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Morre em Salvador, aos 84 anos, a artista plástica Yêdamaria

Áfricas 29 de março de 2016 130 Views

Ela foi encontrada  morta neste domingo, 27  de março, no  apartamento onde vivia sozinha, no bairro da Pituba. A polícia considera como morte natural, já que o corpo não tinha marcas de violência e nada foi roubado

Agência Áfricas de Notícias – por Claudia Alexandre

“Eles discriminaram minha linha de trabalho e no final pagaram por ela. Minha Iemanjá ficou lá pra sempre”. Yêdamaria Correa de Oliveira (1932-2016), referindo-se à censura que sofreu na Illinois University na década de 70.

 

Yêdamaria Correa de Oliveira
Yêdamaria Correa de Oliveira

Em 2010, Yêdamaria foi uma das (os) muitas (os) artistas que tive o prazer de conhecer no ambiente do Museu Afro-Brasil, em São Paulo. Na época eu ocupava o cargo de Assessora de Comunicação.  Sua bela  história de vida  acabou se transformando em pauta para a terceira edição da Revista Afro B, um projeto especial do Programa Pontão de Cultura, editada pelo MAB, para a qual também tive a satisfação de colaborar.

Foi um presente entrevista-la. O título da matéria publicada na revista “A pintora Yêdamaria” não era o original, pois foi mudado pelo editor da época. Minha sugestão era justamente:  “Yêdamaria e a iemanjá reprimida”. Uma história que deveria ser contada nas salas de aula e reverenciada por nós brasileiros. Ela me fez sentir orgulho, me inspirou e,  por isso,  reproduzo aqui em forma de homenagem a matéria, com total liberdade de publicá-la com o título original, sem repressão (!):

Yêda Maria e a Iemanjá reprimida

A primeira mulher a receber uma bolsa de estudos para mestrado em Arte Estúdio, na Illinois State University (EUA), no programa para professores universitários da América Latina, foi a artista plástica Yêdamaria Correa de Oliveira. Foi em 1978 que a professora negra da UFBA – Universidade Federal da Bahia embarcou para um dos maiores desafios de sua carreira. Na bagagem levou nada menos do que prêmios como a melhor das Artes Gráficas do Festival de Ouro Preto (MG), de 1948; o prêmio do Salão dos Estudantes da Escola de Belas Artes de Salvador (1952);  e uma menção honrosa do Salão Baiano de Artes Plásticas (1956), entre outros.

Yeda barcosEra uma época de grande inspiração e o sucesso era reflexo de uma fase que os críticos, professores e muitos artistas renomados, como o amigo Jorge Amado não cansavam de elogiar. Nas telas de Yêda figuravam barcos, sereias e Iemanjás, muitas Iemanjás, em  cenas que foram consideradas como marcos de sua pintura inaugural. “O artista não faz nada sem sentimento. Era minha realidade. Adorava a temática, observava e ouvia muito os pescadores. Até hoje tenho uma ligação muito forte com os peixes e com o mar”, explicou.

Para ela, cursar mestrado em uma universidade nos Estados Unidos não foi nada diferente da luta que desde cedo teve que travar  para sobreviver. Nascida sob o signo de peixes, em 12 de março de 1932, na cidade de Salvador, disse que assim que veio ao mundo, foi considerada um bebê com morte aparente. “Minha mãe dizia que ninguém acreditava que eu fosse  vingar. Tinha problemas de pele, nos olhos, diziam que eu era horrível”.

Aos cinco anos sofreu a morte prematura do pai, Elias Félix de Oliveira, um comerciante que viajava pela Bahia para vender ouro. Tornou-se a única companhia da mãe, a professora primária Theonila da Silva Correa, que lecionava dia e noite, para manter a filha nos estudos. Em casa a ordem era estudar. Para cursar o ginásio foi morar em um pensionato na cidade, enquanto a mãe lecionava em uma escola em São Gonçalo dos Campos (Recôncavo Baiano). A escola foi reinaugurada mais tarde com o nome de dona Theonila.

Yeda iemanja e sereias“Meus avós há cem anos eram professores primários, formaram minha mãe, que falava muito bem francês e era muito caprichosa. Ela morreu com 90 anos e até o fim tivemos uma relação de muito amor, apesar dela ser a minha crítica número um”.

A artista lembra que na infância tudo estava ligado à beleza, à estética e ao requinte. “Em casa nossos copos eram de cristal, talheres de prata, a mobília do quarto de minha mãe era importada. Havia muito bom gosto em minha casa”, descreveu, justificando o tom que ela emprega nas obras, sempre com muitas cores, expressão intensa e perfeição nas formas. Uma característica que marca a produção desde os primeiros desenhos e pinturas. Em 1952, antes de mergulhar na pintura de barcos e sereias, ela chegou a se dedicar à natureza morta traçando frutas, maçãs e folhas.

Sempre atenta à sua formação ela revela que se divide até hoje entre suas maiores paixões, os estudos e a arte. Além de frequentar a Escola de Belas Artes da Bahia, também foi aluna da Escolinha de Artes do Brasil (RJ), onde conviveu com grandes nomes do seu tempo, como Henrique Oswald. Yêda atuou como professora do ensino médio, antes de assumir o cargo de professora da Universidade Federal da Bahia.

Iemanjá reprimida

Em 1972, a produção de Yêdamaria estava totalmente voltada para o feminino e para a religiosidade afro-brasileira, tão bem destacada nas suas iemanjás. A inspiração como ela bem disse, estava na sua ligação com o mar, das conversas com os pescadores e de suas crenças. Foi unindo a pintura às novas técnicas que ela criou a “Yemanjá com luz”, que trazia uma imagem de Martin Luther King no ventre; depois “Yemanjá todos iguais” e “O mundo de Yemanjá”.

