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Nelson Cadena: Santa Bárbara dos mercados

(ncadena2006@gmail.com)

02/12/2016 04:00:00

 

Durante mais de uma década, a baiana de acarajé Eulina Maria dos Santos chegou mais cedo do que de costume a seu ponto de venda, no 4 dezembro, com o objetivo de preparar o cenário para o cumprimento de uma promessa feita a Santa Bárbara. A devota de Iansã enfeitava, nesse dia, o seu tabuleiro com flores e frascos de perfume e acendia filetes de incenso. Cenário posto, ligava um primitivo aparelho de som que irradiava batucadas dos terreiros e durante todo o dia Eulina distribuía sorrisos e 2 mil acarajés e abarás em obséquio para centenas de pessoas que faziam fila entre as ruas Euclides da Cunha e Rio de São Pedro, na Graça.

Eulina cumpria assim a promessa feita, ainda no final da década de 60, após ouvir certa noite uma voz que lhe recomendava ter fé em Santa Bárbara e cumprir uma obrigação que, se assim feito, o seu irmão, já desenganado por cinco médicos, poderia se recuperar. A baiana teve fé e o seu irmão foi salvo. Eulina cumpria todos os anos, rigorosamente, o preceito assumido, apenas lamentava não acompanhar a procissão que, naquele tempo, saía do mercado da Baixa dos Sapateiros e ia até a Igreja da Ordem Terceira do Carmo, e nem comer o caruru de 40 mil quiabos, diligentemente preparado pelas mãos das mães de santo dona Carmélia e dona Toninha.

Dona Eulina tinha razão em celebrar o evento distribuindo um alimento à população, afinal a festa em homenagem à santa nasceu e se consolidou em torno dos mercados que abasteciam a cidade. Naquele tempo, os de São João e o de Santa Bárbara, ambos na Cidade Baixa, cumpriam esse papel. O de Santa Bárbara nasceu no Morgado do mesmo nome, onde existiu uma capela em homenagem ao orago, parcialmente destruída no incêndio do Hotel das Nações de 1876 e totalmente destruída em outro incêndio ocorrido no espaço. Foi nesse local que surgiu o mercado com o nome da santa, desativado já no primeiro decênio do século XX, diante da necessidade da urbanização da área para dar sequência às obras de ampliação do Porto.

Com a desativação do Mercado de Santa Bárbara, transferiu-se o espaço geográfico da festa para a Baixa dos Sapateiros e o Pelourinho. Um mercado construído na J. J Seabra no início do século, e que até então tinha como padroeira Nossa Senhora da Guia, passou a ser a referência simbólica do evento que, diferente das demais festas populares de Salvador, não era organizada por irmandades ou comissões de moradores. O mercado da Baixa dos Sapateiros passou a

se chamar de Santa Bárbara e tudo indica que foi ali que nasceu e se consolidou a prática do caruru em homenagem a Iansã. Mais tarde disseminada em outros espaços da cidade, como no antigo Mercado do Peixe, no Rio Vermelho, hoje Vila Caramuru.

No século XIX e até a década de 1930, a Festa de Santa Bárbara, pela sua característica ostensivamente popular, era a festa invisível da cidade. Os jornais apenas registravam o culto oficial celebrado pela Igreja Católica na igreja do Corpo Santo. Era um evento que reunia capoeiristas, rodas de samba, muita bebida e, em algum momento o caruru, hoje tradicional. E tudo isso passava despercebido, salvo algum incidente violento, uma briga tornada pública nas notas policiais dos jornais. Diferente das demais festas de Salvador, a de Santa Bárbara não tinha o formato de barracas em volta da igreja, fogos de planta, quermesses, leilões, romaria marítima, pau de sebo, cavalinhos, concursos e nem a lavagem das escadarias do templo.

A tradição do caruru, comida de santo, o Amalá, ritual votivo de Xangô, Iansã, Obá e Ibêji, em qualquer tempo em que tenha se originado esta pratica no contexto do evento, marcou em definitivo um traço dessa festa que se consolidou como uma celebração sincrética, com fortes elementos da cultura afro. Eulina tinha razões de sobra para agradecer a Santa Bárbara, no preceito assumido, praticando a distribuição gratuita de milhares de acarajés. Não era caruru, mas era também comida santa.

* Nelson Cadena é publicitário e jornalista, escreve às sextas-feiras

 

Extraído do site do Jornal Correio 24hs / Salvador – BA
http://www.correio24horas.com.br/detalhe/nelson-cadena/noticia/nelson-cadena-santa-barbara-dos-mercados/?cHash=2e29fede9aa4107b2285c20096118602

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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