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Na internet e em campanhas de grifes, crianças fazem sucesso com cabelo afro

‘Assumir o black power dá uma sensação de liberdade muito grande’, diz a mãe de uma delas

 

POR CAROLINA RIBEIRO

06/11/2016 4:30

Linha infantil. Ensaio feito para o Dia das Crianças pela grife Beleza Natural - Simone Marinho / Divulgação
Linha infantil. Ensaio feito para o Dia das Crianças pela grife Beleza Natural – Simone Marinho / Divulgação

 RIO – Elis Monteiro, de 5 anos, pega um pedaço de papel e um lápis e desenha uma menina, negra, com um cabelo crespo volumoso e com as laterais raspadas. De olho em cada traço, a mãe, Renata Morais, de 32, entende como um sinal.

— Quando ela começa a desenhar bonecas com penteados diferentes, percebo que está querendo mudar o cabelo. Já fiz de tudo: bantu (vários coques pequenos), afro puff (jeito de prender o cabelo em que a parte solta fica parecendo um pom-pom, no alto da cabeça), twist (duas mechas entrelaçadas que deixam os fios frisados), trança, moicano… Até pintar de verde, pintei. Cada semana ela usa um visual novo para ir à escola — conta Renata, que está “segurando a onda” da pequena para não recorrer à máquina zero. — Eu a incentivo a fazer o que quiser. Menos alisar. Mas raspar também estou resistindo um pouco.

O black power de Elis é do tipo arrasa quarteirão. Aonde ela vai, tem sempre alguém para elogiar. Seu cabelo, aliás, é tema de um vídeo que viralizou no YouTube, no ano passado. São mais de cem mil visualizações no canal e quatro milhões no Facebook. Na internet, Elis enche a boca para dizer: “Meu cabelo já nasceu assim, meu cabelo não é liso. E eu não uso peruca. Minha mãe só usa creme pra botar ele pro alto.” O discurso é reflexo de uma ladainha diária que Renata repete para a pequena, com a mesma mensagem. Ela, que já alisou as madeixas, hoje diz que não tem volta.

Atitude. Elis Monteiro é modelo de marca de acessórios criada por sua mãe - Divulgação
Atitude. Elis Monteiro é modelo de marca de acessórios criada por sua mãe – Divulgação

— Parei de alisar quando engravidei, em 2011. A transição foi tranquila, porque cortei bem curtinho e deixei crescer naturalmente. Acho que muitas mães passaram pelo mesmo processo. E hoje há uma tendência que seus filhos assumam o cabelo afro desde pequenos — acredita Renata.

O sucesso foi a deixa para Renata bolar, em 2012, uma marca de lenços, turbantes, presilhas e camisetas com apelo afro, a Lulu e Lili Acessórios. No embalo, três anos depois, veio a Crespinhos S.A. — uma “produtora de empoderamento preto”, explica Renata —, que faz vídeos e campanhas.

Celebridade das redes sociais, Carolina Monteiro, de 9, faz barulho no YouTube com vídeos com a mesma pegada. Tudo começou quando sua mãe, a mineira Patrícia Santos, ouviu da pequena, à época com 5, que queria ter o cabelo igual ao dela. Detalhe: suas madeixas eram alisadas. O jeito de driblar a situação foi abrir mão da química.

Florida. Carollina Monteiro faz sucesso com canal no YouTube - Divulgação
Florida. Carollina Monteiro faz sucesso com canal no YouTube – Divulgação

— Eu sou a maior referência para ela. Então, como ia conseguir ensiná-la a amar seu cabelo se eu não amava o meu? — indaga Patrícia.

Resolvida a novela, Carolina nunca mais tocou no assunto “alisamento”. A mãe também lembra o dia em que Carol chegou da escola contando que uma amiga, ao ver um desenho feito por ela de uma menina negra de cabelo afro, disse que a cabeleira da personagem era feia.

— Gostei da reação da minha filha. A resposta foi que seu cabelo era muito bonito. Eu não entendia nada de YouTube naquele momento. Mas tive vontade de gravar um vídeo com ela contando essa história — explica a mãe, que publicou o material no seu Facebook. — Muita gente compartilhou.

Não deu outra. Naquela hora, brotou a ideia de criar um canal. Hoje, o mural é recheado com mais de 30 vídeos, com 400 mil visualizações em média. Ao mesmo tempo, Patrícia, formada em Química, aproveitou para dar um gás na sua marca de produtos para cabelos crespos, a Minari Cosméticos.

Na onda dos “pequenos afro-empreendedores” , como definem as mães engajadas no meio, pinta por aqui a primeira edição da Marcha do Orgulho Crespo no Rio, no dia 27 — semana em que se lembra o aniversário de morte de Zumbi dos Palmares. A iniciativa é da produtora Renata Terra, de 30 anos. Adivinhem? Ela é mãe de uma “baby black power”. Aaliyah Sauthon, de 3, nunca cortou os cabelos. De tanto sucesso que o look faz nas ruas, foi convidada para estrelar um catálogo da Blue Man ao lado de outros pequenos, inclusive um menino — o que prova que este não é um assunto mulherzinha.

— Assumir o cabelo crespo dá uma sensação de liberdade muito grande — observa Renata, que “pranchou” o próprio cabelo até pouco tempo atrás. — Mas o mais importante não é só botar a mão na cabeça. É o aprendizado. Todos os dias eu falo para a Aaliyah que o cabelo dela é como se fosse uma coroa. Ela se olha no espelho e diz: “Mamãe, meu cabelo é lindo”.

Cabelos ao vento. Campanha da Blue Man investe em ‘modelos’ crianças, com cabelo afro - Blue Man / Divulgação
Cabelos ao vento. Campanha da Blue Man investe em ‘modelos’ crianças, com cabelo afro – Blue Man / Divulgação

Outra estratégia é improvisar um salão em casa com as amigas da escola.

— Fazemos sessões de hidratação juntas. Depois, ensino a pentear. Desembaraçar é a parte que as crianças mais odeiam — diz Renata.

Coordenadora técnica das cabeleireiras da rede especializada em cabelos encaracolados Beleza Natural, Lucia Santana propõe um ritual.

— É tortuoso desembaraçar o cabelo crespo. Então, é importante lavar, condicionar e hidratar duas vezes por semana. Não tem uma obrigatoriedade de ir ao salão. Se a mãe curte ir, é legal levar a criança junto. Mas se tem o costume de fazer em casa, funciona também. A diferença são os produtos usados — pondera Lucia, que puxa uma sardinha para o seu lado e sugere o uso da Ziquinha, linha infantil da Beleza Natural cuja produção da campanha mais recente é assinada por ela.

Aparar os cabelos de três em três meses é mais uma dica:

— Para ficar aquele black redondinho, recomendo fazer a manutenção a cada três meses. Neste caso, vale visitar um cabeleireiro especializado.

Extraído da versão digital do Jornal O Globo / Rio de Janeiro – RJ
http://oglobo.globo.com/ela/beleza/na-internet-em-campanhas-de-grifes-criancas-fazem-sucesso-com-cabelo-afro-20412518#ixzz4PIJt419d

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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