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Muniz Sodré: “A polícia está aí para prender pobre e preto”

Debora Rezende  | Sáb, 04/06/2016 às 08:16

 

 

Silvia Costanti l Valor l Divulgação Muniz Sodré é conhecido mundo afora por seu trabalho com filosofia e comunicação
Silvia Costanti l Valor l Divulgação
Muniz Sodré é conhecido mundo afora por seu trabalho com filosofia e comunicação

Aos 74 anos, Muniz Sodré ri fácil ao falar da sua paixão pela literatura policial americana. Lê em português, inglês, francês, italiano e por aí vai. Nascido na Bahia e morador do Rio de Janeiro desde a década de 1960, ele é conhecido mundo afora por seu trabalho com filosofia e comunicação. São mais de 30 livros publicados – entre eles, seis romances. Para Sodré, a diversão de escrever é cortar. Obá Xangô do Axé Opô Afonjá, orgulha-se da sua religiosidade. Fã de jazz e vinho, ele conversou com A TARDE sobre seu novo livro, Bagulho – Novela Policial, em que retorna com o personagem Timóteo Sete, um detetive intelectual, negro e bilíngue, e reflete sobre o sistema policial brasileiro e as questões que cercam as propostas de redução da maioridade penal.

Tanto física quanto intelectualmente, existem semelhanças entre você e Timóteo Sete. Há um quê de autobiográfico na obra?

O Timóteo fala inglês. Todo personagem é construído com um pedacinho de outros personagens e do próprio autor. Claro que não sou ele, aquele ali é um homem de 1m90, uma idealização. Me identifico como negro, embora ele seja mais negão do que eu. Tirei o personagem de uma reportagem do Jornal do Brasil de muitos anos atrás, no primeiro ou no segundo Rock in Rio. Tinha um segurança negro, que era alto, forte e falava um inglês perfeito. Ele foi entrevistado por causa disso. Contou que tinha estado nos Estados Unidos, e a repórter disse “com um inglês tão bom, você poderia ter outro emprego”. Ele respondeu: “O que você quer que um negro, que é um armário, faça aqui nesse País”? Achei a resposta boa. Evidentemente, aí tem uma parte minha.

Você apresenta um protagonista negro, musculoso, policial e intelectual. O tempo todo, ele foge do estereótipo. Quais as principais questões que quis levantar com ele?

Há o estereótipo porque acham que negro não é intelectual. Eu diria que a linha dele é da ironia, então desmistifica o estereótipo do negro como apenas trabalhador braçal. Tem também o negócio da língua, que as pessoas admiram, a poesia, o jazz. Quis mostrar um negro que se assume como negro, e não tem raiva nenhuma de branco – acho isso uma grande bobagem. Mas ele sabe que o racismo existe. Ao mesmo tempo, desconstrói os clichês de polícia como solução para alguma coisa. Ele trabalha ali por uma espécie de destino. Mas o personagem sabe que a polícia está aí para prender pobre e preto. Isso está dito no livro. É um trem que persegue quem anda na linha, em geral. Mas, mesmo assim, ele tem um sentido de justiça. E não é 100% honesto como um detetive americano.

O livro esbarra em muitas tensões, como a religiosidade, ao estabelecer uma relação com o candomblé. Por que a escolha desse tema?

Eu sou de candomblé. Sou Obá Xangô do Axé Opô Afonjá, para mim é meu título mais importante. Ser obá xangô da Mãe Stella. Respeito todas as crenças, mas para mim é o culto mais moderno, porque respeita a crença dos outros. O candomblé acolhe tudo. Se quiser ter todas as crenças e bater cabeça no candomblé, ele aceita. Isso é modernidade. É um culto pós-moderno. O personagem, a crença e o culto que vêm do avô dele, é tudo nessa força dos descendentes africanos. É uma coisa que nenhum fundamentalismo evangélico brasileiro vai matar, porque os orixás não deixam. Então, para mim, um terreiro de candomblé é como se fosse a ágora negra. Isso sempre homenageio em meus livros.

Em Bagulho, você mostra a polícia como uma instituição que se rende ao poder e dinheiro. O que quis destacar?

A polícia nacional sempre foi construída para esmagar pobre e preto. E preservar os interesses e defender as classes dirigentes. Isso não mudou, até hoje é assim. O sistema penal é da mesma forma. Pela primeira vez na vida, tem instituições que estão prendendo empresários, políticos. Isso é inédito. A polícia federal está fazendo isso. As outras polícias, a do Rio, a PM, são comprometidas com a opressão popular. Mas você não pode prescindir de proteção policial ou isso vira de novo um faroeste. Portanto, ao mesmo tempo, reconhecendo a necessidade institucional de que haja uma polícia, eu não posso deixar de mostrar e apontar que as bases dela são podres.

Bagulho, personagem que dá nome ao livro, se envolveu com a criminalidade desde criança. Qual é o papel da obra na discussão sobre a redução da maioridade penal?

Não acho que maioridade penal resolva nada. O problema é que o País tem uma classe média que abandona suas crianças na rua. Não tenho opinião realmente decidida. Acho que tem que haver proteção à infância, mas não essa proteção hipócrita de passar a mão na cabeça de achar que, porque é criança, não pode ser punido. Aqui, os crimes bárbaros às vezes são cometidos por chamados menores de idade – um galalau de 1m90, com uma faca ou uma pistola na mão, que atira mais fácil em você do que um adulto. Não considero isso criança. Esse conceito de infância é relativo. Acho que a questão da punição tem que ser revista. É preciso olhar com mais cuidado para a infância, e a solução não é policial, é educação e trabalho.

Enquanto um acadêmico da comunicação e da filosofia, qual é seu posicionamento frente ao atual cenário político do Brasil?

Eu sou de esquerda. Sou e fui contra o impeachment da Dilma. Acho que foi um golpe, não militar, mas para mim foi um golpe. Mas você me pergunta se acho que ela fez um bom governo? Não. Acho que foi um péssimo governo. Acho que o PT compactuou com a corrupção, ficou tempo demais no poder. Agora, ela não cometeu crime nenhum. Essa história de pedalada fiscal é parte do golpe. E colocaram um sujeito fraquíssimo. O meu desejo era que se tivessem novas eleições. Não acho que a Dilma efetivamente tenha sido boa presidente. Acho que o PT meteu os pés pelas mãos, roubaram demais. O PT conseguiu fazer uma coisa que os militares não conseguiram, que foi desmoralizar a esquerda. Sou contra o impeachment, mas depois de ponderar isso. Sou um homem de esquerda.

Em uma cena, são mostrados jornalistas como caçadores de tragédia. Para você, é uma reflexão sobre o modo como os jornais trabalham hoje?

O jornal é o pior nosso de cada dia. Gosta de catástrofe. É um pouco aquela mentalidade de ver um acidente e parar. Acho que é um jornalismo voltado mais para o negativo do social do que para a edificação. Talvez a internet venha mudar isso, à medida que supra curiosidades com pequenas informações e ao jornal caiba uma visão mais crítica, mais aprofundada do social. Eu vejo o jornal com um destino melhor do que esse.

 

 

Extraído do site do Jornal A Tarde / Salvador – BA
http://atarde.uol.com.br/cultura/literatura/noticias/1776056-muniz-sodre-a-policia-esta-ai-para-prender-pobre-e-preto

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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