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No templo dirigido por Pai Alíssio, se recebe todas as classes, até artistas, cantores e políticos

2016-09-21-photo-00000960
Na foto Kelly Sanchez ao lado de seu marido Pai Alíssio Tully (fonte: internet)

Passava das 14 horas, eu e Priscila – colega que me sugeriu buscar ajuda espiritual – pegamos um táxi em direção ao aeroporto Zumbi dos Palmares em Maceió.
O intuito? Chegar em São Paulo capital e conhecer de perto um Centro de Umbanda, comandado por um casal, Alíssio Tully é um pseudônimo usado a pedido dos guias espirituais e Kelly Sanchez, sua esposa.

O voo marcado para decolar às 13:25 decolou pontualmente no horário. Durante o voo olhei pela janela e observei cuidadosamente o céu de brigadeiro, mas estava ali para ir ao encontro de outro “CEU”, e confesso, minha ansiedade de conhecer um terreiro de Umbanda conseguia ser maior do que passar pela turbulência que persistiu durante toda viagem.
Afinal, seria minha estreia em um solo sagrado com relação direta aos cultos afros, tal qual a saudação aos Orixás–Divindades cultuadas como energia oriundas da natureza, e tal força auxilia o ser humano nas dificuldades do dia a dia, e também ajudando-o a evoluir continuamente, de acordo com fundamentos da religião fundada em 1908 por Zélio Fernandino de Morais.
Desembarcamos no aeroporto Governador Franco Montoro – Guarulhos, e me despedi rapidamente da minha tutora Umbandista, que aproveitou a ida a São Paulo para resolver assuntos pessoais, e eu segui direto para o templo religioso localizado no bairro da saúde, zona sul da cidade.

Após quase 2 horas de trânsito caótico, enfim cheguei ao destino, o CEU Estrela Guia, mas ainda faltava conhecer pessoalmente Pai Alíssio Tully, motivo principal da minha viagem de Maceió para Sp.
Ainda na calçada o número de pessoas era grande, muito maior do que eu imaginava para um terreiro de Umbanda constituído num bairro de classe média na Capital Paulistana. De fato o congestionamento que pegara nas marginais me impediram de ouvir toda fala, mas mesmo assim consegui ouvir palavras de fé, apoio, esperança e pedidos de silêncio pelo tempo da “gira” em sinal de comunhão de pensamento e respeito. Tudo isso numa voz grave, mas ao mesmo tempo de fala doce, harmônico e pra lá de bem humorada de Pai Alíssio, um loiro de olhos azuis com quase 1,90m de altura que chama atenção por onde passa. Ele um administrador e jornalista, ela, Kelly, uma engenheira civil que dirigem mais quarenta voluntários, que fazem toda semana encontros semelhantes em benefício do próximo sem nenhum tipo de cobrança financeira. Ele, jovem, com cara de gringo dinamarquês, ela morena de alta estatura, e são a antítese de Pais de Santo no imaginário popular.
Passado a euforia de conhecê-lo, afinal estava diante de uma celebridade no meio religioso, cujos textos publicados em redes sociais superam facilmente a marca de 1.000.000 de views. A fila à espera de Pai Alíssio e todo grupo que compõe a Casa só aumentava, sinal da popularidade do terreiro e prenúncio de noite longa. Ainda do lado externo passam por mim duas senhoras de traços familiares, bem vestidas e maquiadas. Trocamos um sorriso amistoso.

Comento com um homem ao meu lado: “Conheço uma destas senhoras de algum lugar. Não consigo lembrar de onde”, e ele responde: “É comum virem personalidades, aqui é lugar que se encontra paz em meio a selva de pedra, a gente até se esquece de tanta tragédia.” – pontua o jovem senhor.
Mais de uma hora e meia depois, tudo seguia no mesmo ritmo. Já na pequena cantina e ao lado uma loja, agora já praticamente lotados, observo de novo a senhora de fisionomia familiar. Então cai a ficha: A mulher de um Ministro do STF – Superior Tribunal Federal, sob o olhar de quem busca a tranquilidade e passar despercebida aos olhares de quem não à conhece. Reconheci por conta de uma entrevista que fizera no STF com os juízes federais nos bastidores do impeachment da presidente Dilma.

