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Natureza é altar para religiões de matriz afro-indígena

Equilíbrio surge da convivência harmoniosa entre todos os seres vivos, dos quais o homem é apenas uma pequena semente   Sun Jun 19 10:24:00 BRT 2016 - Priscilla Costa, da Folha de Pernambuco Do cajado, feito do tronco da jurema, o discípulo ganha forças. Nas plantas extraídas do pé de aroeira, busca-se a limpeza espiritual e a cura. A fumaça, que vem da queima das ervas, é a alma que viaja até os ancestrais. A natureza é o altar para muitas religiões de matriz afro-indígena, que encontram no meio ambiente a ligação com o divino. Não é à toa que a expressão em Yorùbá “Kò sí ewé, kò sí omi, kò sí òrìsà” quer dizer “Sem folha, sem água, não existe orixá”. Esse equilíbrio surge da convivência harmoniosa entre todos os seres vivos, dos quais o homem é apenas uma pequena semente. E o sagrado pode estar, sim, no mundo natural que nos cerca. Sacerdote da Jurema Sagrada e do candomblé Jeje-Nagô desde os tempos de criança, Alexandre L’omi L’odò carrega a sua entidade no sobrenome. “L’omi L’odò” significa “das águas dos rios”, em louvor a Oxum, seu orixá. “Só alcançamos o sagrado quando nos aproximamos da natureza, o que inclui pedra, água, folha, raiz, caule, frutos e o nosso próprio corpo. Somos a morada verdadeira da natureza”. A vida em torno do juremeiro ou catimbozeiro, explica L’omi L’odò, é como a própria árvore. “Somos o tronco, as folhas, os galhos, a flor. Que um dia vai tombar, mas voltará dando frutos e levando a cura”, diz. É na mata do Engenho Pitanga II, em Abreu e Lima, na RMR, onde a Jurema Sagrada, representada por uma árvore, é reverenciada.
Bruno Campos/Folha de Pernambuco Religiões são produtos de rearranjos culturais
Bruno Campos/Folha de Pernambuco
Religiões são produtos de rearranjos culturais
Os cânticos ganham ritmo com o barulho das sementes presentes dentro do maracá (chocalho). O fumo mestre, preparado com até 28 ervas, é a ponte de chegada às entidades que defendem o terreiro - índios, pajés, caciques. Um dos elementos mais sagrados durante um ritual é o momento de beber o vinho da Jurema Sagrada. Sua essência vem das entrecascas da raiz da árvore misturada a outras ervas. Antepassados As várias religiões que existem hoje no Brasil com origem nos antepassados afro-indígenas, como a própria Jurema Sagrada, Umbanda e o Candomblé, segundo o professor do Departamento de História da UFPE, Severino Vicente, são produtos de rearranjos culturais da época da escravidão colonial brasileira, na qual o sincretismo religioso existia como forma de resistência para que a população negra pudesse manter sua fé. “O sincretismo é uma característica de toda religião porque nenhuma surge do nada. Mas, neste caso específico, há uma cultura de resistência ao colonialismo”, afirma o estudioso. Existem orixás ligados às plantas de água: aquelas que têm as folhinhas mais verdinhas, mais gordinhas ou plantas que crescem dentro d’água e nas beiras dos rios. Por exemplo, aquele jasmim que nasce em charco e na beira das cachoeiras é oferecido a Oxum. Há espécies relacionadas ao inchaço, à amamentação e ao parto, que seriam plantas femininas ligadas a Iemanjá e Oxum. As que ardem e queimam são de Exu, que é o fogo. Xangô também é fogo e suas plantas são quentes. As plantas da terra, de grande porte, remetem a Oxosse, como a aroeira, o cajueiro e a mangueira. Porém, essa relação do homem com a natureza requer cuidados. É o que explica o Egbomi de Iemanjá, Marconi Bispo. “Tomar um banho, por exemplo, tem várias vertentes. Uma delas é purificar. Mas há outras implicações: banhar quem? purificar do quê? E por quê? Não há receita pronta. Todo pai e mãe de santo deveriam ter esse cuidado.” Segundo Bispo, antes de tudo é preciso saber qual orixá rege a pessoa para saber quais as ervas escolher para o banho.   Extraído do site do Jornal Folha de Pernambuco / Recife – PE http://www.folhape.com.br/cotidiano/2016/6/natureza-e-altar-para-religioes-de-matriz-afro-indigena-0400.html

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Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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