi Mercedes Baptista quem trouxe o Minueto no Carnaval campeão do Salgueiro, em 1963, Chica da Silva, sendo a primeira coreografa do que hoje chamamos de “Ala Coreografada”.

minueto2_ffffSeu trabalho como professora e coreógrafa de uma estética afro-brasileira foi reconhecido internacionalmente tendo sido convidada a lecionar no Dance Theatre do Harlem, em Nova Iorque, coube a ela também a criação do curso de dança Afro-brasileira na Escola de Dança do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, hoje, Escola Maria Olenewa, por onde aposentou-se.

Seguramente podemos afirmar que Mercedes Baptista é a Mãe da Dança Afro-Brasileira.

Por suas mãos passaram Walter Ribeiro, Gilberto de Assis, Rita Rios, Dika Lima, Isaura de Assis, Marilene Silva, grandes mestres da dança afro-brasileira cuja atuação vai do trabalho desenvolvido para espetáculos até a docência nas comunidades, dando continuidade ao legado de Mercedes.

Diferente de muitos artistas brasileiros, Baptista teve o reconhecimento de seu trabalho ainda em vida: o documentário de Marianna Monteiro e Lilian Solá Santiago “Balé de Pé no Chão” (2006) e o livro de Paulo Melgaço, “Mercedes Baptista: a criação da identidade negra na dança” (2007) tratam de sua vida e obra.

Também foi homenageada na Vila Isabel, no carnaval de 2009 com uma ala coreografada por Marcelo Sandryni e Roberta Nogueira que levou o seu nome. Sua vida tornou-se enredo: “De passo a passo, um passo”, defendido pelo G.R.E.S. Acadêmicos de Cubango, no carnaval de 2008.

Mulher guerreira, pioneira, enérgica, sensível Mercedes Baptista que morreu aos 93 anos após enfrentar problemas cardíacos no último dia 19, fez a diferença nesse mundo tão igual, fez história na dança, no movimento negro e no Carnaval.

Mercedes Baptista, divina tu és !!!
Tens os céus a teus pés !!!

 

 

Yaskara Manzini

bio_yaskara_blogBailarina e coreógrafa, licenciada em Artes Cênicas e especialista em Arte e Comunicação pela Faculdade Paulista de Artes. É mestre e doutora em Artes pela UNICAMP. Foca seu trabalho em performance e cena afro-brasileira traçando uma ponte entre a complexidade da estética religiosa da Tradição dos Orixás, os desfiles das escolas de samba e a dança cênica contemporânea. Desde 2001 dedica-se a coreografar Comissões de Frente, tendo recebido três Prêmios Gilberto Farias de Melhor Comissão de Frente (2009, 2010 e 2011).

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.

 

 

Extraído do Blog do Jornalista Sidney Rezende

http://www.sidneyrezende.com/noticia/235770+mercedes+baptista+divina+tu+es

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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