Descubro que diversas personalidades políticas e até artísticas procuram Pai Alíssio e sua esposa Kelly para pedirem conselhos.
Curiosidades e Fé

A noite prometia outras surpresas. Tudo era novidade pra mim, que sou de ascendência francesa e de família ortodoxa, e dias antes, após uma consulta de rotina no médico, descobri um nódulo no útero que passara a me atormentar emocionalmente. Nunca havia mergulhado nos mistérios da Umbanda. Fui ao terreiro por indicação de uma colega, Priscila, que todos os dias interage com público nos textos de Pai Alíssio, e mais, numa das ocasiões que veio à Sp para tomar passe no terreiro, acabou conhecendo no avião Frank, seu atual namorado, nascido na Alemanha e que desde o encontro firmou permanência no Brasil. Ela e mais quase 10.000 pessoas são fãs assíduas do jovem Sacerdote Umbandista e todos os voluntários, e em sua maioria mulheres. No entanto há uma curiosidade, Pai Alíssio Tully é um pseudônimo, e que carrega mais um mistério assim como toda a Umbanda, traçada por mistérios, não há sequer um vídeo, uma foto em que ele apareça publicamente, despertando ainda mais a curiosidade do público.

Despida de quaisquer juízos preconcebidos e armada com minha curiosidade jornalística que me moveu à Sp para conhecê-lo, e uma boa dose de fé, adentrei no território de Pai Alíssio também para me curar. Apesar de não ser dia de atendimento de saúde — dia específico em que ocorrem cirurgias espirituais, sem nenhum tipo de corte — aproveitei para pedir que se for do meu merecimento, ter a extinção do nódulo uterino.
A Casa tem a cor predominante em azul claro, uma homenagem à rainha dos mares, Iemanjá, que é sincretizada pela Nossa Senhora dos Navegantes. Todos os ambientes possuem tons claros, tudo limpo e com cara de novo, tudo sinalizado, assim como toda a organização do terreiro é tamanha que, pode-se comparar a assepsia digna de uma empresa dos moldes europeus, ou ainda templos Budistas do Japão.

As ações dos voluntários mesmo seguindo padrões, todos abrem largo sorriso por estarem ali, é notória a atmosfera do lugar. Durante a espera, são feitas defumação tendo como base o benjoim, alecrim e alfazema, que juntos formam um elixir poderoso contra energias maléficas, espíritos malfeitores e equilíbrio energéico Também são cantados diversas músicas denominadas “pontos cantados”, entre eles o hino da Umbanda, que ao olhar ao redor enquanto as músicas são entoadas, escorrem lágrimas de diversos adeptos tal qual num transe mais sutil.

Kardecista praticante desde os 5 anos, o Pai de Santo em voga, ingressou na Umbanda aos 28 anos, e assim como todo médium de incorporação umbandista, incorpora a linha de pretos-velhos (sábios anciões), caboclos (indígenas), exu (guardião), zé pilintra (malandro), Dr Hanz (médico alemão) entre outros. No terreiro há um altar com diversas imagens que, segundo Pai Alíssio representa a sincretização dos Santos Católicos com os Orixás africanos. Além disso Pai Alíssio é também diretor de federação de Umbanda de Diadema, a FUCABRAD, uma das principais do Brasil.
Há também uma casinha preta e vermelha perto da entrada, onde todos os voluntários se abaixam e bate palmas, num tipo de saudação há alguma força ali presente.

Descarrego e Cura

A missão de Pai Alíssio, ao evocar os espíritos denominados naquela noite, era de afastar entidades negativas com a abertura dos Orixás e descarrego com caboclos. Priscila é autodidata acostumada a “beber” de várias fontes desde criança, em sua rica espiritualidade pós-moderna, ela já foi do xamanismo a messiânica, fazendo escalas onde pôde alimentar sua fé.

Ela se apega a Deus, na ciência, nas forças da natureza, ao se lançar com amor e determinação na busca de tratamento e alento para sua avó, que fora diagnosticada com mal de Alzheimer, que bateu à porta sem avisar.

