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NÃO SE PISA NA FÉ DE UM POVO


Anna Davies*

 

25612_1244692646115_875426_nA propósito da decisão do Juiz Eugenio Rosa de Araújo, da 17ª Vara Federal do Rio, negando ação de retirada de vídeos postados no YouTube, por pastores e igrejas evangélicas, ofensivos à religiosidade dos praticantes da Umbanda e Candomblé, além de provocar vasta polêmica, exposta em reportagem do jornal O Globo, de 17 de maio de 2014, revela preconceito e ignorância por parte do juiz em causa.

Segundo o despacho do juiz, negando o pleito da Associação Nacional de Mídia Afro (ANMA), candomblé e umbanda não são religiões, pois não possuem um livro orientador de sua fé, como os cristãos têm a Bíblia ou os muçulmanos o Alcorão.

Contrapondo-se à insólita e destrambelhada decisão judicial, o Procurador da República Jaime Mitropoulos, do Ministério Público Federal (MPF), recorreu da sentença equivocada, que só reforça os seculares preconceitos contra as religiões de matrizes africanas no Brasil.

É triste que excelentíssimo juiz não saiba, que o mundo hoje não aceita mais perseguições religiosas, mesmo as movidas por interesses políticos ou financeiros, como parece ser o caso de evangélicos pentecostais (sem a sabedoria do Espírito Santo), que perseguem umbandistas e candomblecistas. E, no Brasil, a liberdade religiosa e de culto são cláusula pétrea da nossa Constituição Federal. Mesmo assim, até traficantes, insuflados por pastores evangélicos intolerantes e ignorantes do que seja cidadania, ameaçam e proíbem o povo do santo, que mora em favelas, de exercer sua fé, tão legítima quanto a de qualquer denominação religiosa.

Conheço um caso verídico de uma filha de santo que foi alvejada nas costas com uma bíblia, por uma evangélica desvairada. Ela estava de branco, com pano na cabeça, pois tinha dado obrigação. A evangélica, aos gritos de larga o demônio em nome de Jesus, partiu para o ataque. Ao sentir o impacto do livro nas costas, a filha de santo se virou, pegou a bíblia e saiu andando. A evangélica correu atrás dela gritando, “devolve minha bíblia”. A filha de santo foi embora com a bíblia, mas antes encarou a agressora e disse com firmeza. “A bíblia agora é minha. Você a jogou nas minhas costas. Não precisa dela. Nós também lemos a bíblia”.

Outro caso exemplar, de lavagem cerebral, foi o de um jovem preto, pobre, evangélico que cumprimentava todo mundo com a saudação judaica “Shalom”. Um judeu perguntou por que ele agia daquele modo. “Porque meu mestre Jesus Cristo era judeu.” Respondeu o jovem preto, esquecido de suas raízes negras, de sua história e de si mesmo.

Embora a cultura religiosa africana tenha sido oral por séculos, hoje não o é mais. Os fundamentos e cosmogonia do candomblé e da umbanda estão escritos, relatados, pesquisados e documentados em milhares de livros, teses acadêmicas, jornais, revistas, filmes e fotos. E nada impede que, no futuro, tudo isso seja condensado em um único livro sagrado. Se é que me faço entender.     Dizer também que o candomblé e a umbanda são praticados só por negros, pobres e ignorantes, é faltar com a mais pura verdade. Incontáveis são os brancos, ricos e intelectuais que se posicionam nas fileiras destas religiões. Um leve exercício de memória nos faz lembrar de Jorge Amado, Vinícius de Moraes, Dorival Caymmi, Gilberto Gil, entre tantos notáveis, auto declarados candomblecistas. De fato, o que a imprensa noticia com frequência é o sequestro mental e emocional das populações pobres e sem instrução das periferias, para os cofres de igrejas pentecostais politicamente manipuladas.

Quanto as pesquisas que dizem comprovar a diminuição do número de praticantes das religiões de matrizes africanas, é muito difícil concordar que sejam expressões da verdade, visto que muitos candomblecistas e umbandistas também são católicos, budistas, maçons, judeus, mulçumanos, ateus, espíritas e até mesmo evangélicos. O candomblé e a umbanda não discriminam nada e nem ninguém que chega em busca de socorro e solução para seus problemas. Milagres do amor e da caridade, que incluem todos no humanismo de Deus.

Coisas que muita gente não sabe é que no candomblé e na umbanda dificilmente se vai encontrar crianças e velhos desamparados por suas famílias. Em asilos ou orfanatos. Não se incentiva o aborto. Pelo contrário. Homossexuais são igualmente respeitados. Haja vista o grande número de babalorixás gays, de alto prestígio nas comunidades de santo.  Criminosos que batem às portas de centros e terreiros são desestimulados de suas práticas e levados ao caminho do bem. Nunca usados como braços armados da fé. O candomblé é pacifista. Respeito, autoridade e hierarquia são moedas correntes nessas instituições. Produzem harmonia social. Verdadeiro amor à natureza, aos animais, aos seres humanos e aos espíritos desencarnados, são práticas do dia a dia nos terreiros. É a consciência de que não estamos sós e que o mundo espiritual é tão real quanto o material. Jamais se vai ver um pai ou mãe-de-santo incentivando intolerância com outras religiões, mesmo a dos evangélicos.

Segundo pesquisas, o candomblé é uma das mais antigas religiões. E não só isso. É toda uma cultura. Sempre em evolução. A umbanda, a única religião nascida no Brasil, surgiu da fusão das crenças indígenas, negras e católicas. É linda. Só caridade. Nosso país é profundamente religioso de uma maneira muito específica. Só aqui o espiritismo decodificado pelo francês Alan Kardec deitou raízes tão profundas que a todos influencia, nessa mistura de credos e crenças, como aconteceu no entrelaçamento de povos. E isso é maravilhoso. Não podemos deixar que essa graça divina seja estragada pelos fundamentalismos de qualquer origem. Até porque os orixás e os espíritos de luz são os guardiões do novo tempo que se avizinha no Brasil. Nada a temer. O bem sempre vence.

A infeliz alegação do Juiz Eugênio Rosa de Araújo, ao afirmar que os candomblecistas e umbandistas não possuem um Deus único, cai por terra, quando ele ficar sabendo que nessas religiões (religião é ligação com Deus) o nome do deus único é Olorum, assim como no judaísmo é Javé ou Jeová, no cristianismo é Deus, no hinduísmo é Krishina, e por aí vai.

Aliás, erros de interpretação têm levado muitos juízes a falhar em suas sentenças, no Brasil, ultimamente. Basta lembrar o juiz que não atendeu ao pedido de proteção feito pelo corajoso e sofrido menino Bernardo Uglione Boldrine (RGS), meses depois assassinado pelo próprio pai e madrasta. Julgar não é mole não. Há que se ter sabedoria. E a maior sabedoria é a humildade, conforme disse Jesus Cristo.

*Anna Davies é jornalista e escritora   

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Ilé Asé Omin Oiyn, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Hoje, é editor do Jornal Awùre. Diretor Financeiro da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. Colabora com a assessoria de comunicação do PPLE - Partido Popular da Liberdade de Expressão Afro-Brasileira. É sócio diretor na agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras.

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