Breaking News

Não à intolerância religiosa! O mito Pombagira como representação da mulher livre

Joice Berth
Urbanista e Ativista Feminista Negra

Quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

 

Sendo ou não adepto das religiões de matriz africana, todo brasileiro já comeu seu docinho de Cosme e Damião, já saudou Ogum sabe-se lá o porquê, já pulou sete ondas ou jogou flores brancas para Iemanjá no réveillon. Ou pelo menos já ouviu falar dessas tradições. Ainda que carreguem o racismo latente da nossa sociedade, a Umbanda e o Candomblé têm muitos adeptos de todas as etnias, frequentadores escancarados ou enrustidos e curiosos de todas as espécies.

Seja pela apropriação cultural que tenta branqueá-las, seja pela dinâmica e aparente democracia racial, essas religiões têm ganhado mais espaço. A princípio, dentro dos terreiros, todas as representações do ser humano são aceitas e tem seu espaço, e, ainda, há a beleza inegável dos cultos, envolvidos em mistérios até para quem atua diretamente nos bastidores dessas religiões que fazem parte do Brasil.

Candomblé, com sua forte herança africana, atualmente tem em seu culto uma bossa muito brasileira, que embora mantenha muito do seu lugar de origem na sua expressão ritualística, assimilou muito bem as nuances do povo brasileiro, dando o tom mais bonito da mistura de raças e de costumes.

A Umbanda, considerada genuinamente nacional, embora sejam facilmente encontradas expressões religiosas muito parecidas em outros lugares da América Latina, tem o melhor das três representações religiosas atreladas às raças de base da formação do nosso povo brasileiro, quais sejam: o catolicismo cultuado pelos portugueses e condutor forçado do sincretismo que se deu já no transporte do Candomblé para o Brasil, os orixás representantes da natureza cultuados pelos negros africanos e a pajelança cheia de atributos de cura e purificação espiritual trazidos pelo forte senso de ancestralidade dos índios.

Nessa mistura mora a riqueza e a beleza dessa religião. Se em solo físico a democracia racial não acontece, no mundo espiritual paralelo ela está presente pacificamente, pois as entidades da Umbanda bem como os exuberantes Orixás, tão solicitados pela fé que despertam nas pessoas através de seus passes calmos e acolhedores, não diferenciam as pessoas e rejeitam as normas sociais e rótulos segregacionistas que separam pessoas por valores morais duvidosos e parciais, mais condizentes com a cultura católica (autoritária e inflexível) que traz na sua raiz uma bipolaridade perigosa que estabelece o conceito de bem e mal de acordo com os padrões e crenças de seus sacerdotes e condutores espirituais.

Nas religiões de matriz africana, mesmo com a forte imposição dos valores católicos influenciando os cultos e as doutrinas, há uma naturalização da condição humana e uma liberdade de expressão do ser tal qual ele é. Nem a sexualidade, nem o potencial financeiro, nem os padrões de beleza são usados livremente para hierarquizar pessoas. Se observamos com critério, as lendas dos Orixás, embora sejam histórias e/ou alegorias que indicam um pouco da especificidade desse ou daquele ser espiritual, são entre outras coisas, uma maneira sutil de aproximar o divino, o sagrado, do humano comum pautado por reações erráticas, desejos vis, caprichos e atitudes genuinamente realistas misturadas ao potencial mágico dessas criaturas sagradas intimamente ligadas a natureza. Oxum, por exemplo, é o arquétipo da mulher sagaz e vaidosa; Oxóssi é o solitário e rebelde caçador; Ogum é combativo e violento quando contrariado; Iemanjá a mulher caprichosa e possessiva com os seus, etc.

Nem a sexualidade é deixada de fora. Enquanto algumas religiões atribuem ao ser humano o legado da sexualidade como um traço sujo, obscuro, as representações dos orixás, por exemplo, reafirmam a liberdade sexual. Faz parte da natureza desses seres encantados a livre expressão da sexualidade, seja pelos fins de procriação ou como troca amorosa ou satisfação física.Nesse contexto, isolamos a figura da Senhora Pombagira, uma das entidades mais populares e marginalizadas dos terreiros brasileiros.

