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Ministério Público vai investigar ‘Censo da fé’ na Guarda Municipal

Após polêmica, corporação recuou e admite preenchimento anônimo do formulário

 

POR RENAN RODRIGUES

10/08/2017 8:16 / atualizado 10/08/2017 8:26

O secretário municipal de Ordem Pública, Paulo Cesar Amendola – Custódio Coimbra – 29/12/2016 / Agência O Globo

RIO – O ministério Público do Rio vai investigar uma espécie de “censo religioso” da prefeitura, que está dando o que falar. A Guarda Municipal publicou, em seu boletim interno, no último dia 2, uma medida polêmica, convocando o efetivo a informar, por formulário, sua religião. Além de responder sobre a fé que professa, o servidor ainda deve fornecer seu nome e matrícula. Cerca de 7.500 agentes estão sendo chamados a responder o questionário.

A corporação alegou que tomou a iniciativa porque planeja construir uma capelania, um espaço ecumênico para prestar assistência religiosa, espiritual e social a guardas municipais. No questionário, os agentes são apresentados às seguintes opções religiosas: “católica”, “evangélica” e “espírita”. Há um espaço em que ele deve informar a unidade na qual está lotado.

De acordo com a Guarda Municipal, o censo tem como objetivo “aferir o perfil religioso” da instituição. Ao saber do caso, o deputado estadual Átila Nunes (PMDB) denunciou o caso ao MP e pediu a suspensão da pesquisa. Ele sugeriu a abertura de um procedimento administrativo e de um inquérito civil para apuração da suposta irregularidade.

A iniciativa da Guarda Municipal foi divulgada ontem pelo jornal “O Dia”. Agentes ouvidos pelo GLOBO manifestaram opiniões diferentes sobre a pesquisa.

— Sou católico, e isso é uma opção pessoal, não concordo com essa mistura de trabalho com religião. Assim como política e futebol, é um assunto que não deve ser tratado no ambiente da corporação — afirmou um guarda, que, por temer represálias, pediu para não ser identificado.

Um outro agente, que se declarou evangélico, rebateu a crítica e afirmou que não vê risco de perseguição religiosa:

‘Perguntar se a pessoa é católica, espírita, macumbeira ou o diabo que for não é crime. Não tem legislação que impeça isso’

– PAULO CESAR AMENDOLASecretário de Ordem Pública

— Não recebi ainda o formulário, mas não vejo problema em informar minha religião. Não acho que a Guarda Municipal vá prejudicar alguém por sua fé.

Em nota, a Guarda Municipal frisou que o preenchimento do censo é voluntário. Após a polêmica, o comando da corporação recuou e afirmou que, agora, não será mais preciso informar a identificação do servidor.

Questionário religioso feito com os guardas municipais para a criação de uma capelania – Reprodução

‘UMA DECISÃO ACERTADA’

O coronel Paulo Cesar Amendola, titular da Secretaria de Ordem Pública, à qual a Guarda Municipal está subordinada, disse que a iniciativa foi mal interpretada. Ele também afirmou que o censo religioso foi “uma decisão acertada” da inspetora Tatiana Mendes, comandante da corporação, que é evangélica.

— O assunto foi mal explorado por algumas pessoas, a começar por alguns guardas. Perguntar se a pessoa é católica, espírita, macumbeiro ou o diabo que for não é crime. Não tem legislação que impeça isso. Ela (a comandante da Guarda Municipal) precisa de uma visão de quantos (praticantes) têm em cada religião para dimensionar o espaço da capelania e criar uma norma, uma regra de utilização — justificou o secretário. — Nenhuma decisão institucional agrada a todos. Os guardas pediram a criação de uma capelania, um espaço que existe nas Forças Armadas e na polícia. É um lugar para permitir o encontro de guardas que professem alguma religião.

Tatiana Mendes disse que o objetivo da capelania é dar auxílio religioso a servidores que atravessam período de estresse. Ela observou que 12 guardas municipais morreram este ano “das mais variadas causas”:

— A instituição tem 23 anos. Eu vejo que a capelania é importante para que a gente possa dar, além do serviço social, um cunho espiritual. O guarda fica estressado, e, às vezes, sem equilíbrio. O censo é importante, mas ninguém é obrigado a fazer nada. Só preenche se quiser. É importante entender por que podemos ter ateus no meio. Por ter caráter ecumênico e inter-religioso, ela (a Guarda Municipal) também vai tratar o conforto espiritual — disse a comandante da corporação, acrescentando: — Eu respondi (o questionário). Sou evangélica, mas meu chefe de gabinete é católico e meu assessor, espírita. Sem problema nenhum. Ninguém tem que interferir na religião do outro. O respeito é o princípio de tudo.

Extraído do site do Jornal O Globo / Rio de Janeiro – RJ
https://oglobo.globo.com/rio/ministerio-publico-vai-investigar-censo-da-fe-na-guarda-municipal-21689523#ixzz4pWUrQfM1  

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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