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NADA PARA COMEMORAR NO DIA NACIONAL DO TAMBOR DE CRIOULA DO MARANHÃO

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Há sete anos, no dia 18 de junho, negros afrodescendentes do Estado do Maranhão festejavam uma grande vitória frente a um Estado racista e preconceituoso. O Governo Federal, através do Conselho Consultivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN reconhece o Tambor de Crioula do Maranhão como Patrimônio Cultural Brasileiro. Uma festa, com a presença d então Ministro da Cultura Gilberto Gil. Foi um dia simbólico e muito significativo, a partir daí negros e negras, coreiros e coreiras, mantenedores de uma tradição ancestral vinda das senzalas são reconhecidos como sujeitos de direito de sua própria história. Como dizem alguns, saem da invisibilidade e discriminação imposta pelas mazelas da escravidão para o cenário nacional e internacional como protagonistas de uma forma de expressão da cultura popular de matriz africana que entre outras linguagens da cultura de origem negra deram um tom a identidade brasileira.

Seria uma grande festa se não fosse sufocada por uma política cultural estigmatizante que veladamente reafirma a exclusão étnico cultural de um povo, povo brasileiro.
Um pouco de história para esclarecer alguns fatos. Até 2000,o Governo Federal através do IPHAN só reconhecia como patrimônio cultural e dirigia uma política de preservação apenas para bens de natureza imaterial identidade nacional: edificações, praças, museus e outros bens arquitetônicos que preservam a história do país. Com a Constituição Federal de 1988 o Governo Brasileiro reconhece o valor cultural que não tem existência física como constitutivos do patrimônio cultural legado do processo de formação da rica diversidade brasileira: a música, a dança, as celebrações, os saberes e demais formas próprias de ser e viver do nosso povo. Assim com o Decreto n. 3.551/2000 Governo Federal instituiu o registro como uma forma de reconhecimento dos saberes, celebrações, formas de expressão e lugares de produção e reprodução desses bens que fazem parte do patrimônio cultural brasileiro, e como uma maneira de incentivar sua valorização e de estabelecer o compromisso do Estado em documentar, produzir conhecimento e apoiar sua continuidade.
O Decreto é bem claro, os entes federados tem compromisso em zelar pela continuidade, ou seja, são corresponsáveis pela preservação dos bens registrados. Isto é tem que implementar políticas públicas que protejam e promovam esses bens.
Com o registro, os bens culturais patrimônio brasileiro, como o Tambor de Crioula, passam a ter direito, garantido por lei, de proteção para continuar existindo. Isto que é a Salvaguarda de Bens Registrados política federal instituída. Para implantação da política em sua plenitude é obrigatório a formação de um comitê gestor que tem a função de acompanhar e monitorar as ações destinadas ao bem registrado.
Aqui no Maranhão o Comitê Gestor da Salvaguarda do Tambor de Crioula é composto por um colegiado de instituições públicas e da sociedade civil organizada além dos detentores (os que fazem o tambor de crioula), ou seja representantes dos coreiros e coreiras. Nesse conjunto está o IPHAN, a Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão e a Fundação Municipal de Cultura de São Luis – FUNC, bem como a Comissão Maranhense do Folclore e os representantes dos grupos de Tambor de Crioula.
Então porque após sete anos de registro não temos o que comemorar neste dia 18 de junho, Dia Nacional do Tambor de Crioula?
A resposta por ser observada na condução da organização dos grandes eventos do Estado e do Município: O Tambor de Crioula está INVISÍVEL.
Aí questões especulativas emergem: será por que é coisa de preto? Será por que coreiras não mostram pernas e brilhos em suas indumentárias? O tambor de crioula não é bonito para ser apresentado num Arraial.
Observando a programação da temporada Junina de 2014 do Arraial da Praça Maria Aragão causou estranheza o fato de num universo de trinta grupos de tambor de crioula “selecionados por edital” apenas quatro grupos foram “AGRACIADOS” com apresentação naquele espaço. Mesmo assim como atrações de abertura, num horário sem muito movimento de público. Se essa “VISÃO ADMINISTRATIVA” da FUNC obedecesse a lógica, num mínimo seria um grupo por dia, mesmo naqueles infames horários.
Ainda sobre esta programação “embranquecida” neste importante dia nem um tambor de crioula dançará no palco do “Terreiro de Maria” que contará entre as atrações durante a temporada HAVERÁ UMA NOITE DO BREGA. Lamentável para não dizer UM GRANDE INSULTO À CULTURA POPULAR MARANHENSE. Seria uma visão equivocada, preconceituosa e racista da COORDENAÇÃO DESSE EVENTO? Se bem que a história se repete, no ano passado, pela comemoração do Dia Municipal do Tambor, 06 de setembro, com requintes de amadorismo a programação dessa mesma gestão “JOGOU” grupos de tambor de crioula para praças escuras e vazias de São Luis sem som e segurança expondo ao perigo nossos mestres e mestras.
A mais eficiente estratégia de SAVAGUARDA é dar VISIBILIDADE ao bem registrado, e o espaço da Maria Aragão, área central da cidade, é um espaço PRIVILEGIADO. Lá não é o “MAIOR ARRAIAL DO BRASIL?”
Vimos ainda esse ano, pela manhã do dia 18 de junho, que a excelência amadora da FUNC, tentou repetir o sucesso de 2013 da “ALVORADA DOS TAMBORES” na Praça Deodoro. É bom que fique claro, que em 2013 o evento seguiu um planejamento conjunto com o Comitê Gestor da Salvaguarda do Tambor de Crioula, que CONHECE A POLÍTICA DA SALVAGUARDA DO TAMBOR DE CRIOULA, sua metodologia e estratégias.
Antes do Dia Nacional do Tambor, o Comitê Gestor da Salvaguarda do Tambor de Crioula, protocolou ofício na Fundação Municipal de Cultura de São Luis – FUNC solicitando um parecer sobre essa lógica perversa de discriminação e preconceito com os grupos de Tambor de Crioula sem resposta, que vem se repetindo quando do planejamento de seus eventos para cultura popular do Maranhão. Inclusive uma cópia foi entregue a PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO LUIS, para Sua Excelência Senhor EDIVALDO HOLANDA JUNIOR, que ao modelo da primeira ignorou a solicitação. Estamos num gestão municipal racista e intolerante? O problema é devido o Tambor de Crioula ser de Matriz Africana?
Isto posto, o Comitê Gestor da Salvaguarda do Tambor de Crioula do Maranhão apresenta seu REPÚDIO a forma como a política cultural do município de São Luis vem tratando os Grupos de Tambor de Crioula, e solicita uma revisão dessa programação e/ou uma retratação por imensurável ofensa a história e cultura de um povo.
Esse posicionamento se estende ao Governo do Estado do Maranhão, que há três anos executa o Projeto de Salvaguarda do Tambor de Crioula, através do seu órgão de promoção cultural a Secretaria de Estado da Cultura, que tem até outubro deste ano para realizar as ações definidas no referido projeto.
Que fique claro, o Comitê Gestor da Salvaguarda do Tambo participou do planejamento e realização da “PROGRAMAÇÃO DO DIA NACIONAL DO TAMBOR DE CRIOULA ORGANIZADO PELA FUNC e também NÃO É O RESPONSÁVEL PELOS RESULTADOS DO PROJETO DE SALVAGUARDA DO TAMBOR DE CRIOULA DE TOTAL RESPONSABILIDADE DA SECRETARIA DE ESTADO DA CULTURA DO MARANHÃO QUE AO ASSINAR CONVÊNIO FEDERAL COM O IPHAN É EXECUTORA DO PROJETO. A função do Comitê Gestor é de monitoramento e acompanhamento enquanto instância de controle social da gestão pública.
Sobre o Projeto de Salvaguarda da do Tambor de Crioula, o qual é de REPONSABILIDADE EXCLUSIVA DA SECMA, iremos nos manifestar em alguns dias para esclarecer as razões de um projeto que tem R$ 625 mil reais, recurso desde destinados desde 2010, com prazo de execução prorrogado por DUAS vezes (são 4 anos já) e não foi executado em sua plenitude. Será que, o legado cultural dos mestres e mestras, também está esbarrando no RACISMO INSTITUCIONAL da Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão?
Mas a resistência dos mestres e mestras merecem aplauso: Salve o Tambor de Crioula, Salve São Benedito, Salve o Maranhão.
Prof. Neto de Azile
Coordenador Geral do Comitê Gestor da Salvaguarda do Tambor de Crioula do Maranhão.

 

Visite Rede Afrobrasileira Sociocultural em: http://redeafrobrasileira.com.br/?xg_source=msg_mes_network

 

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About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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