Muitas confusões ideológicas e informações desencontradas permeiam os inúmeros terreiros espalhados pelo país. Esse é um problema que está inserido no seio da religião, tanto pelo desconhecimento da liturgia específica que explica com precisão e consenso sobre o ritual, quanto pelos estereótipos raciais preconceituosos que carregam.

No passado não tão distante, a repressão a terreiros de Umbanda e Candomblé eram violentas, muitas casas fecharam as portas por não suportar a invasão policial e os perigos de ataque de pessoas racistas e conservadoras. A perseguição policial diminuiu, mas a social ainda não. Muitos frequentadores, na ânsia racista de esconder que gostam de “bater tambor”, debocham e usam o escárnio para ofender e diminuir a importância dessas religiões. Atitude que faz parte da rejeição do Brasil às suas raízes africanas. Os meios de comunicação são um bom exemplo disso, sempre mostrando as representações religiosas de maneira estereotipada e debochada.

Se o racismo é tão forte que “afasta” ou esconde adeptos racistas, podemos dizer o que sobre o machismo?

Não por acaso, a ocorrência de mulheres à frente dos terreiros deixa brecha para o outro lado da repressão e da repulsa com que essas religiões são tratadas. As matriarcas africanas detinham todo o potencial magístico e ritualístico do Candomblé e ele era passado de mãe para filha na grande maioria dos casos. Com frequência reconhecemos o racismo dentro e fora dos terreiros, mas o machismo também está lá. Entram em cena as sensuais e indomáveis moças das encruzilhadas, como são conhecidas pelos frequentadores.

Em uma gira (reunião espiritual e ritualística realizada nos terreiros de Umbanda e Candomblé), quando essas mulheres chegam hipnotizam a todos os presentes. Quase sempre muito enfeitadas e luxuosas, exalam poder pessoal mesmo nas casas onde a roupagem dos médiuns (pessoas que incorporam entidades) é simples. Todos querem chegar perto, todos querem presentear, todos querem ouvir os ensinamentos.

Ao mesmo tempo, são temidas e carregam estigmas muito comuns aos utilizados pelo patriarcado para manter os privilégios da supremacia machista. Elas encerram em si o arquétipo da mulher livre e demonstram todo poder pessoal que é reprimido no cotidiano feminino. Podemos dizer, seguramente, que a Pombagira seria a representação real da mulher caso a supremacia branca não tivesse criado uma série de mecanismos preconceituosos e diminutivos que cerceiam da autonomia plena do ser feminino.

Os aconselhamentos são verdadeiras aulas de autovalorização, autopreservação, poder pessoal e independência. Elas em geral são procuradas para conselhos amorosos, mas esses conselhos são sábios e carregados de conceitos que contrapõem os preconceitos sociais do qual a mulher é alvo. Claro, a configuração técnica da religião deu e ainda dá margem para fraudes e manipulações por parte de pessoas com caráter deturpado, que se infiltram nesses meios com objetivos escusos, induzindo seus adeptos de moral falha a enganar pessoas de boa fé. A incorporação, fenômeno básico do modus operandi dessas religiões, embora com conceitos científicos estabelecidos, é um componente subjetivo, não sendo possível uma identificação imediata de falhas por parte dos frequentadores mais leigos. Ainda assim, existem casas e terreiros que trabalham na mais rigorosa seriedade.

Por essas características, o arquétipo da Pombagira se aproxima muito da atuação e dos conceitos da luta feminista. Ela nos ensina que amor se vive com intensidade mas também com a preservação da individualidade, e que devemos lutar muito pela autonomia que nos subtraíram para manter os privilégios da masculinidade. Nos ensina que a beleza e o poder independem da imagem e que o charme é uma arma poderosa que brota de dentro para fora. Elas são sempre hipnotizantes, mesmo quando seus médiuns não estão de acordo com os padrões estéticos que a sociedade tem como ideal. E elas são indomáveis, o que não significa que são vulgares como dizem, são sim sensuais numa manifestação oportuna do seu amor próprio. Essas caraterísticas estão presentes em todas as vertentes feministas, devidamente traduzido como empoderamento. A mulher que se descobre e vive de acordo com suas crenças pessoais, inclusive respeitando as escolhas de outras mulheres e deixando de lado a rivalidade incentivada pelo patriarcado, está exalando esse poder pessoal e apta a reescrever sua história. Leila Diniz fez isso, Elza Soares fez isso, Pagu e Lélia Gonzales fizeram isso.