Passa das vinte e uma horas, quando chega minha vez de eu ser levada à gira de caboclo dirigida por Pai Alíssio e Mãe Kelly.
Entro, sou encaminhada por um simpático jovem de nome Rodolfo, um primor de educação, passo por uma antessala com uma biblioteca, retiro meus tênis e os-deixo sobre uma pequena sapateira.
Com as pernas trêmulas, entro no pequeno salão e vejo Pai Alíssio arreado em posição que me fez lembrar uma onça caçando. Cumprimento o caboclo, “seu 7 Pedreiras”, e imediatamente algo partindo dele me faz vibrar dos pés a cabeça, naquele incessante ato de passar as mãos repetidas vezes ao redor do meu corpo sob estalos de dedos, sinto como se tivesse retirando toneladas de meus ombros. Mal consigo abrir os olhos. De repente, Pai Alíssio sob o controle do caboclo das 7 pedreiras, olhando firmemente para o alto da minha cabeça e pergunta:
– O que ‘voze’ tem pra falar pra caboclo?
Digo apenas que desejo ter tranquilidade para lidar com o cisto no útero, e ele, o caboclo, responde em tom firme e decisivo sentenciando:
– Isso não é problema, isso vai se resolver!
E como num passe de mágica comecei a chorar copiosamente, o que não tenho por hábito me emocionar facilmente, talvez pela própria profissão que me faz olhar sob a ótica jornalística.
Observo ao redor e diversos outros médiuns em transe, todos com seus colares multicores e todos incorporados.

Tem gringo na Umbanda

A fama de Alíssio é de fazer o bem. É o que fez um grupo de pessoas vindas da Argentina para visitar o terreiro, trazendo com eles uma senhora doente em busca de dias melhores.
O Pai de Santo, depois, afirma categoricamente que não há o que temer: “Na Umbanda, incorporação de uma entidade não é possessão. Se a pessoa começar a sentir os primeiros fluídos energéticos do transe mediúnico, ele pode ou não permitir a ligação entre os dois planos, o material e o espiritual. É uma parceria. Nada é forçoso. Em absoluto.” – afirma Tully.

Alíssio diz que no início de seu desenvolvimento na Umbanda, se questionava muito, porque na época não havia teoria compartilhada na internet, apenas em livros. “Pensava: Caramba como é dinâmica a Umbanda, e quase inacreditável, pois presenciar minha esposa incorporando era e continua sendo o máximo. Logo ela que era frequentadora assídua das missas do Padre Marcelo. A fé vem do sentir e a Umbanda é 100% sensorial.”

A prova de fogo

É chegada a hora de ir embora, agradeço a Rachel, uma sorridente e jovem morena de cabelos vermelhos que transita livremente entre as salas de atendimento, recebendo e encaminhando a centena pessoas que passam por lá. e nada da Priscila, minha colega, aparecer. Acabou se atrasando e no CEU Estrela Guia existe uma rígida disciplina com silêncio, organização, fluxo de pessoas, e claro, o horário.  Respeitosamente ela me aguardava do lado de fora, ao lado dos seguranças do terreiro.

Um arauto da paz

Em meio à uma onda de intolerância, ele fala abertamente de cultura de paz, tolerância, e diálogo inter-religioso. “Todos são bem-vindos. O terreiro é frequentado por vários pastores evangélicos que, nas quintas-feiras nas reuniões de ajuda aos dependentes de álcool e drogas veem colaborar com o trabalho. Tem um bispo mineiro da Igreja Católica que admira nosso trabalho e fã daquilo que pregamos e sobretudo fazemos pelo próximo. O amor deve prevalecer em quaisquer religiões.”

“Nosso Solo Sagrado nunca sofreu ataques e desejo que nisso nunca aconteça. Somos amparados pela Constituição, respeitamos a carta magna da religião, fazemos tudo conforme a lei, com alvará de funcionamento, e mais do que isso, todos os voluntários se predispõe à ajudar seu semelhante de forma espontânea, justa e perfeita. Não há razão para confronto. Se tudo for “olho por olho” ficaremos todos cegos.” – pondera Alíssio Tully

A intolerância sempre existiu. “Tem ondas. No passado, a polícia entrava e colocava todo mundo em cana, passavam a noite no xilindró. Também já houveram casos com católicos e evangélicos. Nada que tenha fundamentalismo absurdo é algo positivo.”

No caso da minha colega Priscila, sua avó teve a doença “estacionada”. Mas poderia não ter acontecido nada, diz Pai Alíssio. “É o primeiro grande ensinamento: lidar com nossa impotência”, diz Alíssio.

“Não curamos ninguém na Umbanda, não trazemos ninguém amarrado em 7 dias, não atravessamos as leis divinas. Somos instrumentos para a prática do bem, da expansão da consciência, e entendemos que as transformações podem ter resultado desejado ou não, tudo de acordo com a lei de merecimento e causa & efeito. Somos herdeiros de nós mesmos. Só se colhe aquilo que se planta.”

Por Anne Marie Chermont – enviada da Pringsheim News Agency – Pringsheim Diaries Journals – 2009-2016
Fonte: Release

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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