Yeda mesa“Lembro que antes de viajar para os Estados Unidos, fiz uma exposição maravilhosa em um espaço no Rio Vermelho, em Salvador, somente com iemanjás, homenageando o 2 de fevereiro, quando acontece um dos festejos mais bonitos da cidade, com a famosa procissão de barcos. Tinham sereias de todas as formas e cores. Um dia os pescadores me procuraram e pediram para que eu fizesse o presente principal da festa. Não pensei duas vezes e fiz uma sereia em gesso, que ficou uma beleza”, lembrou a artista.

Às vésperas da viagem para cursar o mestrado no exterior, ela diz que ficou ainda mais ligada à temática. “Foi uma emoção, quando os pescadores foram buscar a escultura de madrugada. Bem cedo eu ouvi os fogos, anunciando o 2 de fevereiro. Fiquei ainda mais envolvida, com uma ligação ainda mais forte com iemanjá”, disse

Mas o presente que encantou os pescadores e marcava sua personalidade artística, naquele período, foi duramente criticado pelos professores da Universidade de Illinois.

Assim que chegou para o curso  foi chamada por um diretor. “Ele me disse que aquela temática era muito primitiva, que se eu não mudasse a minha linha de trabalho, não conseguiria fazer o mestrado. Praticamente impôs que eu mudasse a minha realidade”. Em terras estrangeiras e sozinha  pois seu companheiro (com quem viveu 30 anos), a filha adotiva e a mãe só se mudaram para lá anos depois, ela viveu momentos de angústia. “ Foi como se tirassem algo de mim. Aquela imposição foi terrível. Chorei muito sem ninguém ver. Não tive escolha, tive que cortar aquele elo e reprimir aquilo tudo”.

Yedamaria

Para não abandonar o sonho e se manter no curso, a saída foi se dedicar às colagens, técnica que desenvolveu enquanto trabalhava, para se sustentar,  em uma escola infantil, fazendo trabalhos de artes com as crianças. Foi então que passou a ensaiar uma nova fase com as “cabeças”. “Foi uma forma de me libertar da essência da minha antiga temática. No começo também fiz gravuras, mas as primeiras colagens ainda tinham os vestígios de Iemanjá. Por algum tempo fiz as cabeças. Eram rostos que se misturavam”.

Mas a maior surpresa ainda estava para acontecer. Em menos de um ano, Yêdamaria foi chamada novamente, para uma avaliação do trabalho que estava desenvolvendo e teve que mostrar algumas colagens, entre elas estava uma cabeça, onde duas caudas de sereia saiam para o alto, formando uma espécie de capacete. Para ela, mais uma representação de Iemanjá. Mas nenhum dos avaliadores percebeu. A obra chamou tanta atenção que, inexplicavelmente, foi uma das duas escolhidas e compradas para fazer parte do acervo da instituição.

“Foi a grande prova de minha força espiritual. Tenho uma amiga que se diverte com essa história e diz que eu coloquei a Iemanjá na cabeça deles. Foi uma das maiores emoções da minha vida. Eles discriminaram minha linha de trabalho e no final pagaram por ela. Minha Iemanjá ficou lá pra sempre”, orgulhou-se.

Nos anos que se seguiram, até 1982, quando retornou ao Brasil, ela passou a desenhar e pintar lanches americanos do cardápio tradicional americano, com riqueza de detalhes. “Eu e o meu companheiro cozinhávamos bastante. Nós vivíamos na cozinha. Comecei a me inspirar naquele ambiente”. Ao retornar à terra natal, a inspiração gastronômica abriu espaço para os elementos tropicais, com mesas fartas, frutas e peixes. “Aqui me livrei das colagens, das cabeças. Estava de volta à minha casa e comecei a fazer as mesas, com coisas brasileiras, de vez em quando, emprestava algumas comidas do tabuleiro da baiana”, divertiu-se.

Ela fala com orgulhou do livro biográfico “Yêdamaria”, lançado em novembro de 2007, pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo e o Museu Afro Brasil, com direção de arte de Paulo Otávio Gonçalves e coordenação editorial de Cecília Scharlach. Além das principais obras, a publicação apresenta outras passagens marcantes da vida da artista. Hoje, morando sozinha na cidade de São Paulo, ela se empenha em dar perfeição às suas mesas bem postas, com requinte e fiel a etiqueta social. “De repente me vi de volta à minha casa, à minha infância na Bahia. Minhas mesas têm muita transparência de vidros de cristais. Lembro-me  de minha mãe e de como as coisas de bom gosto fazem parte da minha vida. Adoro tudo o que tem dentro de uma casa e isso está agora no meu trabalho”.

A inspiração para pintar barcos e sereias nunca mais voltou. “Não tenho rancor, foi um momento que eu tive que viver. Ainda tenho fé em Deus e no ser humano, apesar de tudo o que sofri. O meio influencia a gente. Eles secaram aquela minha fonte. Talvez se não tivesse viajado para os Estados Unidos ainda estaria pintando meus barcos, as sereias e minhas Iemanjás. Mas o que vale é que minha arte está lá, do meu jeito, para mostrar que uma baiana passou por lá. Ficarei  pra sempre em Illinois através daquela cabeça de Yemanjá”.

 

Fonte: release Portal Africas
http://www.portalafricas.com.br/v1/morre-em-salvador-aos-84-anos-a-artista-plastica-yedamaria/

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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