Os africanos escravizados foram duramente reprimidos nas suas manifestações culturais e religiosa, lançando mão do artifício que conhecemos por sincretismo, que nada mais era do que a associação dos orixás africanos aos santos cultuados pela igreja católica, a fim de burlar parte da repressão aos cultos feitos nas senzalas. Mas, as religiões africanas não possuíam o mesmo conceito binário de que seria “Bem” ou “Mal”. Logo, as representações dos orixás apresentavam características humanas condenadas pela igreja católica. Isso deu origem a demonização de algumas entidades ou orixás, quanto mais humano mais próximo ao demônio católico. E a Pombagira, por ser livre, sensual, e muito diferente das representações femininas da igreja católica, desperta um temor e uma rejeição muito frequente:

“O patriarcado é um sistema de exclusão, que coloca as mulheres em nível de inferioridade em relação aos homens e as subordina ao espaço privado, a casa e a prole. “São múltiplos os planos de existência cotidiana em que se observa esta dominação” (SAFFIOTI, 1987, p. 47).

Logo, a projeção dessa lógica está em todos os espaços passíveis de ocupação feminina. O comportamento que desponta como sustentação dessa lógica é avesso ao das Senhoras Pombagiras. Essa característica arquetípica somou-se à demonização promovida pelo sincretismo que atribuiu aos orixás que não se encaixavam no perfil de “santidade” a alcunha de demônio (lembrando que nas religiões africanas o conceito de bom/mau é mutável e bem diferente do católico). Sendo a Senhora Pombagira uma correspondente feminina do temível orixá Exu, “herdou” dele esse traço.

E por que devemos esclarecer, ainda que de maneira genérica, esses conceitos? Porque estamos falando de intolerância religiosa e discutindo caminhos para que ela seja eliminada. Um deles é derrubar a lógica racista, que confina tudo que descende da cultura afro na marginalização e na vulgaridade. Outro é conhecer e entender, ainda que a crença não seja compartilhada por todos, uma vez que vivemos em um país que aspira ser laico.

Onde existir seriedade no trabalho espiritual com a Senhora Pombagira, haverá um trabalho de empoderamento psicológico insuperável. Não haverá “trabalhos” de amarração ou de separação de casais, como muito se propaga por aí. Para a entidade da esquerda espiritual, mulher boa é mulher que cultua seu poder e se basta, trata o amor como sentimento puro e transformador e não como moeda de troca socioeconômica.

Ainda que essas religiões não tenham a aderência da grande maioria da população merecem o respeito e liberdade de seu culto, limpo de componentes racistas e ataques preconceituosos. Da mesma maneira deve ser o feminismo estudado e compreendido como uma luta política e social por equidade, afastando os ataques de ódio recebido sistematicamente por pessoas que são contra a vivência da mulher com autonomia e liberdade de ação, longe do papel secundário a que estamos inseridas em todas as áreas estruturantes da sociedade.

E o conhecimento básico e compreensão desse que é dos mais controversos, repudiados e amados mitos das religiões africanas pode ser um bom começo.

Joice Berth é Arquiteta e Urbanista pela Universidade Nove de Julho e Pós graduada em Direito Urbanístico pela PUC-MG. Feminista Interseccional Negra e integrante do Coletivo Imprensa Feminista.

 

Quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

 

 

Extraido do blog Justificando, da Revista Carta Capital / São Paulo – SP
http://justificando.cartacapital.com.br/2016/02/04/nao-a-intolerancia-religiosa-o-mito-pombagira-como-representacao-da-mulher-livre/

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Ilé Asé Omin Oiyn, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Hoje, é editor do Jornal Awùre. Diretor Financeiro da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. Colabora com a assessoria de comunicação do PPLE - Partido Popular da Liberdade de Expressão Afro-Brasileira. É sócio diretor na agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras.

Related posts

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *